A V I S O


I am a Freemason and a member of both the regular, recognized ARLS Presidente Roosevelt 75 (São João da Boa Vista, SP) and the GLESP Grande Loja do Estado de São Paulo, Brazil. However, unless otherwise attributed, the opinions expressed in this blog are my own, or of others expressing theirs by posting comments. I do not in any way represent the official positions of my lodge or Grand Lodge, any associated organization of which I may or may not be a member, or the fraternity of Freemasonry as a whole.

terça-feira, 22 de julho de 2025

Maçonaria e a Jornada Interior: Diálogos com Carl Gustav Jung

Roteiro para estudos sobre conceitos de Imaginação, Rituais e o Inconsciente Coletivo

 A Maçonaria sempre foi um campo fértil para o cultivo da interioridade, da simbolização e da construção do ser. Seus ritos, alegorias e instruções silenciosas encontram ecos poderosos nas grandes tradições filosóficas e espirituais da humanidade. No entanto, no limiar da contemporaneidade, o desafio é re-encantar os símbolos com sentido, abrindo espaço para novas leituras que não destruam o antigo, mas o fecundem.

É nesse contexto que o pensamento do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875–1961) se apresenta como um manancial instigante. Ao compreender o ser humano como um ser simbólico e ao valorizar a imaginação ativa, os arquétipos e os processos de individuação, Jung fornece à Maçonaria uma lente poderosa para rever e revitalizar sua ritualística e sua pedagogia interior.

Este pequeno roteiro de ideias fundantes propõe-se como um convite inicial. Um mapa, não o território. Um compasso, não o traçado. Um caminho que possa iniciar o leitor — maçom ou interessado — em uma jornada simbólica enriquecida pelos insights da psicologia profunda, a partir da caminhada de estudo pelos conceitos aqui elencados.

Maçonaria: Simbolismo e Transformação

A Maçonaria é, antes de tudo, uma escola de símbolos. Seus ritos não apenas comunicam valores, mas transformam o iniciado através de experiências que apelam à totalidade do ser. No entanto, sem uma chave hermenêutica adequada, tais símbolos podem se tornar esvaziados. É aqui que entra o olhar junguiano: o símbolo é mais que um signo — é a porta para o inconsciente.

  • Simbolismo como linguagem da alma

  • O rito como drama arquetípico

  • Imaginação como ponte entre o visível e o invisível

Carl Gustav Jung: Ideias Fundamentais

Jung compreendeu que o inconsciente não é um depósito de resíduos mentais, mas um espaço criativo e estruturante da personalidade. Seus principais conceitos — arquétipos, inconsciente coletivo, sombra, anima/animus, Self — fornecem uma gramática para interpretar os símbolos maçônicos com profundidade.

  • Arquétipos: imagens primordiais da experiência humana

  • O inconsciente coletivo e a tradição iniciática

  • A individuação como caminho espiritual

O Iniciado e a Jornada do Herói

A estrutura iniciática da Maçonaria coincide, em muitos aspectos, com o percurso simbólico descrito por Jung como processo de individuação. O Aprendiz é aquele que desce ao interior da terra (símbolo da psiquè), o Companheiro confronta a sombra, e o Mestre reencontra o Self — o centro divino interior.

  • Iniciação como rito de passagem psíquico

  • A descida ao “inconsciente” como laboratório alquímico

  • Jung e Joseph Campbell: convergências com o mito maçônico

A Imaginação Ativa e o Rito Maçônico

A “imaginação ativa” em Jung é a prática de dialogar conscientemente com imagens interiores. Isso ressoa com a vivência ritualística da Maçonaria, onde o símbolo não é só compreendido intelectualmente, mas encarnado pelo gesto, pelo silêncio, pelo espaço-tempo sagrado.

  • Do símbolo ao arquétipo vivo

  • Visualização, meditação e silêncio ritual

  • O templo como projeção psíquica

A Sombra e a Ética Maçônica

Jung advertia que ignorar a sombra — o lado rejeitado do eu — conduz ao fanatismo e à alienação. A Maçonaria, ao instar o homem ao autoconhecimento, pode assumir uma postura junguiana ao encorajar a integração da sombra como base para uma fraternidade genuína.

  • Reconhecer o lado obscuro: moralidade não dogmática

  • O altar interior: reconciliação de opostos

  • Fraternidade como laboratório ético de individuação

O Self e a Pedra Angular

O conceito junguiano de Self — totalidade que integra o consciente e o inconsciente — guarda estreita relação com o ideal maçônico da Pedra Angular: aquilo que sustenta o templo invisível do ser. A Maçonaria oferece, assim, um arcabouço simbólico para o florescimento da totalidade interior.

  • O Self como núcleo do ser

  • Pedra bruta e Pedra cúbica: evolução interior

  • Da multiplicidade à unidade: vocação mística da Maçonaria

Implicações Práticas e Recomendações Rituais

Esta seção propõe sugestões concretas de como os insights de Jung podem enriquecer a prática ritualística maçônica:

  • Leitura junguiana dos graus simbólicos

  • Oficinas de imaginação ativa para maçons

  • Meditações guiadas com os símbolos do templo

  • Círculos de estudos simbólico-psicológicos

Uma Alquimia Espiritual Contemporânea

A obra de Jung não pretende substituir a tradição maçônica, mas iluminá-la por dentro. Ao invés de mera análise racional, propõe uma hermenêutica simbólica que honra o mistério, o silêncio e o sagrado. Sua linguagem oferece à Maçonaria um caminho de renovação que dialoga com os tempos atuais sem perder a profundidade ancestral.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

435 postagem: Solidão, alienação e o excesso de (des)informação...

    Vivemos em uma era aparentemente paradoxal. Nunca antes na história da humanidade estivemos tão cercados por fontes de informação — para o bem e para o mal –  e, no entanto, nunca estivemos tão desorientados quanto ao sentido profundo de nosso lugar no mundo. As TIC – tecnologias digitais de informação e comunicação – e os fluxos contínuos de dados reconfiguram as formas de viver, pensar, sentir e se relacionar. Nesse contexto, a alienação não desapareceu. Ao contrário, disfarçou-se, tornou-se mais sutil, mais insidiosa, mais internalizada. O presente ensaio propõe uma rápida mas necessária reflexão sobre como, na atualidade, a alienação modifica o homem em suas dimensões cognitivas, afetivas, sociais e existenciais.

    Falemos inicialmente de certa ilusão do “saber”, que degenera em certeira alienação da consciência crítica.  Na sociedade dita ‘da informação’, o acúmulo de dados é muitas vezes confundido com conhecimento. O indivíduo é “bombardeado” a todo instante por conteúdos diversos (em gênero e grau), em ritmo acelerado, com pouco ou nenhum tempo para a “digestão” crítica. A pressa de consumir substitui a lentidão da apropriada interpretação, que conduz à adequada compreensão. As narrativas surgem como que prontas, “mastigadas”, diagramadas para atribuirmos “likes" e provermos compartilhamentos. A consequência é clara: a mente torna-se reativa em vez de reflexiva. A alienação, aqui, se manifesta como um entorpecimento da Razão — o homem deixa de pensar por si mesmo e passa a repetir, a ecoar, a seguir, a concordar…

    Por outro lado, a identidade humana, antes construída na intimidade da experiência vivenciada (ou seja, pessoalmente significada) e da história de vida, torna-se cada vez mais performática. O sujeito contemporâneo não apenas vive, mas se exibe (con?)vivendo. As redes sociais transformam a vida em vitrine, e o indivíduo, em marca. Nessa “lógica”, o valor do ser é substituído pelo valor do parecer. A alienação da identidade consiste, então, na perda de contato com o próprio Eu autêntico. Em busca de aprovação, o homem adere a máscaras. Vive para agradar o outro — o algoritmo, a turma, a galera, o grupo, o público, o mercado.

    Outra dimensão decorrente que merece atenção seria a da “solidão em rede”, configurando certa alienação, certo afastamento das relações humanas. Curiosamente, observamos que a hiperconectividade traz consigo um isolamento paradoxal. O homem atual está “online" mas, como se considera, raramente está presente. Os vínculos virtuais substituem os encontros reais; os emojis, os afetos genuínos. Com isso, a empatia, a escuta profunda e o diálogo tornam-se enviesados, distorcidos ou mesmo raros. A alienação nas relações humanas reside na substituição do encontro pelo contato, do vínculo pela interação superficial, descompromissada. As relações se tornam como que descartáveis, e o outro é percebido não como sujeito, pessoa, mas como veículo, estímulo ou obstáculo.

    Observamos nesse  cenário uma outra dimensão que merece destaque: o tempo, que se mostra fragmentado, desdobrando-se na divisão insuspeitada entre atenção e presença. O capital mais precioso do século XXI não é o dinheiro, mas a atenção. As plataformas digitais competem por segundos da mente humana, moldando seus hábitos e seus ritmos. O resultado é uma atenção dispersa,, ansiosa -- não cônscia… O homem, incapaz de sustentar o silêncio ou a espera, vive em estado de distração permanente. A alienação do tempo se expressa na perda da profundidade:  não se lê longamente, não se conversa (diálogo) demoradamente, não se contempla. Tudo é imediato, volátil, efêmero e mediado… A multiplicidade de discursos, verdades alternativas (apresentadas em geral de modo polarizado) e manipulações informacionais tem corroído o senso comum da realidade. Em um mundo onde todos podem dizer “tudo”, o critério de verdade torna-se frágil. A alienação da realidade ocorre quando o indivíduo perde a capacidade de discernir o que é real do que é fabricado, confundindo opinião com fato, crença com evidência. Tal confusão favorece extremismos, polarizações, terraplanismos, pós-verdades e a erosão da confiança coletiva. 

    Assim, em decorrência, a forma mais radical de alienação caminha para a perda de sentido. Quando o homem é reduzido a consumidor, a figurante de estatísticas, a produtor de conteúdo, ele se distancia das perguntas fundamentais: Quem sou eu? Para que estou aqui? O que é o Bem, o Belo, o Justo? A vida é vivida com pressa, sem pausa para a contemplação do mistério que a sustenta. O homem alienado existencialmente não sabe mais sonhar, imaginar, transcender — ele vive no plano efêmero da superfície, anestesiado pela rotina e apartado pelas delusionais e constantes alheações.

    E quais são os caminhos disponíveis para enfrentar a alienação, superando-a? Podemos divisar que é urgente o cultivo de práticas que permitam ao homem recuperar sua inteireza, entre elas o silêncio; a escuta; a leitura lenta e atenta;  a amizade fraterna, honesta e verdadeira;  o diálogo filosófico; a espiritualidade livre de liames do homem; o engajamento ético. Contra a alienação, propõe-se um retorno à busca infinda pela realizante interioridade, ou seja, à contemplação, ao compromisso, à ação plena de responsabilidade.

    Superar a alienação não é rejeitar a modernidade e seus produtos, mas atravessá-la com lucidez. É fazer da informação um instrumento de criticidade, de busca pela sabedoria; fazer da tecnologia um meio de encontro e,  fazer da vida — não um mero espetáculo — mas um caminho consciente e desafiador de resposta ao que nos interpela; vida de efetiva, grata e participante presença, vida de comprometimento, vida de entrega efetiva;  de construtiva dialogicidade, de verdade e de sentido...

terça-feira, 15 de julho de 2025

A Moral Provisória de Descartes como Guia Prático para o Aprendiz Maçom

O Grau de Aprendiz é o ponto de partida na jornada maçônica. Nele, o neófito é convidado a observar, estudar, silenciar e começar a polir sua “pedra bruta”. Nesse estágio inicial, a sabedoria plena ainda não foi alcançada, e o Aprendiz está, por definição, em fase de construção. É justamente neste contexto que a moral provisória de René Descartes se revela extraordinariamente útil: ela oferece um mapa ético pragmático, ideal para quem ainda está estruturando seu edifício interior.


Vejamos como cada máxima pode ser aplicada na prática pelo Aprendiz Maçom:

1. “Obedecer às leis e costumes do país [...] e seguir as opiniões mais moderadas”

Aplicação no trabalho maçônico: r espeito à Tradição, regularidade e moderação.

O Aprendiz deve, antes de tudo, respeitar a estrutura da Ordem e suas regras, mesmo que nem tudo lhe seja plenamente compreendido. Isso está alinhado à exigência cartesiana de conformidade provisória com as leis e costumes. O Aprendiz ainda não tem todas as luzes, mas deve confiar no método e no rito que lhe são oferecidos.

Além disso, a moderação exigida por Descartes se aplica diretamente ao aprendizado do silêncio. O Aprendiz, por exemplo, tem direito de voz limitado na Loja e isso não é censura, mas uma lição de humildade e equilíbrio. A moderação nas opiniões e atitudes ajuda a evitar os extremos emocionais ou intelectuais que podem obstruir o verdadeiro progresso moral.

Exemplo concreto: Ao invés de julgar ou criticar ritos e símbolos que ainda não entende, o Aprendiz deve praticar a disciplina do silêncio reflexivo, esperando o momento certo da compreensão. Isso é, ao mesmo tempo, respeito pela Tradição e expressão de moderação cartesiana.

2. “Ser o mais firme e decidido possível nas ações”

Aplicação no trabalho maçônico: constância no progresso pessoal.

Descartes sugere que, na dúvida, devemos agir com firmeza dentro do que é racional e ético. Para o Aprendiz, que está constantemente diante do desconhecido (símbolos, ensinamentos velados, tarefas interiores), é essencial manter a perseverança.

A Maçonaria ensina que o Templo não se constrói em um dia, e que o trabalho do Aprendiz é árduo, solitário e interno. A firmeza cartesiana sustenta essa jornada: mesmo sem plena compreensão, ele deve manter-se constante, comparecendo às sessões, estudando os símbolos, meditando sobre as virtudes.

Exemplo concreto: Mesmo não compreendendo completamente o significado do esquadro e do compasso, o Aprendiz deve observá-los, meditar sobre sua possível aplicação moral e disciplinar sua conduta de acordo com os valores de retidão e contenção que representam.

3. “Mudar a si mesmo, e não o mundo”

Aplicação no trabalho maçônico: lapidação da pedra bruta.

Esta máxima é, talvez, a que mais diretamente dialoga com o simbolismo do Grau de Aprendiz. A “pedra bruta” representa o estado inicial do iniciado, com suas imperfeições, vícios e paixões. A missão do Aprendiz é começar a polir essa pedra, ou seja, reformar-se interiormente. Descartes, ao propor o autodomínio como chave da felicidade, ecoa o mesmo princípio fundamental da Maçonaria.

A Sublime Arte ensina que, antes de criticar ou reformar a sociedade, o homem deve reformar a si mesmo. O Aprendiz, então, é exortado a olhar para dentro não para fora e identificar o que deve ser transformado.

Exemplo concreto: Diante de uma situação de conflito ou desconforto interpessoal, o Aprendiz deve resistir ao impulso de culpar o outro ou o ambiente, e, à luz de seus estudos, perguntar-se: o que posso mudar em minha postura, emoção ou reação para tornar essa situação mais harmônica?


Assim, a moral provisória de Descartes oferece ao Aprendiz Maçom um modelo de conduta baseado na prudência, firmeza e reforma interioros mesmos valores fundamentais do primeiro grau da Maçonaria. Ao aplicá-la no dia a dia, o Aprendiz transforma a incerteza inicial de seu caminho em oportunidade para edificação de si mesmo.

Descartes nos mostra que é possível agir eticamente mesmo sem possuir todas as verdades. A Maçonaria ensina que esse agir constante, silencioso e disciplinado é o verdadeiro caminho da iluminação. Assim, o Aprendiz que vive segundo esses princípios não apenas honra a tradição da Ordem, mas também prepara o terreno para se tornar um verdadeiro Iniciado — um construtor consciente do Templo da Virtude.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

“SOBRE A ESTUPIDEZ”, DE ROBERT MUSIL

obtido hoje de
https://www.migalhas.com.br/literarias/frase/monteiro-lobato/a-estupidez-humana-e-irredutivel


Estes nossos tempos tem sido - surpreendentemente - caracterizados por torrentes de fake-news, artigos, notícias, reportagens, postagens etc enganosas, contribuindo para o rebaixamento geral da inteligência das pessoas. A polarização de ideias chega a assustar pela virulência desmedida. A dita inteligência artificial tem contribuido para acelerar este borbulhão de asneiras, que tem sido combatido desde antigamente.


Hoje apresento trabalhos que, isoladamente ou não, tem contribuido para enfrentar esta 'epidemia' de basbaquice e despautério que, também supreendentemente, tem seduzido muitas pessoas. Parece para boa parcela da população (em todas as classes sociais, de generos e idades as mais diversas) que não é mais censurável ser 'maluquete', descabeçado, palerma, imbecil, cretino. Que fazer; dizem que os valores estão de 'ponta-cabeça'...


O primeiro é de um autor muito citado, e que numa pequena obra apresenta uma reflexão bem proveitosa, e rápido de assimilar. Boa reflexão!


“Sobre a Estupidez" (Uber die dummheit - Belo Horizonte: Editora Âyiné, 4a. ed., 2022 - 51p.) é um ensaio provocativo e irônico do escritor austríaco Robert Musil, originalmente apresentado como conferência em Viena, em 1937. Nessa obra, Musil propõe uma análise filosófica e crítica da estupidez humana, desafiando concepções tradicionais e revelando suas múltiplas facetas.


Conceito de Estupidez - Musil inicia sua reflexão reconhecendo a dificuldade de definir a estupidez de forma precisa. Ele observa que a estupidez não é simplesmente a ausência de inteligência, mas uma condição mais complexa que pode coexistir com a racionalidade e a cultura. Segundo o autor, todos nós somos suscetíveis à estupidez em algum momento, e ela se manifesta de diversas maneiras, muitas vezes disfarçada de sabedoria ou genialidade.


Tipos de Estupidez - Musil distingue dois tipos principais de estupidez:

1. Estupidez Honesta: Relacionada à limitação intelectual genuína, sem pretensões ou disfarces.

2. Estupidez Inteligente: Mais perigosa, pois é sofisticada e muitas vezes mascarada por discursos eruditos ou atitudes pretensiosas. Essa forma de estupidez é comum entre pessoas cultas que, apesar de seu conhecimento, agem de maneira insensata ou irracional.

Estupidez e Sociedade - Musil argumenta que a estupidez está profundamente enraizada nas estruturas sociais e culturais. Ela se manifesta em comportamentos como a vaidade, o julgamento precipitado e a adesão cega às convenções. O autor sugere que a estupidez é uma força que pode influenciar decisões políticas, artísticas e científicas, muitas vezes com consequências desastrosas.

    "Sobre a Estupidez" é uma obra que convida à introspecção e à crítica das próprias convicções. Musil não oferece soluções simples, mas encoraja uma postura de vigilância constante contra as armadilhas da estupidez, tanto em nível individual quanto coletivo. Seu ensaio permanece atual, especialmente em tempos de desinformação e superficialidade intelectual.

    A seguir apresentamos mais obras de Musil e de outros autores, para aqueles que desejam 'andar a segunda milha'... 'vacinando-se' assim perante as situações que por vezes não temos recursos para o correto enfrentamento.

Leituras Complementares sobre a Estupidez:

1. "Sobre a Estupidez Três Ensaios" de Robert Musil.

Além do ensaio principal, esta edição inclui outros textos em que Musil reflete sobre a condição humana e a estupidez. A coletânea oferece uma visão mais ampla do pensamento do autor sobre o tema. [1]

2. "A Estupidez e a Literatura: Três Tentativas de Robert Musil" Dissertação de Mestrado.

Este trabalho acadêmico analisa o problema moral da estupidez a partir do romance "O Homem sem Qualidades", de Musil, oferecendo uma interpretação aprofundada de sua obra. [2]

3. "Fragmentos de um Discurso sobre a Estupidez" Artigo Acadêmico.

Este artigo explora a conferência de Musil sobre a estupidez, discutindo suas implicações filosóficas e sociais. [3]

4. "La Gente ES Estúpida El porqué de La estupidez Y Cómo Sobrevivir A Su Tiranía" de Larry Winget.

Este livro aborda a estupidez humana de forma direta e provocativa, oferecendo insights sobre como lidar com comportamentos estúpidos no cotidiano.

Citações:

1. PróximoLivro.net: proximolivro.net/sobre-a-estupidez-tres-ensaios/67094?utm_source=chatgpt.com

2. ULisboa Repository: repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/33037/1/ulfl243178_tm.pdf?utm_source=chatgpt.com

3. Universitat de Barcelona: www.ub.edu/las_nubes/archivo/ocho/articulos/Anabel_estupidez8.pdf? utm_source=chatgpt.com 


Obras Clássicas e Filosóficas:

1. "Crítica da Razão Pura" de Immanuel Kant.

   - É uma análise profunda sobre os limites da razão humana e como o uso inadequado da razão pode levar a erros e mal-entendidos.

2. "O Mundo como Vontade e Representação" de Arthur Schopenhauer.

   - Explora como a vontade irracional pode dominar a razão, levando a comportamentos insensatos.

3. "A Sociedade do Cansaço" de Byung-Chul Han.

   - Analisa como a pressão por desempenho e a positividade tóxica na sociedade contemporânea podem resultar em comportamentos estúpidos e autodestrutivos.


Obras Literárias e Satíricas:

1. "O Idiota" de Fiodor Dostoiévski

   - Através do personagem Príncipe Míshkin, o autor explora a ingenuidade e a pureza em contraste com a corrupção e a estupidez da sociedade.

2. "Cândido ou o Otimismo" de Voltaire.

   - Uma sátira que critica o otimismo filosófico e expõe a estupidez das convenções sociais e religiosas.

3. "O Elogio da Loucura" de Erasmo de Roterdam.

- Uma obra que, com humor e ironia, critica os abusos da Igreja e da sociedade, destacando a loucura e a estupidez humanas. Uma de minhas preferidas...


Obras Contemporâneas e Ensaios:

1. "A Era da Estupidez" de George Monbiot.

   - Um documentário e livro que examina como as escolhas humanas estão levando a catástrofes ambientais, destacando a estupidez compartilhada, pública.

2. "A Estupidez Coletiva" de José Ortega y Gasset.

   - Analisa como as massas podem ser levadas a comportamentos irracionais e estúpidos por líderes ou ideologias.

3. "A Sociedade do Espetáculo" de Guy Debord.

   - Discute como a mídia e o consumismo contribuem para a alienação e a estupidez na sociedade moderna.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Pistas do sentir-se de bem com o mundo...


https://www.pensador.com/frases_sobre_felicidade/


Sou uma pessoa feliz. Aprendi a contentar com o pouco que tenho e sistematizei uma maneira de ver o mundo de ta modo que dificilmente me entristeço. Hoje vou dar uma pista, um dos fundamentos de minha maneira de considerar as coisas que não posso mudar, ou seja, que estão fora de mim, em tese, "fora" do meu poder de altera-las. Óbvio que o acesso a muitas coisas que aprecio me fazem "feliz", como a música, a companhia de gente boa, etc., mas o modo de pensar é o segredo de ser feliz, pois visualizamos o mundo melhor do que ele em geral se apresenta e, grosso modo, minimizamos ou impedimos assim as chances da infelicidade se apresentar...


Uma conceituação que me ajudou muito em treinar minha mente foi o conatus, que é um dos pilares fundamentais da filosofia de Baruch de Spinoza (1632-1677), filósofo holandês de origem portuguesa, cujo pensamento se distingue pela busca de um sistema filosófico racionalista e monista. Spinoza (em português Bento de Espinosa - a familia dele veio para Holanda de Portugal) foi um dos pensadores mais influentes da era moderna, e sua teoria ética e metafísica, expressa principalmente em sua obra magna, Ética, oferece uma visão profunda da natureza humana, do universo e da moralidade. O conatus, ou "impulso" ou "tendência", é uma ideia central em seu sistema filosófico e está diretamente ligado à sua concepção de substância, livre-arbítrio, emoções, ética e à busca pela felicidade. No pensamento de Spinoza, o conatus pode ser compreendido como o esforço ou a tendência fundamental de cada ente para preservar sua própria existência. A palavra "conatus" vem do latim e pode ser traduzida como "esforço" ou "tendência". De forma simplificada, é a força interna que move todo ser a buscar a autossustentação e a perpetuação de sua natureza. Em sua obra Ética, Spinoza formula o conatus como a essência de cada coisa, afirmando que cada ente no universo possui uma tendência natural de continuar existindo conforme suas próprias propriedades essenciais.


Spinoza propõe que existe uma única substância, a qual ele chama de Deus ou Natureza (Deus sive Natura), que é a causa de si mesma e que contém todas as coisas que existem. Esta substância única se manifesta em tudo o que existe no Universo, e cada coisa particular que existe, seja ela uma pedra, um ser humano ou um planeta, é uma modificação ou modo dessa substância. Cada modo da substância, ou seja, cada ser ou objeto particular, possui o conatus como a tendência intrínseca à sua natureza. Isso significa que o conatus não é algo externo ou imposto de fora, mas uma força interna e essencial que está diretamente ligada à própria definição do ser, uma força vital que busca preservar a existência e aprimorar-se dentro dos limites da natureza. No caso dos seres humanos, o conatus é descrito por Spinoza como a tendência fundamental para a preservação e aumento do poder de agir. Para ele, a essência humana é definida pela razão e pelo desejo de autoconservação. Cada ser humano, então, está em busca de aumentar o seu próprio poder, o que pode ser entendido como o esforço para atingir a plenitude da sua natureza. 


Spinoza vai mais longe ao sugerir que o conatus também está intimamente relacionado ao desejo (ou amor), sendo este o desejo de perseverar na existência. Isso implica que os seres humanos, como todas as coisas no universo, são movidos por essa força essencial que, no entanto, é experimentada por nós de maneira mais complexa e mediada pelas emoções. Spinoza considera que as emoções humanas são modulações do conatus. Ele os chama de 'afecções' e os define como os modos pelos quais o conatus se manifesta, sendo sempre uma experiência interna do indivíduo em relação à sua autossustentação. As emoções, então, são a resposta do indivíduo à sua interação com o ambiente, sendo causadas pela adequação ou inadequação do ambiente à sua natureza.  Spinoza distingue entre emoções positivas (como o prazer e a alegria) e emoções negativas (como o sofrimento e a tristeza), e argumenta que as emoções podem ser controladas ou melhor compreendidas quando se entende a relação entre o conatus e o mundo ao redor. A felicidade, no pensamento de Spinoza, é entendida como o aumento do poder de agir de um indivíduo, e esse aumento está diretamente relacionado ao domínio das emoções e ao uso da Razão para entender melhor o que é benéfico ou prejudicial ao conatus.


Um dos aspectos mais intrigantes do conceito de conatus é a maneira como ele se relaciona com a liberdade. Em muitos sistemas filosóficos, a liberdade é muitas vezes associada ao livre-arbítrio, à capacidade de agir de forma independente. No entanto, Spinoza rompe com essa concepção. Para ele, a verdadeira liberdade não é a capacidade de agir de maneira arbitrária, mas sim a capacidade de agir de acordo com a Razão e, portanto, de agir de maneira que favoreça o conatus de forma racional e consciente. A liberdade, portanto, em Spinoza, está diretamente relacionada à compreensão da Natureza e à ação conforme a Razão. Quanto mais uma pessoa compreende as leis da natureza, tanto do universo quanto de si mesma, mais ela é capaz de agir em conformidade com o seu verdadeiro conatus, o que resulta em um aumento do seu poder de ação. Dessa forma, a liberdade verdadeira é encontrada na compreensão do que é natural e necessário, e não na capacidade de agir contra essa ordem. Em sua moralidade, Spinoza propõe que a virtude é um meio de aumentar o poder de agir, que é essencialmente a preservação do conatus. A virtude, para Spinoza, não é uma obediência a um código moral externo, mas sim uma expressão do aumento do poder de agir de um indivíduo conforme sua natureza racional. A moralidade e a ética no pensamento de Spinoza não se baseiam em mandamentos ou proibições externas, mas na Razão como um guia para viver de acordo com o conatus, ou seja, com o esforço natural de preservação e realização do ser. De acordo com Spinoza, viver eticamente significa viver em harmonia com as leis naturais do Universo, reconhecendo que a felicidade é alcançada através do conhecimento e da Razão, e não através da satisfação de desejos irracionais ou contraditórios ao conatus. Isso implica que a ética spinozista é essencialmente uma ética do autoconhecimento e do entendimento do próprio ser dentro de um Cosmo causal e interconectado. Obviamente que um razonar adequado se adquire com treinamento, dedicação e persistência.


O conceito de conatus em Baruch de Spinoza é fundamental para entender sua filosofia, pois reflete sua visão do universo como um sistema dinâmico e interconectado, onde cada ser possui uma tendência essencial à auto-sustentação e ao aprimoramento de sua natureza. Esse conceito abarca não apenas a metafísica e a ética spinozistas, mas também oferece uma perspectiva única sobre a liberdade, as emoções e a felicidade. A liberdade verdadeira, segundo Spinoza, não é a ausência de determinação externa, mas a capacidade de agir em conformidade com a Razão e de realizar o pleno potencial do conatus, levando ao aperfeiçoamento tanto do indivíduo quanto da sociedade como um todo.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Chuva e mais alguns apotegmas.

foto obtida agora de
https://riosvoadores.com.br/educacional/chuva/ 

 1. Tem chovido beeeem estas últimas semanas! Como sempre, alegria para uns, transtornos para outros, mas uma bênção sempre renovada - o cheiro de "ar limpo" é uma delícia, ainda mais se estivermos no campo. Nos jornais vemos estarrecidos os efeitos das mudanças climáticas, fato agora incontestável (a não ser por alguns 'inteligentinhos', como diria o filósofo..., que negam tudo e a todos, e teimam a achar que inexistem as mudanças). Estou a planejar minha velhice, que talvez não seja tão confortável como eu desejaria. Mas, em sendo proativo quanto a esta questão, vou esperar a hora para ver como fica, e não vou sofrer por antecipação. Mas muitas pessoas vivem como se não precisassem se preparar.  Alea  jacta  est.

2. Hoje, segunda feira,  temos reunião regular na Arte Real. Tem sido para mim momentos de contentamento poder compartilhar com os Irmãos. Uma reflexão que auferi outro dia foi sobre a gratidão. Gratidão, porque mais uma vez Deus nos acordou e nos permitiu recomeçar... Quando a gratidão é um hábito, a felicidade, principalmente nas pequenas coisas, é decorrência. A amizade, a fraternidade na Maçonaria é um dos valores fundamentais, sendo cultivada pela maioria como um laço sagrado entre os irmãos da Ordem (digo 'maioria' pois sim, como em qualquer agrupamento humano, existem os que se desviam ou insistem em viver fora do básico aprendizado).  Mais do que simples companheirismo, a amizade maçônica se baseia em valores como lealdade, respeito e cuidado, propiciando uma rede de apoio que transcende barreiras ideológicas, sociais, culturais ou geográficas. Na maçonaria, todos os irmãos são iguais, independentemente de suas origens, profissões ou crenças. Mas é um sistema baseado no mérito, e na premissa de que o avançamento espiritual é tarefa individual, pessoal, que cada um percorre no seu ritmo, no seu vivenciar, com seus idiossincráticos recursos e motivações. Mas na medida que cada um se aperfeiçoa, a Humanidade vai se aperfeiçoando também.

3.  Hoje fui caminhar no Clube aqui do lado de casa, com bengala e tudo. Comecei com trinta minutos mas já depois de amanhã vou estender a tarefa para cinquenta ou sessenta minutos. O piso é muito bom e existem muitas árvores para não deixar o calor perturbar. O perigo de sermos sedentários é enorme, mas esta atividade natural do ser humano é prazerosa.  Vou intercalar com piscina, para tomar um sol e 'soltar' os músculos...

4.  Como é importante autoexaminar-se...  Constato que, com a idade, por vezes me sucede uma 'tristezinha' do nada, que vem e vai sem aviso. Hormônios? Certo tipo de alimento? Resultado dos remédios que tenho que tomar? Pensamentos, cônscios ou não, que permeiam o dia a dia? Não chego ao ponto de ficar filosofando muito sobre isso (será angústia do viver?) pois me considero muito bem resolvido com estas temáticas.  Como não tenho certeza de nada (só da morte e os impostos, como disse o erudito), faço o que o Zen recomenda deixe vir, deixe ir...
 

Mais alguns ditados e máximas preferidos:

É bom ter nascido em tempos muito depravados; pois, em comparação com os outros, tu ganhas uma reputação de virtude a um custo pequeno.

(Michel de Montaigne)


Quando a situação for boa, desfrute-a. Quando a situação for ruim, transforme-a. Quando a situação não puder ser transformada, transforme-se. 

(Viktor Emil Frankl)


A mais alta das vitórias é o perdão. 

(Friedrich Schiller)


Todos são capazes de dominar a dor, exceto quem a sente.

(Shakespeare)


Tenho prova de que falo a verdade a pobreza.

(Sócrates)


Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade.

 A liberdade não é um fim, mas uma consequência. 

(Leon Tolstoi)


Crer é um conforto, pensar, um esforço.

(Ludwig Marcuse)


Crer é muito monótono, a dúvida é apaixonante.

(Oscar Wilde)


Ignorância e arrogância são irmãs inseparáveis.

(Giordano Bruno)


O competente não discute, domina a sua ciência e cala-se.

(Voltaire)