terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Coincidências…

 Vi no caderno ‘Mais!’ (#876) da Folha de São Paulo (ano 88 #29.145) à p. 5 uma pequena análise de Eduardo Sterzi sobre a obra de Steiner, complementando a matéria principal. O que salta aos olhos é a recorrente confirmação, a partir de diferentes autores/contextos, do fato de que compreender precisa e inexoravelmente envolve, como apontou claramente Hans-Georg Gadamer (Verdade e Método I e II), interpretação. Pode parecer a desavisados certa minudência de acadêmico enfastioso, mas disto decorre que sempre trazemos nossos horizontes prévios (de compreensão) que pré-conduzem nosso entendimento. Este acontecimento tem grande impacto no âmbito da comunicação humana em geral (e na educação em particular), posto que não se considera, de plano, por parte da pessoa (e, por vezes, dos docentes,) este fundamental aspecto na assimilação de novos dados, conceitos, informações, et cetera. Assim, creiam, no linguajar, na lingüisticidade gadameriana, também sobre a dialogicidade do humano bem como no exame das narrativas, este fato compreensão/interpretação se impõe. Vejo mais e mais, aqui e ali, comentários e análises muitas delas esclarecedoras. Uma sugestão faço aqui – coloque no google a toda a frase < TECNOLOGIAS INTELECTUAIS E OS MODOS DE CONHECER: NÓS SOMOS TEXTO > , de Pierre Lévy, e examine um sem número de ‘imbricações’.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A Ética da Virtude (como considero o que seja 'Ética')

         
Esta exposição pretende discutir algumas questões que permitem formular uma idéia do que seja uma abordagem alternativa sobre a moralidade (um tanto diferente das correntes éticas mais majoritárias), denominada genericamente de Ética da Virtude. Tenho receios que esta despretensiosa apresentação esboce mais as dificuldades do que as boas perspectivas que esta abordagem possa conter, mas ainda assim seria um exemplo da complexidade e do rol de aspectos que estão subjacentes – e que necessitam adequada reflexão - quando se discute a moralidade.
         Para muitos, a questão ética fundamental se resume em perguntar “O que devo fazer?” ou mesmo “Como devo agir?” Supomos que a Ética nos dê “princípios morais” ou regras universais que nos digam o que fazer. Alguns, por exemplo, acreditam que “todos estão obrigados a fazer aquilo que proporcionará o maior bem para o maior número de pessoas”; outros aceitam o princípio básico do filósofo Immanuel Kant de que “ qualquer um é obrigado a agir somente de modo a respeitar a dignidade humana e os direitos morais de todas as pessoas”.
         Princípios morais como estes focalizam basicamente as ações, o fazer humano, e nós aplicamos estes princípios nos perguntado o que eles requerem de nós em circunstâncias particulares, como quando consideramos mentir ou cometer um ato extremo. Aplicamos estes princípios também quando agimos profissionalmente, como administradores ou médicos, e vemos surgir muitos institutos e centros de ética, devotados a promover programas e iniciativas voltadas à ética dos negócios, bioética, ética nas políticas públicas, etc. Estes centros e institutos examinam as implicações morais que estes princípios têm para nossa vida.
         Mas será que somente princípios morais contribuem para podemos pensar sobre o que seja ético? Enfatizar somente princípios pode então determinar que nossa vida se resuma em checar escrupulosamente toda e qualquer ação frente uma tabela de regras contendo o que pode e o que não pode ser feito? Alguns estudiosos apontam que, para considerar efetivamente o que seja “Ética”, devemos atentar para um outro componente também fundamental, as virtudes. Assim, não se trata somente de se perguntar como devemos agir; uma questão importante que podemos nos colocar é “ “que tipo de pessoas devemos ser?” De acordo com a Ética da Virtude, existem certos ideais como a excelência e a dedicação ao bem comum, aos quais devemos atentar visto que eles nos permitem desenvolver de modo pleno nossa humanidade.
         Virtude, em grego arête – excelência, origina-se do Latim vir, virtus, e exprime, em primeiro lugar, o poder e mais geralmente a força de vontade. Designa igualmente, por extensão, a eficácia ou aptidão concreta para agir que pertence a um objeto, como por exemplo, a virtude de um veneno. Para alguns gregos clássicos, existe uma virtude para cada coisa quando esta coisa perfaz sua natureza de maneira excelente: a virtude do cavalo é correr bem; a virtude do Homem seria desabrochar suas potencialidades sob o domínio da razão. O que denominamos ‘virtude’ seria um traço de caráter merecedor de admiração, tornando seu possuidor melhor, seja do ponto de vista moral, seja do ponto de vista intelectual, seja no comportar-se em condições específicas. Tradicionalmente esta escola inicia-se com Platão e Aristóteles, que investigaram a possibilidade de haver uma unidade das virtudes e o modo como a correta posse de uma virtude determina ou não a posse de outras.
         Diferentes visões do que seja virtude moral e sua relação com outras virtudes fundamentam o pensamento ético platônico, aristotélico, estóico, cristão, iluminista e romântico, além do pensamento do século XX. Estas diferenciações retratam as principais preocupações contextualizadas em cada época, ilustradas pelas necessidades materiais e culturais ali predominantes, como p. ex. a caridade, a resignação e a castidade no período cristão - o que por sua vez eram um tanto incompreensíveis para os gregos. Por outro lado, mesmo a ‘magnificência’ grega de Aristóteles seria hoje para nós algo complexo para ser entendido como um bem em si, como um elemento constituidor do “homem magnânimo”.  Hume considerou virtude como um traço de caráter com o poder de realizar o amor ou o orgulho, ao ser útil ou agradável tanto para seus possuidores quanto para as pessoas que seriam por elas alcançados ou favorecidos. Já Kant considerava virtude somente como um traço que poderia operar no cumprimento do dever, não possuindo um valor ético independente.
         O que se entende por virtudes particulares tem variado ao longo dos séculos. Na ética da virtude clássica, eram consideradas por Aristóteles virtudes principais (ou “virtudes cardeais”) a mansidão, a franqueza, a temperança, a magnanimidade, a coragem, o conhecimento prático (a phronesis grega, ou sensatez, segundo alguns autores), e a justiça, a maior delas. Na Idade Média foram adicionadas pelos filósofos cristãos a esta lista as virtudes teologais -  virtudes cujo objeto, no contexto religioso, é Deus - como sendo a fé, a esperança e a caridade (ou amor). Não obstante, consideramos que todas as abordagens sistemáticas sobre Ética têm algo a dizer sobre traços de caráter, considerados como virtudes, e sobre a natureza do que seja virtude como um todo. Uma distinção típica é realizada entre virtude intelectual e virtude moral, mas há também importantes diferenças entre as tradições de teorias morais que focalizam a virtude, e as tradições éticas que, como dissemos, dão espaço para virtude somente de passagem, indiretamente. Muitas destas se valem de ‘virtudes’ complementando o trabalho principal de investigação ética de formular os últimos princípios, leis ou regras de moralidade. Para elas, virtudes constituem efetivamente o análogo interno de um conjunto de princípios morais, inclinando seu possuidor a obedecer ou seguir o que as regras prescrevem, já que visam – virtudes e regras – alcançarem os mesmos objetivos.
         Mas enfim, qual é a natureza de “virtude”? Uma virtude, como a honestidade ou generosidade, não é somente a tendência de fazer o que é honesto e generoso, ou ter simplesmente um traço de caráter desejável ou moralmente valioso. Sim, é um traço de caráter, ou seja, uma disposição, uma inclinação intrínseca de seu possuidor. Mas é algo que não se reduz a um hábito; não é a simples disposição de se fazer atos honestos, ou agir honestamente por certas razões. Uma virtude é uma disposição multifacetada, ligada a muitas outras ações, ligada a emoções e reações emocionais, ligada a valores, desejos, atitudes, interesses, expectativas e sensibilidades. Possuir uma virtude é ser uma pessoa que possui um complexo esquema mental. Portanto, é falso ou incompleto atribuir uma virtude com base em uma simples ação ou intenção.
         O aspecto mais significativo deste esquema mental é ampla aceitação, por parte da pessoa que detêm certa virtude, de um continuum de considerações como razões para agir de modo ético. Exemplificando, imagine uma pessoa que se considera ‘honesta’. Ela não pode ser simplesmente assim identificada em razão de que comercializa honestamente e não trapaceia. Se estas ações são realizadas meramente porque a pessoa pensa que honestidade é a melhor estratégia comercial ou porque ela teme ser presa se assim não proceder, AO INVÉS de reconhecer como razão relevante que “Agir diferente seria desonesto”, aquelas não seriam ações de pessoa honesta. Outro exemplo: uma pessoa honesta não pode ser identificada como a que fala ocasionalmente a verdade porque simplesmente é a verdade, mas sim como a pessoa que reconhece o fato de que “aquilo seria mentira”, como a mais forte razão para não fazer certas afirmativas, em certas circunstâncias. Adicionalmente, esta pessoa crê, confia na importância de que a correta razão para dizer a verdade seria considerar o valor “aquilo é a verdade”.
         Assim, as razões para agir e as escolhas de uma pessoa honesta com respeito a ações honestas e desonestas refletem as suas visões sobre honestidade e verdade, e suas visões manifestam a si mesmas com respeito a outras ações ou reações emocionais e afetivas. Esta pessoa, valorizando honestidade como ela faz, escolhe pessoas honestas para se relacionar, trabalhar, ter amizades, leva seus filhos a serem honestos. Esta pessoa certamente desaprova desonestidade em amplo espectro, não se alegra com histórias e relatos de fraudes ou mensalão. Ela despreza ou lamenta aqueles que se realizam por meios desonestos em vez de pensar que são “espertos”; fica chocada ou estressada quando pessoas próximas ou queridas agem desonestamente, e assim por diante. Em resumo, parece que podemos dizer que alguém é honesto não somente observando uma ou outra ação, mas também observando outras ações e os motivos, as razões pelas quais a pessoa age, ao longo do tempo e nas diversas circunstâncias. Esclarecidas estes aspectos, podemos tentar discutir alguns contornos do que seria uma Ética voltada às virtudes.
O que hoje em dia se denomina Ética da Virtude era a forma proeminente de teorização ética no mundo antigo, mas foi largamente ignorada durante a era moderna. Houve recentemente uma espécie de novo interesse neste tipo de consideração, em parte por causa da insatisfação com os caminhos que a filosofia moral tomou até então. Esta filosofia enfatizou a obrigação moral e a lei moral, à custa das fontes morais da vida interior e da personalidade da pessoa. E, neste particular, a ética da virtude tem procurado adaptar antigas idéias de virtude aos requisitos da teoria ética atual e às questões práticas da ética aplicada.
Como vimos, a ética da virtude origina-se na Grécia Clássica, em especial com Aristóteles, que sustentou que uma compreensão apropriada do que é reto e admirável na ação humana não pode ser capturado por princípios ou regras gerais, mas é, antes, pertinente a uma ampla sensibilidade e fino discernimento, qualidades estas incorporadas em bons hábitos de pensamentos, desejos e ações morais. E muitos notáveis pensadores que se denominam filósofos éticos da virtude tendem a considerar mesmo que teorização ética constitui algo equivocado, mal orientado, pois a vida moral seria por demais rica e complexa para ser captada por abordagens utilitaristas, conseqüencialistas, kantianas ou contratualistas que procuram traduzir a eticidade em princípios essenciais, fundamentais, unificados.
Mais recentemente certos estudiosos da ética da virtude começaram a ver esta abordagem como representando uma vantajosa e distinta maneira de se engajar na teorização ética, ainda que com contornos não muito claros. Alguns entusiastas nesta tradição simplesmente desejaram associar um ou outro conjunto de princípios morais, complementados com um conjunto de ações ou traços virtuosos. Outros, e constituem uma corrente mais majoritária dentro desta tradição Ética, têm procurado identificar uma ética da virtude genuína, desembaraçada de qualquer influência ou “contaminação”, independente das outras correntes mais importantes, mais conhecidas.
         Mas o quê então distingue a ética da virtude com outros modos de fazer ética? Como em muitos outros campos da Filosofia, definições precisas são difíceis de delinear, mas o contraste mais importante, como vimos, existe com as formas éticas baseadas em regras, princípios e leis morais. Na Ética da Virtude, o foco é posto no indivíduo virtuoso e em seus traços, disposições e motivos íntimos, que justamente o qualificam como virtuoso. Algumas formas de ética da virtude reconhecem regras morais gerais e mesmo leis, mas estes são tipicamente tratados como fatores derivados ou secundários.
         Assim, muitos filósofos modernos pensam que a vida moral é assunto  apropriadamente relacionado com regras morais, mas na Ética da Virtude clássica, do Mundo Antigo, e em algumas instâncias da Ética da Virtude encontradas na moderna ou recente Filosofia, a correta interpretação da vida ética requer primariamente que se compreenda o que é ser um indivíduo virtuoso ou o que é possuir uma ou outra virtude particular concebida, como vimos, como um traço ou disposição da pessoa. Portanto, a primeira coisa que se afirma sobre a Ética da Virtude -  na tentativa de distingui-la de outras abordagens -  é que ela é focada no agente, e não em atos, em ações, como a ética conseqüencialista moderna e as visões baseadas em regras morais, que se supõem governarem as condutas humanas.
         Mas outra característica importante deve ser mencionada. Uma ética de regras vai tipicamente caracterizar os atos como moralmente certos ou errados, moralmente sancionados ou obrigatórios, dependendo de como eles estejam de acordo com regras apropriadas. Estes termos morais são denominados ‘deônticos’ (da palavra grega para ‘necessidade’, ou ‘obrigatório’), e contrastam outra classe de termos éticos que possuem menor ou menos imediata conexão com regras, os denominados termos ‘aretaicos’ (da palavra grega arête - ‘virtude’, ou ‘excelência’ ), como por exemplo, os termos ‘admirável’, ‘virtuoso’. Ética da Virtude faz uso primariamente de termos aretaicos nas suas caracterizações éticas, e trata os termos deônticos como derivados dos aretaicos. Assim, ética da virtude pensa antes em termos do que é nobre ou ignóbil, admirável ou deplorável, bom ou mau, do que em termos do que é obrigatório, permitido ou errado.
         Há Éticas da Virtude que são mais radicais que outras. Aristóteles, no seu livro Ética a Nicômaco, focaliza mais os traços íntimos e de personalidade do indivíduo virtuoso do que naquilo que faz de uma ação virtuosa, reta ou nobre. Para este autor, a retidão ou excelência de uma ação não depende essencialmente dos motivos ou hábitos que deram origem a ela. O indivíduo virtuoso é aquele que, antes de basear-se em regras, é sensível e inteligente o suficiente para perceber o que é nobre ou correto em sua variabilidade de circunstância a circunstância. Mas, por outro lado, temos que apontar aqui que sua explicação da percepção parece indicar que ser virtuoso envolve estar ligado a fatos independentes do virtuosismo de alguém sobre quais atos seriam admiráveis ou retos.
         Um tipo mais radical de ética da virtude diria que o caráter ético das ações não é até independente de como, porquê e por quem as ações são realizadas. Antes, o que é independente e fundamental é nossa avaliação e compreensão dos hábitos e motivos humanos, e a avaliação de ações é inteiramente derivada e dependente do que se tem a dizer eticamente sobre a vida interior dos agentes que realizam a ação.
         Um problema na consideração da ética da virtude seria por vezes o uso inadvertido de termos deônticos como “deve”, “necessita”, por causa da força e vigor que possuem, em comparação com os termos aretaicos. Mas esta aparente superioridade parece ser enganadora. Condenaríamos mais fortemente uma ação se disséssemos que ela é moralmente errada do que se disséssemos que ela seria moralmente ? Ou, recomendaríamos mais fortemente contra uma ação dizendo que ela seria errada do que dizendo que seria má? Entretanto, mesmo que um termo aretaico não seja em princípio mais fraco em força do que um termo deôntico, pode-se afirmar que alegações deônticas são mais fortes do que as avaliações aretaicas, que tendem a ser mais neutras, moralmente falando. Parece haver então certo problema lingüístico subjacente à adequada definição terminológica nestes campos, mas permanece o fato de que a ética da virtude é baseada não em códigos, leis ou normas, mas no agente, na pessoa. Assim, deve derivar suas considerações acerca das ações humanas (não importando se estas são aretaicas ou deônticas) a partir de caracterizações fundamentais e independentes de cunho aretaico sobre os traços íntimos dos indivíduos, ou dos indivíduos mesmos.
         Considera-se que alguns motivos elevados, como a benevolência, cuidado, autonomia, justiça, responsabilidade subjazem a muitas teorizações éticas a partir de virtudes, mas os diferentes estudiosos não exibem consenso sobre suas adequações entre os diversos sistemas, e este é um dos pontos fracos desta abordagem. Muitos pesquisadores consideram que o revivamento atual da ética da virtude implica que muita discussão deve ser ainda travada até que se encontrem patamares mais claros sobre as possibilidades de realização das promessas desta visão. Encerrando esta breve apresentação, vamos ilustrar com uma estória possível algo da complexidade, do desafio de raciocinar a moralidade a partir de virtudes.
         Imagine um doente de câncer incurável. Ele pode seguramente se beneficiar de uma habilidade em esconder de si mesmo a evidência de que possui uma doença terminal. Como ficaria nosso julgamento sobre esta sua estratégia? Nós tendemos a julgar esta pessoa menos admirável do que outra pessoa que, na mesma situação, exibisse coragem de enfrentar este supremo desafio com tenacidade, que fosse menos desonesta consigo mesma, ainda que se saiba que esta sofreria mais e pudesse morrer mais cedo do que o outro doente.  Assim, algumas virtudes legítimas parecem não beneficiar seu detentor como se poderia esperar. Obviamente uma pessoa que enfrenta corajosamente sua doença pode evitar que suas amizades tenham que compartilhar uma mentira, beneficiando-as, mas pode ser mais difícil para ela lidar com estados de pânico e depressão se souber de seu estado terminal, e  deste modo fazer também outros sofrerem com seu estado...
         Portanto, as situações que demandam reflexões sobre a moralidade dos atos humanos a partir de virtudes apresentam de igual modo a necessidade que os elementos de análise sejam convenientemente explicitados, explanados, diríamos até com certa prudência  (que é uma apreciada virtude...)  A vida é por demais complexa e temos que averiguar com cuidado todas as suas nuances, seus determinantes e suas determinações.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Violência Cotidiana

Já se tornou comum expressar-se a noção da violência como algo banalizado, costumeiro, como que imbricado nas atividades que todos usualmente temos que realizar. Os estudiosos apontam que violência, em especial a dirigida contra a mulher, minorias, o idoso ou à criança, ainda que momentaneamente nos sensibilizem, não têm atualmente o condão de suscitar em nós maior reação do que um enfado ou passiva indignação, beirando a conformismo puro e simples. Na origem e manutenção da conduta violenta, estes mesmos estudiosos apontam falhas na educação familiar e escolar, determinando que o comportamento geral cidadão comum por vezes é o veículo 'multiplicador' desta cultura de violência, com seu individualismo exacerbado, com o consumismo desenfreado e os propagados valores de uma vida descartável e passageira. Como na política e  no futebol, todos temos nossas teorias porque chegamos a este estado de coisas.
            
 Modestamente me atrevo a provocar algumas reflexões, oriundas de minhas observações pessoais. Dizem que a beleza está nos detalhes, e ouso dizer que as relações interpessoais estão violentas já no 'varejo', o que diríamos no 'atacado'. Me explico – um dos atos que considero mais comezinho de urbanidade, de convivência social, é precisamente cumprimentar o vizinho, o colega de trabalho, um senhor ou senhora que cruzamos na rua, mesmo uma criança pequena que nos dirige o olhar. O que vemos hoje é um desfile de carrancas e concomitantes negações deste simples gesto, nos mais variados cenários (e mais lamentavelmente no próprio lar), o que já nos contamina e predispõe a devolver ao próximo passante a descortesia, e assim vamos disseminando uma intransigência pela simples presença do outro. Parece que o sorriso é uma expressão cada vez mais escassa, recebida somente em situações de interesse, nem sempre manifesto. Como podemos esperar gestos de compreensão e tolerância, voltados à manutenção uma cultura de convivência harmônica, de solução pacífica dos naturais conflitos, com base na sonegação ampla e generalizada de atos simples de gentileza, de palavras afáveis e olhares receptivos como vemos hoje?

Não nos apercebemos do mal que originamos ao tratar o circunstante com qualquer tipo de desconsideração, ainda que involuntária, por menor que seja. O contínuo recebimento do desdém, do desprezo do outro, somando-se aos inúmeros eventos semelhantes já vívido, expressivo em sua memória, faz o desventurado por vezes exorbitar do que julga ser razoável para ele próprio, como que 'autorizando', justificando o comportar-se de igual ou pior modo. E a cena está posta para os descalabros que assistimos todo dia, o que nos faz pensar duas vezes em ligar ou não a TV ou a comprar um jornal na banca da esquina. 

Todos os antigos lembram nesta hora 'os velhos tempos' quando, sob a denominação do termo 'escrúpulo', resumiam-se diversas maneiras de proceder em sociedade como denotativo de um caráter elevado ao seu detentor. Os pais e familiares efetivamente treinavam seus rebentos nas maneiras aprimoradas de convivência (isso era ponto de honra), que incluía o respeito aos demais, a polidez, o 'desconfiômetro' – a capacidade de se auto analisar quanto à possibilidade de estar aborrecendo ao próximo – e, principalmente, o amplo cultivo de virtudes, entendidas como aquelas disposições constantes da mente e do espírito as quais, por um autônomo esforço da vontade, inclinam seu possuidor à prática do bem. Assim, a pessoa escrupulosa era tida como um modelo de cidadão, de pessoa, merecedora de confiança e admiração. Mas parece que os valores pós-modernos não se coadunam com esta formulação. Não causa mais espécie uma pessoa ter a vida desregrada, desdourada, tresloucada, e julgar-se no 'direito' de nos afrontar, com diferentes graus, impondo-nos um verdadeiro suplício de Tântalo. Talvez evoque, quando muito, um enfado ou um esgar...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Cavalheirismo - fora de moda ?


O tema do cavalheirismo não costuma freqüentar as discussões sobre as relações interpessoais em gerais e nas relações homem-mulher, em particular. Talvez isso seja devido a algumas mudanças ocorridas nos valores que fundamentam nossas condutas sociais.

Mesmo vendo o filme, poucos se deram conta de que o Titanic, após colidir com um iceberg, teve pouco mais de um terço dos seus passageiros sobreviventes, a maioria de mulheres e crianças. Isto ocorreu devido ao fato de que muitos homens se recusaram a entrar nos botes salva-vidas porque não estavam certos de que todas as mulheres e crianças estavam embarcadas neles. Um oficial do navio que sobreviveu, ao ser perguntado se a máxima ‘mulheres e crianças primeiro’ era uma regra do navio ou uma tradição dos mares, o mesmo respondeu que era uma regra da natureza humana.
As pessoas que ainda cultivam semelhante código de valores certamente se constrangem ao ver como o belo sexo é ofendido física ou verbalmente hoje em dia, em especial aquelas que esperam bebês. Alguns críticos afirmam que esta espécie de degradação de nossa civilização se deve em parte às feministas, que diziam o cavalheirismo ser uma modalidade de tirania sutilmente disfarçada. Por outro lado, desde os anos 60 as maneiras do século XIX têm sido desdenhadas como rígidas e ultrapassadas.

Ao que parece, normas gerais de etiqueta parecem ter saído de moda. Modernamente, nossa cultura cibernética algo anárquica como que encoraja imediata gratificação e máxima auto-expressão, a qualquer custo. As mulheres engrossam as estatísticas de condutas desabonadoras praticadas em grande escala, evidenciadas principalmente pela violência, desordens coletivas e abusos de drogas, legais ou proscritas.

Sou daqueles que acreditam que as regras de etiqueta em geral e o cavalheirismo em particular são expressões que complementam as relações interpessoais onde a Lei não alcança, facultando, de um lado, viabilizar vivências enriquecedoras e, de outro, o aperfeiçoamento das instituições, principalmente o casamento. Os valores pelos quais as pessoas são ensinadas a pautar suas ações, não importa a que se dirigem, são determinadas em grande maioria pelo cuidado com que a Sociedade zela pelo constante aperfeiçoamento do mecanismo de ensino destes mesmos valores aos seus membros mais jovens. Ao vermos que a família, como núcleo básico da Sociedade, se encontra enfraquecida, o quê diremos dos valores acessórios, complementares da vida social?

As pessoas internalizam os motivos mais equivocados para autorizarem-se praticar condutas denotativas de falta de urbanidade, de educação. A tônica atual de nossos dias é pelo individualismo, não-cooperação, falta de solidariedade. A re-aprendizagem de valores intrinsecamente humanos, solidários, pressupõe uma reflexão aprofundada sobre os modos como nos tratamos mutuamente, em especial aqueles dirigidos às mulheres e crianças – e também aos idosos... Este repensar é fundamental não somente para dar um novo sentido a temas como etiqueta e cavalheirismo , mas para viabilizar a continuidade de um ensino efetivo destes valores às futuras gerações.

Os gregos clássicos vêm em nosso socorro para compreendermos porque ocorre tamanha modificação nos modos de tratamento entre as pessoas hoje em dia. Esquecemo-nos da ‘regra de ouro’ helênica, que rezava ser um contra-senso desejar-se conhecer o mundo externo, sem antes esforçarmo-nos para conhecer o mundo interno. “Conhece-te a ti mesmo” parece ser ainda hoje um sábio conselho, e a falência das pessoas em conhecer a Felicidade repousa numa série de equívocos, a começar pelo privilégio que se concede às coisas “de fora”, mais do que aquilo que nos é personalístico. Assim, a muitos pode parecer natural não cultivar mais o cavalheirismo, assim como espoliar, defraudar, violentar, impedindo o exercício adequado de nossa civilidade. Em muitos sentidos, creio que estamos não avançando pelo século XXI, mas rumando ao tempo da pedra lascada...