A V I S O


I am a Freemason and a member of both the regular, recognized ARLS Presidente Roosevelt 75 (São João da Boa Vista, SP) and the GLESP Grande Loja do Estado de São Paulo, Brazil. However, unless otherwise attributed, the opinions expressed in this blog are my own, or of others expressing theirs by posting comments. I do not in any way represent the official positions of my lodge or Grand Lodge, any associated organization of which I may or may not be a member, or the fraternity of Freemasonry as a whole.

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quinta-feira, 26 de março de 2026


O BELO, O BOM E O VERDADEIRO


Platão, o Iluminismo e a Maçonaria como

Guardiã dos Valores Transcendentais


Texto para Treinamento, Reflexão, Debate ou Mentoria




“A beleza é o esplendor do verdadeiro.”

— Platão, O Banquete


“A Maçonaria é uma instituição cujos princípios fundamentais são

a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade entre todos os homens.”

— Grande Oriente de França, Constituição de 1849



I

A TRÍADE PLATÔNICA

Fundamentos Filosóficos


A tríade “O Bom, o Belo e o Verdadeiro” — em grego, Agathon, Kalon e Aletheia — constitui, no pensamento de Platão, o núcleo dos valores transcendentais: aqueles que não se esgotam em nenhuma de suas manifestações particulares, mas que orientam toda busca genuína de elevação do ser humano. Embora Platão não os tenha sistematizado sob uma única fórmula nos diálogos canônicos, a tríade emerge de forma orgânica em obras como A República, O Banquete, Fédon e Teeteto.

No Fédon, a Verdade (Aletheia) aparece como o horizonte último do filósofo: aquele que se liberta da ilusão das aparências e busca o conhecimento das essências eternas. Em O Banquete, Sócrates transmite o discurso de Diotima, segundo o qual a Beleza (Kalon) não é apenas estética, mas uma escada ascendente — da beleza dos corpos à beleza das almas, das almas às instituições e leis, até alcançar a Beleza em si mesma, idêntica ao Divino.

Em A República, o Bem (Agathon) é apresentado como a ideia suprema, análoga ao Sol: assim como o Sol ilumina os objetos visíveis e torna possível a visão, o Bem ilumina as ideias inteligíveis e torna possível o conhecimento e a existência. Os três valores não são paralelos, mas hierarquicamente integrados: o Belo conduz ao Verdadeiro, e o Verdadeiro, em sua plenitude, coincide com o Bem.

O Bem não é apenas conhecimento, nem apenas beleza: é aquilo pelo qual o conhecimento e a beleza existem, e pelo qual a alma vê a verdade e o intelecto a contempla.

— Platão, A República, Livro VI

Trata-se, portanto, de uma ontologia moral e estética ao mesmo tempo — uma visão de mundo que recusa a separação entre ética, epistemologia e arte. Para Platão, o filósofo — assim como, mais tarde, o iniciado maçônico — não separa a busca do conhecimento da formação do caráter nem da contemplação da harmonia universal.


II

A MAÇONARIA COMO ORGANIZAÇÃO INICIÁTICA

Estrutura, propósito e herança simbólica


A Maçonaria, em sua configuração moderna — cujos marcos institucionais remontam à fundação da Grande Loja de Londres em 1717 — herdou e transformou uma tradição muito mais antiga: a das corporações medievais de construtores de catedrais (operative masonry) e, antes delas, das escolas iniciáticas da Antiguidade. As escolas pitagóricas, as eleusinas e, mais diretamente, as herméticas e neoplatônicas foram as mais influentes nessa transmissão.

A passagem da Maçonaria operativa para a especulativa (speculative masonry) não foi apenas uma mudança de objeto — da pedra física para a “pedra interior” do autoconhecimento —, mas uma transposição deliberada de uma linguagem simbólica artesanal para um sistema filosófico-moral de iniciação. O iniciado não constrói mais templos de pedra: constrói a si mesmo, lavrando a pedra bruta de sua natureza não cultivada até aproximá-la da pedra cúbica da perfeição moral e intelectual.

Esse processo se estrutura em graus iniciáticos progressivos — Aprendiz, Companheiro e Mestre, nos ritos de grau azul — e em cada etapa o candidato é confrontado com símbolos, alegorias e provas que o conduzem a uma compreensão mais profunda de si mesmo e do universo. A iniciação, nesse sentido, é rigorosamente platônica em seu método: ela opera por anamnese — o despertar do que a alma já sabe, mas esqueceu ao encarnar no mundo das aparências.


III

A TRÍADE PLATÔNICA NA ARQUITETURA

 SIMBÓLICA DA MAÇONARIA

As colunas, os instrumentos e a Palavra Perdida


A correspondência entre os valores platônicos e os fundamentos maçônicos não é acidental nem superficial. Ela se manifesta em ao menos três dimensões: na tríade das colunas simbólicas, nos instrumentos de trabalho e na narrativa central do grau de Mestre.

As três colunas: Sabedoria, Força e Beleza

Em toda Loja Maçônica regular, três colunas sustentam simbolicamente o Templo. A correspondência com a tríade platônica é direta e profunda. A Sabedoria — coluna do Oriente, do sol nascente — é o veículo do Verdadeiro. O Venerável Mestre, que a simboliza, preside o trabalho a partir do Leste — o lugar da luz e do conhecimento. Saber é, para o Maçom, um imperativo moral, nunca mera erudição.

A Beleza — coluna do Sul, o lugar do sol a pino — associa-se ao Belo platônico em seu sentido mais amplo: a harmonia das formas, das relações humanas e do cosmos, que o irmão deve contemplar e reproduzir em sua conduta. O Segundo Vigilante, que a representa, zela pela execução harmoniosa dos trabalhos.

A Força — coluna do Ocidente, do sol poente — representa não a força bruta, mas a virtude como capacidade de sustentar o edifício moral e social. Em sua acepção mais elevada, converge com o Bem platônico: a potência de agir para o benefício dos outros, a firmeza de caráter que resiste à corrupção e ao engano.

Os instrumentos de trabalho como instrução e formação filosófica

O esquadro, o compasso e a régua não são apenas ferramentas simbólicas da construção: são metáforas epistemológicas e éticas. O compasso, instrumento da circunferência perfeita, evoca a busca da Verdade sem desvios; o esquadro, instrumento do ângulo reto, representa a retidão moral — o Bem aplicado às relações humanas;  a régua, a medida justa, aponta para a proporcionalidade e a harmonia que definem o Belo.

O símbolo central do Templo — a letra G, que evoca a Geometria, a Grande Obra e o Grande Arquiteto do Universo — sintetiza a unidade entre os três valores: a inteligência ordenadora do cosmos é, ao mesmo tempo, verdadeira, bela e boa. Geometria não é aqui apenas ciência das formas: é a gramática do Absoluto, o idioma em que o Universo se revela ao olhar disciplinado.

A lenda de Hiram e a busca da Palavra Perdida

A narrativa iniciática do grau de Mestre — o assassinato de Hiram Abiff e a busca da Palavra Perdida — é talvez a expressão mais densa da tríade na Maçonaria. A Palavra não é um enunciado factual: é símbolo da Verdade essencial que o iniciado deve sempre buscar, mesmo sabendo que, nesta vida, apenas alcançará uma palavra substituta.

A morte e a ressurreição simbólica de Hiram evocam a jornada da alma platônica: a descida ao mundo das sombras, a perda da visão direta das Ideias, e o esforço contínuo de retorno à Luz — ao Belo, ao Bom e ao Verdadeiro. O Mestre Maçom que compreende esta narrativa não como um mito externo, mas como mapa de sua própria experiência interior, reencontra Platão no centro da sua iniciação.


IV

A MAÇONARIA E O ILUMINISMO

A Transcodificação da Tríade: Liberdade, Igualdade e Fraternidade


O século XVIII foi o teatro de uma das mais extraordinárias transposições filosóficas da história ocidental: os valores transcendentais platônicos — o Bom, o Belo e o Verdadeiro — foram recodificados em linguagem política e civil, tornando-se o núcleo ético das revoluções que transformaram o mundo. Essa transcodificação não foi obra do acaso, e tampouco se deu apenas nas academias e salões intelectuais: a Maçonaria ocupou um papel central como laboratório vivo onde filosofia e ação política se encontravam, se testavam e se propagavam.

O Iluminismo e a herança platônica: continuidade e transformação

O movimento iluminista, cujos principais focos irradiadores foram a França, a Inglaterra e a Alemanha do século XVIII, não rompeu com Platão: radicalizou-o. A crença na Razão como luz universal, na perfectibilidade humana, na igualdade essencial dos seres racionais e na possibilidade de uma sociedade fundada em princípios morais — tudo isso tem raízes diretas no pensamento platônico, mediado pelo estoicismo, pelo neoplatonismo de Plotino, pela tradição hermética e pela teologia natural dos séculos XVI e XVII.

A própria ideia central do Iluminismo — que o homem pode, pelo uso da Razão e pelo cultivo da virtude, aproximar-se do Bom, do Belo e do Verdadeiro — é platônica em sua estrutura mais profunda. A diferença decisiva está no endereçamento: enquanto Platão confiava essa missão a uma aristocracia filosófica, os iluministas democratizaram-na, declarando-a tarefa de toda a Humanidade. E foi exatamente nesse ponto que a Maçonaria tornou-se o espaço institucional privilegiado da transição.

A Loja Maçônica como espaço iluminista por excelência

Quando a Grande Loja de Londres foi fundada em 1717, ela não criou do nada um modelo de associação: codificou e formalizou práticas que já circulavam há décadas em clubes filosóficos, academias e lojas operativas transformadas em especulativas. O que a diferenciava de qualquer outra instituição da época era precisamente a combinação entre universalidade, sigilo, igualdade ritual e debate moral.

Dentro da Loja, barões e artesãos, nobres e burgueses, anglicanos e católicos, deístas e agnósticos (à la Thomas Henry Huxley) sentavam-se lado a lado, referiam-se uns aos outros como “irmãos” e deliberavam em igualdade simbólica de posição. Em uma época em que a sociedade europeia era rigidamente estratificada por nascimento, sangue e confissão religiosa, este modelo era subversivo — e conscientemente o era.

Voltaire, Benjamin Franklin, Mozart, Montesquieu, Frederick II da Prússia, La Fayette, Jean-Paul Marat, e dezenas de outros personagens centrais do Iluminismo eram Maçons. Não é possível afirmar que a Maçonaria produziu o Iluminismo, tampouco que o Iluminismo produziu a Maçonaria — a relação foi de co-criação: a Loja foi o espaço onde as ideias encontraram a fraternidade, e a fraternidade deu às ideias uma força de transmissão que as academias não podiam ter.

A Maçonaria não era apenas um clube de cavalheiros: era uma escola de virtude cívica, onde os princípios filosóficos eram vividos ritualmente e testados na prática das relações entre os irmãos.

— Margaret Jacob, historiadora, The Radical Enlightenment, 1981

LIBERDADE: do Verdadeiro ao Livre-Pensar

A Liberdade — primeira palavra da tríade revolucionária — é, na estrutura do pensamento iluminista e maçônico, diretamente derivada do valor platônico da Verdade. Para Platão, a alma que alcança o conhecimento das Ideias emancipa-se das correntes da caverna — da ilusão, da opinião não examinada, da tirania da aparência. Conhecer a Verdade é, literalmente, ser livre.

A Maçonaria, ao instituir a liberdade de consciência como condição absoluta para o trabalho em Loja — nenhum irmão pode ser coagido em suas opiniões filosóficas ou religiosas —, traduz esta libertação platônica em prática institucional. O Aprendiz que aprende a “cortar a pedra bruta” trabalha sobre a pedra de seus preconceitos, de suas ilusões herdadas, de suas correntes invisíveis. Este trabalho é, em sua essência, uma busca pela Verdade, e portanto, um exercício de libertação.

No contexto do século XVIII, esta liberdade adquiriu dimensão política explosiva. Lojas maçônicas tornaram-se os espaços onde se debatia a liberdade de imprensa, a separação entre Igreja e Estado, a soberania popular e o direito natural — ideias que, antes de chegarem às praças e parlamentos, foram forjadas e refinadas nos Templos. A Liberdade como valor político é a face pública do Verdadeiro como valor filosófico.

IGUALDADE: do Bem ao Reconhecimento Universal da Dignidade

A Igualdade — segundo pilar da tríade revolucionária — encontra sua raiz filosófica no Bem platônico. Se o Bem é a fonte de toda existência e todo conhecimento, e se todos os seres racionais têm acesso à Razão, então todos participam, em alguma medida, do Bem. Esta é a premissa ontológica da igualdade: não uma igualdade de capacidades ou resultados, mas uma igualdade de dignidade fundada na participação comum na Razão universal.

A Maçonaria transformou esta premissa em prática ritual. Ao entrar no Templo, o candidato é despojado de seus metais — símbolo de seus bens, títulos e honrarias mundanas. O que ele traz consigo é apenas sua humanidade, sua disposição para o trabalho e sua abertura à luz. Neste ato, a Loja afirma que a dignidade do ser humano não é uma concessão social, mas uma condição originária. O rei e o servente que se ajoelham no Oriente são iguais diante do Grande Arquiteto.

Esta igualdade ritual, praticada repetidamente por décadas antes das revoluções, foi uma escola moral de imenso poder. Homens que aprenderam a reconhecer a dignidade do irmão dentro do Templo tornaram-se mais capazes de reconhecê-la fora dele — em outras classes, outros credos, outras nações. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, com sua afirmação de que “os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos”, ressoa com a ‘pedagogia’ maçônica que se praticava nas Lojas francesas há décadas.

FRATERNIDADE: do Belo ao Laço Universal que Une

A Fraternidade — o mais profundo e o mais exigente dos três valores — é a transcodificação política do Belo platônico. Para Platão, a Beleza não é ornamento: é a expressão visível da harmonia interior, o brilho que a ordem emite quando se realiza plenamente. Uma alma bela não é apenas uma alma esteticamente agradável — é uma alma em harmonia consigo mesma e com o Todo.

A Fraternidade maçônica, em seu sentido mais profundo, é exatamente isso: a Beleza das relações humanas quando se fundam não no interesse, no contrato ou no medo, mas no reconhecimento genuíno do outro como portador do mesmo sopro de humanidade. Chamar o outro de “irmão” não é uma cortesia protocolar: é uma afirmação ontológica. “Você e eu” somos filhos do mesmo Princípio, lavrados pela mesma mão invisível, destinados ao mesmo Oriente.

A Fraternidade não é sentimental. Ela exige o reconhecimento ativo do outro em sua diferença, e a disposição para trabalhar com ele pelo bem comum, mesmo quando o caminho é difícil e a pedra resiste.

— Anderson, Constituições de 1723, princípios gerais.


No contexto do século XVIII, a Fraternidade maçônica foi um protótipo de cosmopolitismo: a ideia de que o vínculo entre os homens transcende fronteiras nacionais, etnias e religiões. Em uma Europa marcada por guerras religiosas centenárias e rivalidades nacionais violentas, a Loja era o espaço onde um inglês e um francês, um judeu e um protestante, podiam reconhecer-se como irmãos. Este foi um ensaio — imperfeito e contraditório, como todo ensaio humano — de um mundo regido não pela força, mas pela Beleza das relações.

A Tríade Dupla: Correspondências e Tensões

Podemos agora visualizar a correspondência entre as duas tríades com clareza:


Tríade Platônica

Coluna Maçônica

Tríade Iluminista

O VERDADEIRO (Aletheia)

SABEDORIA

LIBERDADE

O BOM (Agathon)

FORÇA

IGUALDADE

O BELO (Kalon)

BELEZA

FRATERNIDADE

Esta correspondência revela que a tríade iluminista não foi uma invenção, mas uma tradução — a versão política e civil de valores filosóficos que a Maçonaria havia preservado, praticado e transmitido por séculos. A revolução não começa na Bastilha: começa na Pedreira, na lavra silenciosa da pedra bruta de cada ser humano.

É igualmente importante reconhecer a tensão produtiva entre as duas tríades. A versão platônica é contemplativa e transcendente: os valores são ideias eternas que a alma busca fora do tempo. A versão iluminista é ativa e imanente: os valores são tarefas a serem realizadas no tempo, nas instituições, nas leis. A Maçonaria, ao habitar ambas as linguagens, ocupa um espaço singular: ela é simultaneamente um convite à contemplação interior e um chamado à ação no mundo.



V

A MAÇONARIA ENTRE AS ASSOCIAÇÕES QUE

 MAIS CULTIVAM VALORES

Distinção, universalidade e vocação construtiva


Ao longo de sua história, a Maçonaria constituiu um espaço singular de cultivo dos valores platônicos e iluministas por razões que a diferenciam de outras instituições.

A universalidade e a tolerância como condição estrutural

A Loja Maçônica, em seu modelo clássico, reúne homens de diferentes credos, nações e condições sociais sob o único requisito da crença em um Princípio Superior e do compromisso com a virtude. Esta arquitetura de tolerância não é apenas pragmática: é uma aplicação concreta do Bem platônico à vida associativa. O próprio Platão, na República, defendia que a cidade justa é aquela em que cada um ocupa o lugar conforme sua virtude, não seu nascimento.

O método iniciático como práxis do autoconhecimento

Dizemos ‘práxis’ precisamente como agir com consciência crítica para gerar efetiva transformação. Nenhuma outra associação de caráter não-religioso desenvolveu um método tão elaborado de transformação interior por meio do simbolismo, da ritualística e da meditação moral. Enquanto igrejas e academias transmitem conhecimento doutrinário ou conceitual, a Maçonaria opera por experiência vivida do símbolo — o que Platão chamaria de paideia em seu sentido mais pleno: a formação integral do ser humano.

A vocação construtiva como ética social

A metáfora da construção — individual e coletiva — projeta os valores platônicos para além do indivíduo. O Maçom não busca o Bem apenas para si: ele trabalha pelo aperfeiçoamento da Humanidade e pela construção do Templo da Fraternidade Universal. Esta dimensão coletiva do Bem é precisamente o que Platão buscava na República: uma cidade que seja a alma grande e visível, onde o Bom, o Belo e o Verdadeiro se encarnem nas instituições.

A transmissão geracional do patrimônio simbólico

Por mais de três séculos em sua forma moderna — e por tradições muito mais longas em sua linhagem simbólica —, a Maçonaria preservou e transmitiu um patrimônio de sabedoria que incorpora elementos pitagóricos, platônicos, herméticos, cabalísticos e iluministas. Esta continuidade a coloca numa posição singular: não apenas como organização que professa valores, mas como instituição que os transmite ritualisticamente, geração após geração.



VI

LIMITAÇÕES, TENSÕES E A QUESTÃO DA PRÁTICA

O imperativo do inacabamento


Seria intelectualmente desonesto omitir que a Maçonaria, como toda instituição humana, nem sempre correspondeu à altitude de seus próprios ideais. Historicamente, algumas obediências excluíram minorias, reproduziram hierarquias sociais e oscilaram entre o iluminismo filosófico e o conservadorismo institucional. A tríade da Liberdade, Igualdade e Fraternidade foi muitas vezes proclamada dentro do Templo por homens que, fora dele, sustentavam estruturas sociais que a contradiziam.

A distância entre o Templo como ideal platônico e a Loja como realidade sociológica é, em si mesma, uma tensão constitutiva — e, talvez, produtiva. É ela que mantém vivo o imperativo do aperfeiçoamento. A pedra nunca está completamente lavrada: este é o ensinamento mais honesto da Maçonaria.

A tríade platônica, afinal, não é um estado a ser atingido, mas um horizonte a ser perseguido. E nesse sentido, a Maçonaria — ao institucionalizar a busca, ao ritualizar o inacabamento, ao tornar o próprio processo de lavra da pedra o centro de sua prática — revela uma fidelidade profunda ao espírito platônico: não a posse da Verdade, da Beleza e do Bem, mas a philia — o amor — por eles.

O que nos define como Maçons não é a perfeição que alcançamos, mas a direção em que nos movemos e a fidelidade com que retornamos, cada vez que nos perdemos, ao caminho da Luz.




PALAVRAS FINAIS

Da Pedra Bruta ao Templo da Humanidade


Ao traçarmos o percurso desde a tríade platônica do Bom, do Belo e do Verdadeiro até a tríade iluminista da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, e ao situarmos a Maçonaria como o espaço vivo onde essa transmissão se realizou, chegamos a uma compreensão mais plena do que significa ser Iniciado.

Ser Iniciado não é ter acesso a um segredo externo: é ser intimamente interpelado, convocado a uma busca interior que tem dois mil e quinhentos anos de história filosófica e três séculos de prática institucional. É herdar uma responsabilidade: a de continuar o trabalho de lavra — da própria pedra, da pedra do outro e da pedra do mundo.

O Bem que Platão colocou como o Sol do mundo inteligível, a Igualdade que os revolucionários inscreveram nas fachadas dos Parlamentos e a Força que sustenta as colunas do nosso Templo — são o mesmo valor, visto em três épocas diferentes, traduzido em três linguagens distintas, e confiado a nós para que o traduzamos, por nossa vez, na linguagem do nosso tempo e das nossas vidas.

Este é o Grande Trabalho. Este é o Templo que ainda está por construir.


sábado, 24 de julho de 2021

Friaca lascada, 'cringe' e Nathanael Neves.


Nathanael e Izabel

< O som de fundo de hoje é o de Jimmy Cliff... Reggae do bom!  >

01. A notícia chata é que um velho amigo, o Natha, nos deixou. Estava bem idoso, e ultimamente permanecia só acamado. Descansou. Sua esposa, a querida Izabel, já tinha partido para o Oriente Eterno há alguns anos. Logo depois ele foi residir no Lar São Vicente de Paulo, onde também tive a oportunidade de fazer a barba e cabelo dele. Eu o ajudei a escrever seu livro de memórias, publicado tempos atrás; houve até um evento de lançamento e autógrafos no Salão Nobre do Unifae. Foi sepultado em São Paulo; nem pudemos nos "despedir" por causa da pandemia. Deixou filhas e netas, uma linda Família. Que Deus possa consolar os corações enlutados.

02.  Houve recentemente em sociedade um certo bafão, veiculado em diversos meios de comunicação. Alguns segmentos da mocidade começaram a usar de modo pejorativo o termo "cringe", que em inglês pode significar 'vergonha alheia' ou vivência de situações desconfortantes ou constrangedoras, e isto para rotular condutas (percebidas como demodé) de pessoas de outra adiantada geração. A intenção do uso da palavra, ao que parece, era comunicar que certa pessoa estava a  pagar mico, 'passando vergonha' com determinado comportamento ou condição, esta caída doravante em desgraça. Desde pequeno vejo isso - uma geração criticar outra - e acho que é até normal no ser humano. Mas nestes tempos de exacerbada cibernética (esta seguramente uma expressão 'cringe'!) as sensibilidades foram feridas ao extremo. Ainda bem que, na minha idade, agora vejo tudo isso com leveza... Tem tanta coisa mais importante para se preocupar!

03. Os meios de comunicação tem começado a falar de impeachment... Que coisa esta necessidade jornalística de assunto ruim, credo! Pode ser que exista(m) até motivo(s), mas é muita coisa ao mesmo tempo para processar agora, não é mesmo? Esta pandemia virou tudo de ponta-cabeça. Já tem desgraça demais ultimamente...

04. Se o ser humano tivesse um botão do tipo 'desligar de viver' mais à mão, menos complicado, a Humanidade já estaria extinta há tempos.  Este é um assunto triste, chato de falar: suicídio é atitude extrema, definitiva, que 'espalha' certa perda de sentido aos que permanecem, em especial aos amigos e familiares. Tema por demais complexo, que quase todo dia vira notícia, onde quer que se resida. O que eu noto é que a atualidade parece dar mais e mais motivos para o cidadão se sentir desacorçoado! Eu vejo a aniquilação de si mesmo como resultado de um somatório de ocorrências acima e abaixo da pele da pessoa, mas é impactante o fato do falecer vir a constituir-se, para um ser humano, em única saída para o sofrimento... Na realidade, sabemos pouco da processualidade existencial desta tragédia.

05.  Sempre apreciei a nossa mais saborosa e portentosa bebida rubiácia! Tenho agora três sistemas de fazer café, mas não o tipo 'coado', que desperdiça pó. O mais saboroso e prático é o tipo expresso, de cápsulas. O inopinado da estória é que fui recentemente ao médico (coisa costumeira comigo nos últimos anos...)  e o mesmo proibiu-me doravante sorver a preciosa bebida. Sou disciplinado e mui treinado em desapegar, e já risquei o 'quitute' do cardápio... (que voltas a vida dá!)

06. Adoro filmes japoneses, especialmente os de samurai. Mas não tem muitos disponíveis no circuito  normal dos cinemas e também na TV. Eu tenho uns 40 filmes em DVDs, que vejo de vez em quando. Outro gênero tipo 'oriental' que aprecio são aqueles da máfia japonesa, que costuma exercer certo fascínio em alguns ocidentais. Outro dia vi um filme da Netflix de nome "Família Yakusa", muito bem feito mas, como de costume, triste e de sentimentos extremos. E com muita violência gratuita, como gangsters parecem gostar. Ruth não se importa quando assisto pois ela dorme o tempo todo. Um dia aprendi que um segredo de bom casamento moderno é ter mais de uma TV, mas ela é tão bacaninha que nem faz questão de ter a posse do controle... 

07. Recebo ali e acolá notícias de outra forte onda de frio que acometerá este inverno de 2021 o Sul e Sudeste, forte como a onda polar de 1.955, ouvi dizer. Fazia tempo que não observava um clima gelado assim. Tive que recorrer a gorros e luvas para dormir. Parece sintoma da mudança climática, junto com o forte calor da Europa e os recorrrentes incêndios da América do Norte. A tristeza é constatar por aqui o número de falecidos por causa da friaca, em especial os moradores de rua. Vida triste.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Reinício das aulas e mais uma Fábula de Esopo...

Sempre quando se inicia um semestre fico preocupado com a disposição, com a têmpera geral das classes que vou ensinar. Sempre fico atento para criar um bom clima de camaradagem e companheirismo com os alunos, senão fica prejudicado o processo ensino-aprendizagem como um todo. Infelizmente sempre vai existir um ou outro aluno que não vai simpatizar com minha figura, não importa o quanto eu faço de esforço. É da natureza humana, e só posso orar ao Pai Celestial para que me guarde destas confusões....

Grata satisfação obtive nesta primeira semana de aulas com a classe de primeiro semestre de Psicologia. Apesar da turma grande, parecem bem motivados e maduros para a vida acadêmica. É muito decepcionante e desmotivador quando uma classe não corresponde ao nosso empenho de prover aulas que façam a diferença. Mesmo as classes de turmas novas para mim, mas não de alunos ingressantes (terceiro semestre em diante...), foram boas experiências. Creio que este semestre vai ser muito produtivo. Tenho seis disciplinas para ministrar, o que vai tomar boa parte do meu tempo para preparação de material e organização dos assuntos. Vou tentar realizar mais tarefas práticas entre o alunado em meio às telas de MS power-point, que tendem a inibir a participação.

Espero que seja um bom ano para todos nós, principalmente para a nova equipe de administradores que foram empossados no nosso Centro Universitário o ano passado. Eles tem lançado vários projetos e estão com idéias muito interessantes, que tem o condão de instalar e manter um bom ambiente acadêmico para os docentes e os alunos. Que Deus proteja nosso Reitor e sua Equipe para o tão importante serviço que eles tem!!

Faço um alerta aos meus alunos para que atentem para uma mensagem antiga, antiquíssima, mas muito atual, mediada pela fábula abaixo:

A Raposa e a Máscara
Gravura obtida agora, via Google Images, de 
http://marcelaohistoria.blogspot.com.br/2011/05/ana-era-uma-vez_17.html

Conta o meu libreto de Fábulas (Jack Zipes [adaptador] Aesop's Fables, London: Penguin Books, 1996; Penguin Popular classics n. 20, " The Fox and the Mask", fab. CXXVIII, p. 135) predileto que uma raposa estava a furtar a casa de um ator e, inspecionando minuciosamente os vários haveres, encontrou uma notável máscara, que era uma fina imitação de uma cabeça humana. A raposa exclamou "Que excelente aparência tem esta figura! Pena que lhe falte um cérebro! ". Moral da estória: uma bela aparência é de pouca valia se falta a sabedoria...

Como uma singela fábula milenar guarda tanta erudição, inclusive para os dias de hoje! Com estes valores tão bagunçados desta pós-modernidade, o que mais importa parece ser o que se aparenta. Deixa-se em segundo plano valores mais superiores, tão aclamados em épocas pretéritas. Sabedoria é coisa que se cultiva de modo perenal - nunca termina esta busca em nossa breve jornada nesta esfera. Sei que demora muitos anos para a pessoa dizer-se um pouco sábia, ainda que existam 'muitos' caminhos para ela, asseverados por inúmeros 'experts'... Mas o que ocorre é que, procurando sabedoria pelos meios impróprios, o que se tem é infortúnio e tristeza, pois 'o tempo não para', como dizia o poeta.

Li no jornal outro dia um pequeno poema, que me serviu muito bem. É lindo, simples e tão carregado de significado! É de autoria de Mario de Santi Neto (*1925, +2013), e o li no necrológio do autor, no Jornal Folha de S. Paulo

Nada sei, pouco aprendi.
Continuo esperando
compreender as lições
da vida que vivi.

Humildade é a primeira condição da vida sábia - uma idéia que penso todo dia...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O Mosquito e o Touro: presunção...

Foto obtida agora via Google Images de
http://blog.opovo.com.br

Vamos dar agora uma pausa nos posts sobre o Nobre Caminho Óctuplo, para um pequeno comentário, tendo uma fábula de Esopo como pano de fundo. Esta fábula é muito conhecida (se você colocar a primeira parte do título deste post no Google Images, verá o endereço de vários blogs que comentam sobre a fábula...) e relata um mosquito que, após ficar zumbindo por vários minutos em volta da cabeça de um touro, finalmente pousou na ponta de um dos chifres e respeitosamente perdiu perdão ao boi por perturba-lo: "Se meu peso está lhe causando algum inconveniente, basta você me dizer que eu me retiro num momento!"  Respondeu-lhe o touro "Oh, não se preocupe com isso; para mim tanto faz se você ficar ou permanecer... Para lhe dizer a verdade, eu nem mesmo  tinha reparado que você estava aí..."  No libreto que sempre consulto (Zipes, Jack. Aesop's Fables. London: Penguin Books, 1996, p. 104; Penguin Popular Classics n. 20), a moral da estória adverte-nos que quanto mais pequeno é o espírito, maior a presunção.

No dicionário Houaiss, 'presunção' remete tanto à idéia de uma opinião demasiado boa e lisonjeira sobre si mesmo, quanto às idéias de imodéstia, vaidade; remete à confiança excessiva em si mesmo, à pretensão. Remete também, segundo vejo, à vaidade, orgulho e soberba, mesmo até certa arrogância. Desde que o mundo é mundo esta tendência é muito encontradiça nas gentes, em especial as que necessitaram realizar um esforço de superação de dificuldades (notadamente as interpessoais) na infância. Não escolhe idade, sexo ou condição, mas parece acometer mais àqueles ou àquelas que se encontram em posição de poder, qualquer que seja ele - principalmente nos políticos...

Eu vejo nisso a evidência da falta de sabedoria; no limite, falta de Deus no coração. A mínima reflexão que o vivente possa realizar remeteria ao questionamento desta infeliz postura, e isso não só resultante dos embates e 'cabeçadas' que a vida nos endereça neste mistér, mas também, e complementarmente, do simples e sincero meditar sobre as dificuldades e descalabros dos nossos semelhantes neste âmbito. 

Vigio-me sempre para averiguar se não caio nesta tentação, pois conto comigo somente: as pessoas, no polo positivo, temem ser tachadas de grosseiras ou enxeridas, e evitam assim ser sinceras. E deste modo podemos ter ou demonstrar a pecha aqui discutida, mesmo sem o desejarmos... Que falta me faz um amigo de verdade! Mas parece que é um 'artigo' muito raro nos dias de hoje, e me pergunto sempre o porquê - será a TV? As novas mídias sociais? A superficialidade dos relacionamentos, o efêmero dos contatos interpessoais? A complexidade - e também a velocidade - às quais a tékhnè nos impele? O fato é que nem nas Igrejas, nas Comunidades religiosas, onde deveria imperar outro tipo de valor, de viver, se encontra facilmente amizade como Cristo demandou, modelo perfeito que foi para a Humanidade. 

Que riqueza se você tiver um amigo ou amiga que te goste do jeito que você é, e que não tema ser honesto(a) sempre contigo: vale mais que muitos rubis... Mas como disse, amizade de verdade é coisa escassa hoje em dia, infelizmente. Colegas ou 'conhecidos' temos diversos mas, amigos, talvez os contemos numa vida somente nos dedos de uma só mão!

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Eclesiastes, 2: 26a

Rei Salomão
Ícone no monastério de Kizhi, na Russia
http://pt.wikipedia.org


Hoje cedo na hora matinal de estudos, um versículo de Eclesiastes me sensibilizou - diz "Ao homem que é bom diante dEle, Deus dá sabedoria, conhecimento e alegria, ..."  Na versão da notável Bíblia do Peregrino, do Padre Luís Alonso Schökel, lemos "Ao homem que Lhe agrada Ele dá sabedoria, ciência e alegria; ...". Que consoladora promessa. O que mais me espanta é que li isso diversas vezes quando jovem, mas só agora atentei, quer dizer, signifiquei em meu espírito a verdade deste versículo. 

O contraponto conhecimento (ciência) versus sabedoria, complementado com a alegria é o que interpela minha consideração. Sabedoria é saber bem aplicar aquilo que se conhece, o que se sabe, isolado ou no conjunto de outros conhecimentos (ciência). Mas saber bastante e ser sábio, sem ter a alegria, parece contradição. Quantos vemos que se julgam inteligentes, mas não tem alegria (ou pouco aparece, mas logo se vai daquelas almas). Em minha vida prestei mais atenção à alegria, apesar da importância do conhecer e de ser sábio; cedo acautelei-me de ser sábio aos meus olhos - armadilha por demais ilusória, hábil sedutora que é.  Li nas Seleções um provérbio que dizia "ria e tudo mundo vai rir com você; chore e você vai chorar sozinho..."; desde então vi que tola estratégia é ter pena de nós mesmos, ou nos fazer frágeis aos olhos dos outros, ou dar certo tom triste, macambúzio, em nossas relações. As pessoas, notadamente os brasileiros, se afastam de criaturas assim.

Mas, procurando o conhecimento e a sabedoria, como ser feliz neste mundo enganador, competitivo, de árdua labuta, de doenças e desgraças cotidianas? Nossa índole faz-nos esperar do Destino recompensas constantes se somos 'bons', trabalhadores, estudiosos, honestos, etc...  Nessa hora o homem comum olha ao alto e, se atenta para outra dimensão de verdades, que não se alcança necessariamente pelo muito esfalfar com os livros, pode começar a municiar-se de recursos para compatibilizar estas 'contradições', a aparente contraposição sabedoria-alegria. Digo aparente, porque é nossa mente em sua quichaça que assim dispõe, posto que, no fundo, inexiste necessariamente contradita entre conhecimento e felicidade, alegria - mas são coisas que diferem tanto no grau quanto na essência. 

Aquilo que confere sentido às nossas concepções e nossa práxis precisamente é o que nos faz, nos determina alegres, com, sem, ou apesar de nosso conhecimento e sabedoria do mundo. Quando se reconhece o homem ou a mulher possuidor de uma natureza, uma disposição suscetível às coisas espirituais, pode abrir-se a outra categoria de verdades, que não são, em princípio, discerníveis com os rudimentos do conhecimento empírico ou mesmo da cogitação e do razoar sobre esta humana vida (posto que parece em geral absurda e injusta).

Esta, a abertura ao transcendente, continua a ser a solução aos dilemas e ao Absurdo da existência, desde que o homem se conhece por Homem. E neste percurso a pessoa chega, ao fim e ao cabo, a Deus, que Se revela a quem O busca com sinceridade, humildando-se. Somente Ele pode nos dar aquela alegria que não se dissipa, que não se esvai, que nos faz, a todos e todas, quiescentes e serenos. Mas como saber de Deus, tão Santo e 'distante' ? Olhe para Jesus, que deixou muitas instruções e pistas de como Deus é... Se O buscarmos em primeiro lugar, com destemor, aquilo que paradoxalmente cremos que nos fará felizes, o conhecimento e a sabedoria, precisamente  nos serão então acrescentados, mas não o conhecimento enganador, que só divisa absurdos, mas a Sabedoria que não se esgota, e que nos faz efetivamente felizes.

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