quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Reinício das aulas e mais uma Fábula de Esopo...

Sempre quando se inicia um semestre fico preocupado com a disposição, com a têmpera geral das classes que vou ensinar. Sempre fico atento para criar um bom clima de camaradagem e companheirismo com os alunos, senão fica prejudicado o processo ensino-aprendizagem como um todo. Infelizmente sempre vai existir um ou outro aluno que não vai simpatizar com minha figura, não importa o quanto eu faço de esforço. É da natureza humana, e só posso orar ao Pai Celestial para que me guarde destas confusões....

Grata satisfação obtive nesta primeira semana de aulas com a classe de primeiro semestre de Psicologia. Apesar da turma grande, parecem bem motivados e maduros para a vida acadêmica. É muito decepcionante e desmotivador quando uma classe não corresponde ao nosso empenho de prover aulas que façam a diferença. Mesmo as classes de turmas novas para mim, mas não de alunos ingressantes (terceiro semestre em diante...), foram boas experiências. Creio que este semestre vai ser muito produtivo. Tenho seis disciplinas para ministrar, o que vai tomar boa parte do meu tempo para preparação de material e organização dos assuntos. Vou tentar realizar mais tarefas práticas entre o alunado em meio às telas de MS power-point, que tendem a inibir a participação.

Espero que seja um bom ano para todos nós, principalmente para a nova equipe de administradores que foram empossados no nosso Centro Universitário o ano passado. Eles tem lançado vários projetos e estão com idéias muito interessantes, que tem o condão de instalar e manter um bom ambiente acadêmico para os docentes e os alunos. Que Deus proteja nosso Reitor e sua Equipe para o tão importante serviço que eles tem!!

Faço um alerta aos meus alunos para que atentem para uma mensagem antiga, antiquíssima, mas muito atual, mediada pela fábula abaixo:

A Raposa e a Máscara
Gravura obtida agora, via Google Images, de 
http://marcelaohistoria.blogspot.com.br/2011/05/ana-era-uma-vez_17.html

Conta o meu libreto de Fábulas (Jack Zipes [adaptador] Aesop's Fables, London: Penguin Books, 1996; Penguin Popular classics n. 20, " The Fox and the Mask", fab. CXXVIII, p. 135) predileto que uma raposa estava a furtar a casa de um ator e, inspecionando minuciosamente os vários haveres, encontrou uma notável máscara, que era uma fina imitação de uma cabeça humana. A raposa exclamou "Que excelente aparência tem esta figura! Pena que lhe falte um cérebro! ". Moral da estória: uma bela aparência é de pouca valia se falta a sabedoria...

Como uma singela fábula milenar guarda tanta erudição, inclusive para os dias de hoje! Com estes valores tão bagunçados desta pós-modernidade, o que mais importa parece ser o que se aparenta. Deixa-se em segundo plano valores mais superiores, tão aclamados em épocas pretéritas. Sabedoria é coisa que se cultiva de modo perenal - nunca termina esta busca em nossa breve jornada nesta esfera. Sei que demora muitos anos para a pessoa dizer-se um pouco sábia, ainda que existam 'muitos' caminhos para ela, asseverados por inúmeros 'experts'... Mas o que ocorre é que, procurando sabedoria pelos meios impróprios, o que se tem é infortúnio e tristeza, pois 'o tempo não para', como dizia o poeta.

Li no jornal outro dia um pequeno poema, que me serviu muito bem. É lindo, simples e tão carregado de significado! É de autoria de Mario de Santi Neto (*1925, +2013), e o li no necrológio do autor, no Jornal Folha de S. Paulo

Nada sei, pouco aprendi.
Continuo esperando
compreender as lições
da vida que vivi.

Humildade é a primeira condição da vida sábia - uma idéia que penso todo dia...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Última da série: O Meio de Vida Correto


Chegamos ao último comentário sobre cada passo do Nobre Caminho Óctuplo, o Caminho do Meio (caminho do equilíbrio) do Budismo, que encerra muita verdade sobre a arte de viver. A Psicologia Budista se vale muito destas instruções. 

Este notável passo do Caminho do Meio, como os outros, envolve em grande parte o bom senso - a pessoa espiritualizada e inteligente sabe que deve procurar um meio de vida que não trangrida os ideiais de amor e compaixão, visto que a maneira como nos sustentamos pode ser expressão do mais profundo do nosso ser, ou constituir uma fonte de sofrimento para nós e para os demais.

Nos tempos do Lorde Siddharta, uma dica para cumprir o Meio de Vida Correto era: não vender armas; não vender escravos; não vender carne, álcool, drogas nem venenos; não fazer profecias nem dizer a sorte. Creio que a maior partes destas prescrições ainda são úteis... Mas penso que, em todas as épocas, trabalhar em negócios que tem o potencial de fazer as pessoas infelizes nunca pode redundar em algo bom, mais cedo ou mais tarde. Se nosso sustento depende de agirmos em maior ou menor grau em coisas que envolvem mau uso da sexualidade, que necessitam mentir, defraudar ou roubar, comerciar substancias de modo ilegal, transacionar com armas ou lucrar a partir das superstições das pessoas, nunca estaremos cumprindo este preceito e vamos atrair problemas, seguramente.

Os mestres Zen ensinam que, no fundo, a questão do Meio de Vida Correto constitui-se numa questão coletiva, que envolve nosso discernimento no nível comunitário, visto que nosso trabalho afeta o trabalho de muitas outras pessoas e vice-versa. Não se deve ser inocente ao ponto de pensar que esforçar-se para ter um Meio de Vida Correto envolve somente os aspectos pecuniários que abarcam nosso rendimento mensal. Pode ser difícil ter um Meio de Vida cem por cento Correto todo o tempo, mas a qualquer tempo a pessoa pode optar em trilhar sempre o caminho equilibrado de reduzir o sofrimento e aumentar a compaixão pelos demais seres viventes, os animais e nossos semelhantes, a partir do nosso trabalho. Um bom meio de ajudar a comunidade, inclusive com consumo responsável e auto-sustentável, é colaborarmos para que os demais tenham também seus bons empregos, e eles também seguindo o preceito do Meio de Vida Correto. 

Ao final destas nossas humildes apreciações, podemos dizer que nenhuma prática, nenhuma etapa do Nobre Caminho se corporifica isoladamente; temos que praticar os oito passos conjuntamente, sendo que cada prática, cada etapa, pressupõe os outros sete. Tudo inter-depende entre si, tudo guarda relacionamento com o resto, pois tudo pertence ao Universo, tudo é uma totalidade. 

Tenho apreço a estes ensinamentos pois revelam calma e pacientemente um modo oriental de ver a vida, com sua estética e ética características, difíceis, muitas vezes, de divisar pelo homem ocidental.  Eu, como sempre gostei do Oriente (Japão, especialmente), senti-me atraído por estes ensinamentos. Excetuando afirmações religiosas dogmáticas, que guardam suposições que podemos chamar de 'teológicas', os preceitos da arte de viver equilibrada do Budismo guardam bastante identidade com muitas das prédicas ensinadas por Jesus. 

Gosto particularmente de um ensino búdico denominado 'Cinco Lembranças', que devem ser recitadas diariamente, como forma de lidar com o sofrimento:

1. Sei que minha natureza é composta de coisas que envelhecem - não há como escapar da velhice, da decrepitude.
2. Sei que minha natureza envolver adoecer - a doença, em todos as suas modalidades, é-nos inescapável.
3. Minha natureza me faz saber que um dia fenecerei: não há como escapar da morte.
4. Tudo o que valorizo, em especial as pessoas que amo, tem a natureza, a essência de coisas que estão em constante mudança - isto implica que eventualmente posso me separar destas coisas e pessoas que aprecio.
5. O que mais me pertence são meus atos, aquilo que opto agir. Portanto, não posso escapar das consequências de minhas ações. 

Quantos paralelos com mandamentos cristãos, e também com preceitos humanistas e existencialistas! A Humanidade tem colecionado por centenas de anos estes ensinamentos, e fico pasmo que ainda exista tanta ignorâcia no mundo. Obviamente, dentro destas normas todas, o que está na Palavra é o repositório mais perfeito deste saber, da Sabedoria que foi  espalhada, manifestada deste o começo dos tempos a toda Humanidade. É muito interessante saber que, pela graça de Deus, todos estes ensinamentos, ainda que parciais, foram derramados para os homens, em todas as raças, eras e locais, guardando muita semelhança entre si.

Para finalizar, relembro um preceito antigo, deturpado por vezes, mas que ilustra bem esta certa uniformidade de sabedoria sobre a arte de viver. É a conhecida fórmula epicurista (de Epicuro, o famoso filósofo de Samos, da Grécia - 341 a 27o antes de Cristo - denominada o Tetrapharmakos. Ele ensinou estas quatro meditações, como modo de controlar o medo, a ansiedade e  angústia; em suma, o sofrimento, que era fonte de adoecimento da alma:

1. Não há o que temer aos deuses;
2. Não há o que temer à morte;
3. O sofrimento pode acabar, e
4. A felicidade é possível.

Obviamente estas quatro assertivas demandam estudo contextual e reflexão sobre o que querem significar, pois refletem uma visão de mundo à época antes de Cristo. Mas é notável que refletem uma preocupação milenar de debelar fontes de sofrimento, de aflição, de desalento. 

O Homem nunca vai ser feliz inteiramente, pois é muito apegado às coisas do mundo (o apêgo é o que causa sofrimento, para o Budismo), mas sei que somente pela reflexão sobre sua condição é que ele pode se libertar. Muitos caminhos são disponíveis, e importa que a pessoa se dedique a conhecer-se, a reconhecer a si mesmo e, assim trabalhando, pode vir a conhecer ao seu semelhante e, no limite, abrir-se para conhecer seu Criador, que se revela ao Homem por Sua própria iniciativa, pois por nós mesmo nunca O conheceríamos. Mas isso é assunto para outro dia...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Penúltima da série: a Concentração Correta

Hoje discuto um passo do Nobre Caminho Óctuplo que me é especial. Em toda minha vida não houve aspecto mais trabalhoso em que eu tenha me debruçado. Sabem,  creio que tenho TDAH, ainda hoje. Relembrando os depoimentos familiares e averiguando certos fatos, vejo que eu sempre lidei com este distúrbio. Por exemplo - não só isso, sei, mas veja - para guardar algo em minha memória preciso ter total silêncio e concentração atenta, perseverante, senão  puft!  algo que vi ou ouvi  'some' como vapor na atmosfera... Os anos que pratiquei Yôga e zazen (tenho minha almofada apropriada de meditação zen - o  zafu - até hoje!!)  foram muito bons para dar conta de grandes incumbências, em especial o Mestrado e o Doutorado.  Não sei se as conseguiria sem estas disciplinas pessoais,  estas práticas.  Hoje, estou bem estabilizado, inclusive por causa de sessões periódicas de acupuntura com um profissional muito sério e competente, meu amigo Prof.  Adão Carlos.

Em essência, a prática da Concentração Correta consiste em cultivar uma mente 'focada', habilitada em dar conta efetivamente de uma coisa por vez, (con)centrar-se em um aspecto do campo fenomênico a cada vez. Nossa 'mente de macaco' - que pula sem parar ali e lá e para acolá - é o maior empecilho para que atinjamos eficiência e eficácia nester mister de considerar o ser, o situar-se no aqui-e-agora. Sabem como primacialmente se treina a concentração? Isso, é meditando... No Zen, praticamos zazen, a meditação sentada (olhando por uma hora ou mais uma parede branca à nossa frente) e, também, uma espécie de 'meditação andando', onde caminhamos beeem devagar (o nome é kinhin), pé ante pé, nos intervalos de um zazen e outro, em postura apropriada. E, obviamente, tudo em completo silêncio! Aliás, até as refeiçoes na comunidade zen é realizada sem nenhum pio...

Quando estamos meditando a mente nunca para, mas o segredo é 'deixar vir, deixar ir'... assim, com o tempo conseguimos deter a voragem do pensar. A mente é uma coisa maluca mesmo; nem quando dormimos o cerebro se interrompe - o que é o sonho, não é mesmo?

Há vários degraus de concentração e mormente galgamos passo a passo esta competência. Um outro segredo é começar a escutar nossa respiração. Quando respiramos, respeitando nossa natureza, ficamos mais capazes de focar nossa atenção, de domar a mente de macaco.

Há várias maneiras de se treinar concentração, tantas quantos os mestres que existem, ao que tudo indica... O problema então pode ser encontrar um bom mestre, se você for iniciante. Mas sei de pessoas que encontraram a paz de modo autônomo, autodidaticamente. Uma vez vi um modo de meditar que é sentar e ficar olhando para uma vela bruxuleante, num ambiente calmo e em silêncio. Fiz algumas vezes e acho que pode funcionar. O método que acho cem por cento é o do Budismo Sotozen - zazen e meditação andando. Mas acho que qualquer prática honesta e perseverante pode dar resultado. O importante é caminhar, trilhar uma senda, percorrer uma vereda só nossa... Vai chegar uma hora que qualquer atividade, qualquer prática é uma meditação... Eu, por exemplo, gosto muito de lavar pratos (na companhia de minha esposa, então, é um prazer diário), fazer barba dos meus velhos no asilo...; tudo feito com concentração apropriada pode ser uma meditação, um praticar onde todo o seu ser está 'focado', centrado...

Praticantes de meditação sentada Zen (zazen)
(fiz muito isso no Templo da Comunidade Soto Zenshu
em São Paulo, que fica na Rua São Joaquim, 
no bairro da Liberdade - ver abaixo 2 ultimas fotos)
Foto obtida agora, via Google Images, de
http://anshin.it/en/pratica-zen/zazen
(este parece um site sério - boas pesquisas!!)

Praticantes no kinhin
Foto obtida agora, via Google Images, de
http://www.flickr.com/photos/23236468@N04/3852450685/
(tem outras fotos legais lá, enjoy!!)

Templo Busshinji de São Paulo
http://www.sotozen.org.br/index.php
(fotos acima e abaixo)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Raízes...

Ilustração obtida agora via Google Images de
http://www.biblesamacharam.com/popular-christian-wallpapers-for-download

Todos sabem de minhas raízes cristãs - já comentei aqui anteriormente. Dos 5 filhos do casal Geraldo e Firmina sou o único que professa a Fé Reformada, um dos maiores ramos do movimento protestante. Relembro, já comentei aqui, com carinho, as reuniões familiares que minha mãe dava na sala de jantar com a filharada, falando da Bíblia. Naquela época eram-me coisas um tanto incomprensíveis, mas ficou a semente, inequivocamente. Sempre senti um apelo intenso 'pedindo' minha volta ao redil - coisa que nunca duvidei que seria agraciado (não sei porque, pois os desígnios de Deus são incompreensíveis a nós, finitos e decaídos que somos) - mas que agora com todo o ensinamento que recebi (e continuo buscando) eu consigo entender melhor. 

Foi muito doloroso o período afastado de Deus, agora consigo dimensionar. Quanto tempo perdido. Mas quanta misericórdia e graça sobre graça! Minha gratidão ao Pai Celestial não tem tamanho. Sei agora que Ele nunca desistiu de mim. O peso de minhas faltas era enorme para carregar, e ainda me enche de tristeza (pois muito do mal que fiz não tem volta ou reparação), não importa que eu saiba que Jesus vai estar pronto para me abraçar quando eu atravessar o rio.  Mas o horror do peso dos meus pecados, do afastamento que implica entre meu Criador e eu, é algo que chega a desesperar. Mas a certeza do sacrifício expiatório de Jesus pelos seus eleitos nos conforta e enche de esperança. Não há lugar mais para o desepero, e sim contentamento e gratidão. 

O que o Pai Celestial espera que nós façamos é que O temamos, O obedeçamos. E uma das incumbências mais especiais que podemos receber é o casamento. O desafio de cumprir o que Deus determina em seu Pacto no tocante ao matrimônio é, antes de tudo, uma bênção e um privilégio. Bênção de recebermos uma esposa nesta jornada, para nos ser como co-adjutora, conselheira e companheira nas tarefas que devemos cumprir. E um privilégio no sentido de termos uma rara oportunidade de aprendizado e de serviço.

Gosto muito de ver minha esposa ser a pessoa que é. Nosso dia-a-dia é permeado 98% de risos, alegrias, brincadeiras e companheirismo puro. Somos parceiros em tudo, sem perder a identidade de nossas existências específicas, nossos afazeres pactuados. Gosto de ver como Bilú cuida tão zelosamente da casa, dos seus adereços e guarnição; como ela, vaidosa que é, cuida de seu corpo e mente de modo a ser sempre uma bonita criação de Deus. Até as manias, as idiossincrasias de mulher costumo achar bastante graça. Gosto de ver as caras que ela faz quando a provoco. É muito engraçado, ela, que não faz mal a uma môsca, com seu metro e meio de altura, ficando brava comigo... Sou sempre atento ao ensinamento que Deus me provê por meio dela, pois isto também me foi designado por Ele através dela. Procuro cumprir o que o Pai Celestial espera de mim diante dela. É muito divertido - nunca entramos em tédio, apesar de nossa vida ser bem regulada, rotineira, previsível... nossa casinha velha, humilde mas muito arrumada é a nossa grande bênção, graça recebida sem o merecermos. É o nosso castelo, e apraz-me muito viver aqui, com nossos vizinhos; aqui, tão perto do centro da cidade, com tudo à mão, com tantas facilidades... Imaginava uma casa assim, mas recebê-la de Deus foi algo que guardo em meu íntimo como uma revelação e confirmação - só eu o sei.

Sei que tive dois casamentos anteriores que não deram certo, e não fico procurando culpado(s) porque os relacionamentos não continuaram. Casei na Igreja e no cartório das duas vezes anteriores também; nunca desejei terminar nenhum casamento. Fico mortificado pelo fato de meus filhos terem crescido longe de mim - não pude acompanha-los convenientemente, já o disse várias vezes. Não penso nisto como 'castigo' ou algo parecido; deixo muitas coisas para saber quando me encontrar com Ele (vai, inclusive, que estas preocupações não sejam mais importantes lá...) naquela outra dimensão, noutra Vida. Procuro meditar onde errei, onde não agi como devia, onde não amei minhas ex-esposas como deveria. Nem o fato de ter pedido perdão as fizeram me perdoar. Mas o importante é que sei que Ele me perdou. Este peso de ser divorciado é fardo pesado de carregar, e vou morrer com ele, lembrando-o todo dia de minha vida.

Sou muito grato ao Pai Celestial pela oportunidade de voltar ao redil - não compreendo aqui nesta esfera como Ele se apiedou e tem misericórdia de um ser tão abjeto como eu. Com todas estas experiências que vivi, todas serviram - agora vejo - para confirmar em meu íntimo (muito, muito mais espiritualmente do que racionalmente, ainda que nossa Fé seja racional) as verdades da Fé Reformada, de como a Palavra deve ser estudada unicamente a partir do que encerra a Bíblia. Tudo o que passei nesta vida, vejo agora, vai se 'encaixando', se significando em meu íntimo como uma sucessão de misericórdias imerecidas, tantas as coisas 'boas' (inúmeras) quanto os percalços e  provações. Deus Soberano dirige minha vida, ainda que eu seja tão imperfeito e decaído.  Nada aqui vale mais do que isso. 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Fábula do Asno, Raposa e Leão


Gravura obtida agora (via Google Images) de 
http://muralespacolivre.blogspot.com.br/

Conta a fábula (The Ass, the Fox and the Lion, fábula nro. CXXI, p. 127) que, depois de decidirem ser parceiros, um asno e uma raposa foram ao campo caçar. No caminho, eles encontraram um leão e, visualizando o perigo à frente, a raposa correu direto ao leão e sussurou "se você prometer não me ferir, eu trairei o burro e você facilmente poderá subjugá-lo". 

O leão concordou, e a raposa manobrou de modo a colocar o asno numa armadilha. Logo depois do leão capturar o asno, ele rapidamente atacou a raposa, reservando o asno para a sua proxima refeição. Moral da estória, conforme assinalado por Jack Zipes (Aesop's Fables, London: Penguin, 1996,  Col. Penguin Popular Classics n. 20): Traidores devem esperar deslealdade...

Atualmente vemos ali e acolá, não importa onde vivamos ou trabalhamos, uma procissão interminável de pessoas muito preparadas, algumas detentoras de elevada escolaridade, ensejando que demonstrem uma capacidade de resolução de problemas realmente marcante.   Chega a incomodar a pretensa 'segurança' (por vezes empáfia) que alguns, de modo blasé, demonstram em sua desenvoltura. Por vezes tal (auto)confiança como que autoriza a pessoa a tratar com deslealdade seu semelhante, sempre colocando-o em segundo plano, como um meio para alcançar fins nebulosos. O que mais impressiona é o pretenso desconhecimento do fato inexorável de que eles também assim serão tratados, por aqueles a quem desprezaram ou por outros de quem não esperavam tal conduta... É a natureza do homem imperfeita, decaída. Não somos leais mas detestamos quando não são leais conosco.

Tenho dificuldades de me relacionar apropriadamente com as pessoas, ainda não sei bem o porquê. Creio que esta Psicologia toda que estudei no fim acabou me atrapalhando, não sei ao certo - identifico sempre intelecções ou intencionalidades que -vá lá saber - podem não ser as mais fidedignas, mas assim as assumo... No entanto, procuro ser muito ético nas minhas relações, pois a Lei manda "agir com os outros como gostaria que agissem com você". É o grande desafio para qualquer vivente, pois somos muito falhos. Mas como o Pai Celeste vasculha nosso íntimo e nos julgará conforme nossas intenções, espero ser apreciado pelo que avalio como justo, em especial no que Ele mais espera de mim, em meu casamento.

Agora, chegando perto da casa dos 60 anos, posso dizer que sou muito realizado, e isso 99% por causa da espiritualidade, da reconciliação, da regeneração que graciosamente recebi. Penso hoje que as coisas multifacetadas deste mundo tem de estar na correta perspectiva para o crente, pois muitos são os valores e preciosidades da vida terreal, mas a maior parte em desacordo com que prescreve a Palavra de Deus. Consegui muito nesta vida (não tanto por mim mesmo, mas pela graça imerecida do Pai Celestial), mas digo que nada vale mais do que estar bem com Deus.  O Pai Celestial é leal, e nunca se diria que nos trairia - Ele cumpre o que promete. Somente um louco, por outro lado, trairia a Deus, depois de tudo o que pactuamos com Ele. 

Por muito tempo em minha vida tive insônias. Demorava a conciliar o sono. O peso de meus maus atos me atormentava por demais. Fiz muita gente infeliz. Minha consciência me acusava e demandava mudança. Minhas orações foram atendidas, pois não tive medo de me humilhar perante Ele; na verdade, chega uma hora que não temos mais como justificar nosso lamaçal. Recebi a chance de me reconciliar e prometi doravante ser leal ao Pai Celestial. Digo hoje que nada mais vale neste mundo do que recostar a cabeça no travesseiro à noite e dormir o sono dos justos (Salmo 127: 2b ; Provérbios 3: 21 a 24); pegar logo no sono, depois das orações e do beijo na esposa... 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Pluralismo, plural


foto obtida agora via Google Images de
http://enikselom.blogspot.com.br/2010_05_01_archive.html


Quinta feira ‘braba’, como se diz na minha terra, depois de mais um dos afamados festejos momescos. Eu brinquei em minha vida somente um ou dois carnavais – depois de constatar que o cheiro de cigarro ficava muito impregnado na minha roupa - vi que o ambiente (problematizado pelo estado alcoólico de muitos frequentadores) não era promissor para minha segurança e desenvolvimento. Nem pela TV acho muita graça... Procuro saber mais noticias nos veículos impressos de grande circulação. Mas mesmo com as magras edições, não deixo de ler os principais  jornais, em papel (sim, gosto ainda desta prática antiga) e no formato digital, via PC ou tablet.

Uma tendência moderna que se vê nestes importantes veículos de comunicação de massa é a coleção de colunistas, que todos os jornais reúnem, convidando-os (ou pagando boas somas) para interpretar os acontecimentos. Como tudo na sociedade, abarcam estas heterogêneas coletâneas ensaístas e articulistas bons e ruins, além dos medíocres. É impressionante a gama de assuntos que eles e elas discutem, alguns que nos fazem ficar matutando onde foram busca-los – alguns, imagino, vislumbraram-nos, aparentemente, sob efeito de alguma substancia inebriante, dada a desimportância ou maluquice.

Gosto do jornal Folha de São Paulo, talvez o maior e melhor hoje em brasólia. Ele se gaba de ter uma gama pluralista de colunistas, escalando-os em dias específicos para desfiarem suas intelecções, pareceres e até diatribes. Lê-se coisas interessantes, bobagens, discursos divertidos e outros bem instrutivos. Este jornal é tão eminente que seus colunistas e articulistas costumam comentar e discutir (civilizadamente ou não) entre si os próprios escritos que publicam, verberando ou dando perfil laudatório ao discurso. E haja pluralismo...

Cresci na Academia acreditando que o debate, a peleja, a controvérsia são necessários, principalmente sob a égide da cortesia, da polidez, para bem descrever, esclarecer, instruir, interpretar e compreender a realidade multifacetada, multidimensional, embasbacante. Ou seja, da ‘discussão nasce a luz’, para citar um brocardo conhecido. Mas o que parece imperar hoje, nos jornais, revistas, na academia (sempre com honrosas exceções, e que não são poucas) é discutir para ter luz, mas luz dos holofotes, quem ‘aparece’ mais, quem choca mais (como alguns colunistas da Folha), quem é mais comentado/a pelos demais, para o bem e para o mal (ou pelo bom ou pelo mau...). Veja só:  Contardo Calligaris, na sua coluna da Folha de São Paulo de hoje, quinta feira, 14 de fevereiro de 2013 (Ano 92, nro. 30.633, ‘Saudade de ideias perigosas’, Caderno Ilustrada, p. E-8), lembrando de Foucault, pergunta se, neste cenário de grande permissividade, onde se permite dizer tudo de qualquer coisa, por que discutir, por que lutar por qualquer ideia? Mesmo porque, digo eu, parece - já o disse outro dia -  que não é mais feio proferir sandices, disparates ou redundâncias... Contardo pergunta ao final de sua coluna se não seria o caso – será... - de ‘falar e deixar falar’?...

E como ficam - volto a colocar esta constatação - dentro desta confusão, os jovens, minha maior preocupação como educador? A exigência que se faz, na Faculdade, para que eles leiam, leiam, leiam é enorme, em todos os sentidos. Mas como ‘filtrar’ o que se lê, como categorizar, como arquivar convenientemente a enxurrada de dados e informações? Eu gostaria de ter uma resposta clara, cristalina, mesmo um tipo de ‘receita’, mas cada um deve achar, dando ‘cabeçadas’ ou não, o seu caminho. Somente existem linhas gerais de conduta: averiguar credenciais da pessoa, criticar o texto de modo minudente, estabelecer ‘pontes’ entre discursos conexos (da pessoa e de seus pares; aliás, mesmo que também seja oriundo de outros campos) etc. A lista de estratégias é grande. Um profissional que não domine minimamente certas regras do uso da linguagem, da razão, tem escassos horizontes de sucesso. Mas o exaustivo desafio é recompensador: saber discernir, em cada campo do saber e em cada profissão (e isso cada vez melhor), o joio do trigo; diferenciar a ilusão da certeza, experimentar a satisfação da clareza da decepção do engano e, principalmente, averiguar os frágeis limites daquilo que é quimérico em relação ao que é real.  Acho que contribuir para que isso ocorra faz parte de minha missão, nas diversas matérias que ministro na Universidade. Que Deus me ajude nesta tarefa cada vez mais complexa!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O Esforço Correto


Gosto, artísticamente, das figuras do Lorde Gautama (o conhecido príncipe indiano Siddharta Gautama, que viveu de 563 a 483 a.C., que depois se cognominou, do sânscrito, 'Buddha' - 'despertado', querendo significar 'esclarecido', 'iluminado') pois elas passam um tanto do desapego e da serenidade que o Budismo prega. Diferente do que se observa em algumas vertentes do cristianismo com relação às imagens, estátuas, relíquias e figuras, em geral aqui estas representações imagéticas não são adoradas, ainda que algumas, pelo seu valor histórico, sejam reverenciadas pelos adeptos de algumas seitas. Budismo é considerado como religião em nossas imprecisas ocidentais considerações, mas muitas vertentes, na verdade, constituem-se  mais como uma espécie de 'filosofia de vida', uma maneira ética de se relacionar com o Cosmos. É assim que eu encaro esta ampla escola de pensamento oriental, mesmo porque creio que só o Zen (e dentro deste, a escola japoneza Sotozen) represente a essência do Budismo, como Lorde Gautama o concebeu. Ele nunca pensou em fundar uma religião e, creio, ficaria 'chocado' com o que algumas correntes eregiram a partir de seus ensinos originais...

Hoje veremos um dos oitos passos do Nobre Caminho Óctuplo, que encerra interessante ensinamento. Esforço Correto (também entendido como Diligência Correta) é aquele passo que abarca um tipo de energia que ajuda ao budista (e qualquer vivente; não tem que ser adepto desta escola de pensamento para auferir sua inteligência...) a percorrer de modo mais apropriado o Caminho do Meio, o Nobre Caminho Óctuplo. Este esforço correto liga-se, creio, ao foco que deve presidir a maioria de nossas ações. Vejamos:

1. Esforçar-se corretamente não significa necessariamente intensidade de praticar, agir. Por exemplo, se nossa prática, nosso agir, qualquer que seja, nos fizer sofrer, ou sofrer a outros, está desvirtuada. Nossa prática e ação deve ser inteligente, baseada na real compreensão do ensinamento subjacente. (No Budismo se diz 'praticar' pois, mediante nosso correto, diligente - aplicado -  agir, nossa atenção constitue-se como que em método para alcançar fins; é metodologia de aprender a viver, de vivenciar)

2. Um Esforço Correto conduz nosso agir a alcançar valores humanos como amor, lealdade, reconciliação. Obviamente quando nos esforçamos de modo correto a alegria e a felicidade a acompanha, mais cedo ou mais tarde - são índices, critérios de nosso esforçar apropriado. Um exemplo: quando se acorda, devemos sorrir - temos a bênção de mais um dia para praticar o Caminho. Mas como sorrir, se acordo com dores, angustiado, temeroso? Sorria para tudo isso também!!  Antigamente eu poderia me assustar quando acordava e ia ao toalete escovar os dentes, com a minha cara amassada. Resolvi colocar no espelho um lembrete tipo post-it que dizia, com aquela figurinha muito conhecida estilizada de sorriso :-) "Sorria!!" e, logo-logo, me condicionei a realizar isto 'automaticamente' nas manhãs, quero dizer, de modo cônscio; sim, consciente da necessidade do sorriso ser presente em meu rosto frente a qualquer situação (minha feição não ajuda muito as pessoas a 'se  soltarem' na minha presença, e se estiver carrancuda, então, pode mesmo assustar...). Mas confesso que ainda tenho dificuldades de manter esta prática; que fazer... - devo insistir, esforçar, pois sei que isso é correto em todos os sentidos!

3. Com o tempo descobre-se que qualquer prática, qualquer agir, se realizado com a energia e disposição da plena atenção, pode ser expressão de um esforço correto. Assim, lavar os pratos, varrer o chão, cuidar de crianças ou idosos adoentados podem ser eventos muito preciosos  (hoje cedo fiquei minhas 3 horas cortando cabelo e barba no asilo, como sempre faço às terças e sextas-feiras, e pude orar ao Pai Celestial mais uma vez pela bênção de poder servi-Lo)  para nosso despertar.

Aprendi em minha vida que o sofrimento é um tipo fundamental de experiência que pode nos conduzir a uma prática, a um agir consciente que, adornado pelo Esforço Correto, nos faz atingir conquistas existenciais, pessoais, muito importantes. Se estamos ansiosos ou tristes, quando assim praticamos sentimos alívio. Necessitamos de muita energia (leia-se estudo, conscientização) para contemplar o sofrimento e investigar suas causas, e sabemos que somente este tipo de compreensão é que poderá nos dizer como (qual o caminho para)  colocar um ponto final no sofrimento. Em outros termos, quando acolhemos o sofrimento, investigando sua(s) origem(ns), poderemos constatar que é possível por um fim no sofrer, visto que existe um caminho para realizar isso. 

O praticar do vivenciar consciente deve ser alegre, prazeroso. Devemos examinar nossa forma de praticar (de agir) em tudo. Não fomos criados para sofrer, ainda que nossa natureza decaída nos induza a isso. Mas, em si, a forma de lidar, de praticar, de agir, com relação a todas as coisas (boas e ruins, doloridas ou agradáveis, ...) deve ser alegre, prazerosa; se não, não estaremos nos esforçando corretamente. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A Ação Correta


A Ação Correta baseia-se na Compreensão Correta, no Pensamento Correto e na Fala Correta, dependo intrinsecamente do Meio de Vida Correto. Implica em praticas que evitam prejudicar os outros, exercendo a não-violência com os demais e consigo mesmo. Para agir corretamente temos que agir sempre com plena atenção, e observamos principalmente quatro áreas de nossa existência muito afetadas neste particular: agir corretamente com relação à Vida, à generosidade, à sexualidade e ao consumo responsável.

Agimos corretamente quando demonstramos reverência pela Vida, não permitindo que se interrompa a vida dos seres viventes; em suma, não matar. No budismo esta ideia associa-se à ideia de Compaixão - o imperativo de amor que surge em nosso íntimo, oriundo do pesar que sentimos ao ver que muitas de nossas ações prejudica aos demais. Significa, então, estar decidido a impedir o sofrimento dos outros, principalmente pela cessação da vida.

Agimos corretamente quando demonstramos generosidade, cultivando a bondade e outras formas de contribuir para o bem-estar dos demais viventes. Posso fazer isso compartilhando meu tempo, energia e recursos, principalmente para os que mais necessitam. Igualmente decido não possuir algo que pertença a outrem, respeitando a propriedade e os direitos alheios; terei uma vida simples, espartana. Decido também, de acordo com este valor, não exercer nenhuma forma de exploração do próximo, contribuindo para a justiça social.

Agimos corretamente quando observamos uma vida sexual que não ofende as pessoas. Nossa tendência ao erotismo é muito forte, e com ela podemos infligir sofrimento ao outro, sejam conhecidos, amigos e principalmente familiares. Devo me comprometer a cultivar a responsabilidade e assimilar meios de proteger a segurança e a integridade de pessoas, casais, famílias, principalmente as crianças. Estas dificuldades geradas pela incontinência e todo tipo de abuso geram sofrimento que perduram toda uma vida, inclusive ao ofensor. Muitas pessoas imaginam que com uma vida sexual superficial aliviam sua solidão ou o sentimento de auto-desvalor, mas sem compreensão, bondade e diálogo (ou seja, amor - e um dos principais é o amor-próprio...) nada disso se consegue.

Agimos corretamente quando comemos, bebemos e consumimos de modo cônscio, responsável os recursos que dispomos. Devo me comprometer a cultivar a boa saúde (física e mental) em mim, minha família e da sociedade. Isto implica também observar o uso apropriado de coisas potencialmente intoxicantes, tanto as materiais (bebidas, alimentos, drogas lícitas e ilícitas, principalmente) quanto as virtuais (certos programas de TV, revistas/livros e filmes, e até conversas ociosas). Temos que nos comprometer a trabalhar duro para alterar a violência, medos, raivas e ressentimentos, confusões (ideias ilógicas) presentes em nosso espirito que nos levam , cônscia ou inconscientemente a utilizar destas ilusões. Ação Correta significa propiciar ao nosso corpo e nossa mente somente nutrientes seguros, sadios, confiáveis. 

Uma vida que privilegia ações corretas pressupõe uma vida de estudo, de 'decodificação' desta extrema complexidade que é o cosmos e nossa existência pessoal e social. Se não tivermos uma clara noção de quem somos e de nossa situação, dificilmente nos engajaremos em ações que possam nos levar ao equilíbrio.