segunda-feira, 20 de abril de 2015

Unica carta de Calvino a Lutero


Carta de Calvino a Lutero, em  21 de Janeiro de 1545

         Ao mui excelente pastor da Igreja Cristã, Dr M. Lutero [i],  meu tão respeitado pai.

    Quando disse que meus compatriotas franceses [ii] que muitos deles foram tirados da obscuridade do Papado para a autêntica fé, nada alteraram da sua pública profissão [iii] e que eles continuam a corromper-se com a sacrílega adoração dos Papistas, como se eles nunca tivessem experimentado o sabor da verdadeira doutrina, fui totalmente incapaz de conter-me de reprovar tão grande preguiça e negligência, no modo que pensei que ela merece. O que de fato está fazendo esta fé que mente sepultando no coração, senão romper com a confissão de fé? Que espécie de religião pode ser esta, que mente submergindo sob semelhante idolatria? Não me comprometo, todavia, de tratar o argumento aqui, pois já o tenho feito de modo mais extenso em dois pequenos tratados, em que, se não te for incomodo olha-los, perceberá o que penso com maior clareza que em ambos, e através da sua leitura encontrará as razões pelas quais tenho me forçado a formar tais opiniões; de fato, muitos de nosso povo, até aqui estavam em profundo sono numa falsa segurança, mas foram despertados, começando a considerar o que eles deveriam fazer. Mas, por isso que é difícil ignorar toda a consideração que eles têm por mim, para expor as suas vidas ao perigo, ou suscitar o desprazer da humanidade para encontrar a ira do mundo, ou abandonando as suas expectativas do lar em sua terra natal, ao entrar numa vida de exílio voluntário, eles são impedidos ou expulsos pelas dificuldades duma residência forçada. Eles têm outros motivos, entretanto, é algo razoável, pelo que se pode perceber que somente buscam encontrar algum tipo de justificativa. Nestas circunstâncias, eles se apegam na incerteza; por isso, eles estão desejosos em ouvir a sua opinião, a qual eles merecem defender com reverência, assim, ela servirá grandemente para confirmar-lhes. 

     Eles têm-me requisitado de enviar um mensageiro confiável até você, que pudesse registrar a sua resposta para nós sobre esta questão. Pois, penso que foi de grande conseqüência para eles ter o benefício de sua autoridade, para que não continuem vacilando; e eu mesmo estou convicto desta necessidade, estive relutante de recusar o que eles solicitaram. Agora, entretanto, mui respeitado pai, no Senhor, eu suplico a ti, por Cristo, que você não despreze receber a preocupação para sua causa e minha; primeiro, que você pudesse ler atentamente a epístola escrita em seu nome, e meus pequenos livros, calmamente e nas horas livres, ou que pudesse solicitar a alguém que se ocupasse em ler, e repassasse a substância deles a você. Por último, que você escrevesse e nos enviasse de volta a sua opinião em poucas palavras. De fato, estive indisposto em incomodar você em meio de tantos fardos e vários empreendimentos; mas tal é o seu senso de justiça, que você não poderia supor que eu faria isto a menos que compelido pela necessidade do caso; entretanto, confio que você me perdoará. Quão bom seria se eu pudesse voar até você, pudera eu em poucas horas desfrutar da alegria da sua companhia; pois, preferiria, e isto seria muito melhor, conversar pessoalmente com você não somente nesta questão, mas também sobre outras; mas, vejo que isto não é possível nesta terra, mas espero que em breve venha a ser no reino de Deus. Adeus, mui renomado senhor, mui distinto ministro de Cristo, e meu sempre honrado pai. O Senhor te governe até o fim, pelo seu próprio Espírito, que você possa perseverar continuamente até o fim, para o benefício e bem comum de sua própria Igreja.

 Extraído de Letters of John Calvin: Select from the Bonnet Edition with an introductiory biographical sketch (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1980),  pp. 71-73.

Tradução livre:
Rev. Ewerton B.Tokashiki

Pastor da Igreja Presbiteriana de Cerejeiras – RO.
Prof. de Teologia Sistemática no SPBC – extensão Ji-Paraná


NOTAS:

[i] Nota do tradutor: o especial interesse por esta carta, pelo que sabemos, é que ela é a única que Calvino escreveu a Lutero.

[ii] Nota do tradutor: pelo que parece Calvino se refere aos huguenotes que embora haviam assumido o compromisso com uma confissão de fé reformada, mas na prática ainda preservavam os ídolos, toda a pompa e ritual da missa católica romana. Esta prática evidenciava uma incoerência entre o ato e a convicção de fé.

[iii] Nota do tradutor: Calvino se refere ao culto como uma confissão pública de fé.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Bioética



Obtido agora (via Google Images) de
http://carfleo.com/tag/bioethics/

Tenho estudado esta temática ultimamente, e como ela é vasta (bem, como qualquer área de  investigação e discussão), com muitas nuances, dimensões, interfaces. É um campo muito gostoso de refletir, pois trata da vida do dia-a-dia, que a todos interessa. O legal nestes tempos cibernéticos é que temos muito material bom na web, à disposição de quem quiser.

'Navegando' há pouco descobri um material bem feito, muito útil para o iniciante: http://lejeuneusa.org/sites/lejeuneusa.org/files/prepress_manual_13050027.pdf   pois  traz os temas mais comuns que impactam o debate, não só entre estudiosos.

Mas se você deseja um livro ótimo, veja o que eu encontrei (colocando no Google a frase 'bioethics free book' ) e está disponível aqui:  http://bit.ly/1BZuwdJ    Um dos melhores livros que eu já vi.  Completo e ainda atual; um dos editores, o Prof. Peter A. Singer, muito conhecido na área, apesar de polêmico, é muito respeitado pelo seu ativismo em prol dos animais.

Mas vasculhando a web, que é algo bem acessível hoje (quando fiz o mestrado, a gente tinha que ir para as boas bibliotecas, como as das Universidades; fui muito abençoado em poder ter perto de mim a da UNESP e a da UNICAMP, fantásticas!), podemos encontrar muita coisa boa. Veja por exemplo http://www.ufrgs.br/bioetica/biosubj.htm    Ali temos um texto que faz parte de um contexto maior, criado por um dos maiores especialistas em Bioética no Brasil, o Prof. José Roberto Goldim. Nesta página vemos a referência do texto, que é: Goldim, J. R. Bioética e Interdisciplinariedade. Educação, Subjetividade & Poder,  1997; 4: 24-8. Vou fazer um pequeno resumo deste texto abaixo - com contribuições das outras páginas do site - para sua informação. Espero que seja útil.

Ética, uma área da Filosofia, abrange um catálogo articulado de conhecimentos oriundos da discussão racional da conduta humana, intentando explicar as diretrizes ditas ‘morais’ de forma racional, justificada (ou seja, fundamentada), utilizando-se da contribuição de outras áreas rigorosas, como as diversas disciplinas científicas. É uma reflexão sobre a moralidade; assim, podemos dizer que é como uma ‘filosofia moral’.

‘Moral’ é o conjunto de regras que o homem consolida ao longo das suas atividades do dia-a-dia, abrangendo a totalidade dos indivíduos dentro de uma cultura situada no tempo e espaço. Tais regras viram, grosso modo, orientar o bem atuar de cada pessoa perante os demais e suas instituições, tentando pautar com equilíbrio as suas ações e os seus julgamentos sobre o que seria moral/imoral, certo/errado, bom/mau. Assim, no aspecto prático do com-viver, Ética e Moral tem fins semelhantes, esclarecendo os fundamentos que esculpem o caráter das pessoas e suas virtudes, facilitando a aprendizado da mais apropriada maneira de agir em sociedade.

A Ética abrange teorização e a aplicação destas reflexões: a Ética Aplicada. Esta consiste no esforço de dar respostas apropriadas a problemas concretos – os dilemas - do existir cotidiano das pessoas, constituindo-se em uma reflexão (prática) com base na realidade concreta, situada. A Bioética, atualmente, é considerada como sendo a Ética Aplicada às questões da saúde e da pesquisa envolvendo seres humanos. A Bioética aborda problemas das pessoas – muitas originadas da evolução dos costumes e da emergência de novas tecnologias -  de forma rigorosa, mas também de maneira original; marcadamente secular, mas sem desprezar as contribuições da reflexão ética de cunho religioso; inter/multidisciplinar; contemporânea, mas sem esquecer as conquistas do passado; global (ampla e inclusiva) e articulada/sistemática. Desta forma, estimula novas dimensões de discussão e de reflexão, que podem possibilitar soluções adequadas para uma enormidade de questões.
Existem várias definições para o termo Bioética, do grego bios (vida) e ética. Uma das mais completas diz que Bioética é um conjunto de pesquisas, discursos e práticas, normalmente multidisciplinares, cuja finalidade é esclarecer e resolver questões éticas suscitadas principalmente pelos avanços e pela aplicação da medicina e da biologia. A Bioética, portanto, tem forte ligação com a filosofia (pois discute as questões éticas) e considera a responsabilidade moral dos diversos tipos de cientistas em suas pesquisas e práticas. É o estudo dos problemas e implicações morais despertados pelas pesquisas científicas em biologia e medicina, e suas determinantes psicológicas, legais e filosóficas. 
A Bioética discute questões como a utilização de seres vivos em experimentos; questões sobre a definição de morte e a retirada ou não de tratamento médico destinado a  prolongar a vida; diagnóstico pré-natal e aborto; a estocagem e uso de embriões humanos congelados;  o uso de tecidos humanos, fetais ou animais para a pesquisa científica; a investigação de possível contaminação pelo vírus HIV ou outras infecções; a expansão da engenharia genética e a destinação de escassos recursos de promoção da saúde etc. No âmbito das pesquisas com pessoas, toda investigação científica tem que passar por um Comitê para averiguar a eticidade dos procedimentos, como o que temos no UNIFAE.
Nas minhas aulas de Ética no Centro Universitário sempre relembro aos alunos e alunas que esta disciplina - como a disciplina-mãe, a Ética - visa, em grande medida, a despertar nas pessoas o senso do diálogo, visto que nossos valores e atitudes, bem como nossos sentimentos, são a matéria-prima da reflexão ética, mas utilizando precisamente a Razão para garantir que estes esforços possam efetivamente redundar em mais equilíbrio e justiça - harmonia - nas relações (por vezes conflituosas, dada os multifacetados interesses e expectativas) inter-humanas.