terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Fim de ano...uff!

Mais um ano se finda. Costumava dizer todo dia de manhã, ao acordar - "mais um dia perto da morte!!" mas depois que casei Bilú me proibiu de perpetrar tal brocardo. Decretou que é tétrico e quase doentio. Na verdade não temo a morte, no fundo é libertação, mas a temática choca a muitos. Mas o verdadeiro cristão (como me considero) não deve temer a morte, obviamente. A morte é contrário ao nascimento, não à vida, é o que acredito. Mas fica para outra hora esta digressão. Um dia vou escrever um paper ou mesmo um livro sobre isso. Estou na fase de pesquisa bibliográfica...
O fato é que hoje é meu último dia letivo, voltamos somente em fevereiro. Agora todos os cursos de nossa querida UNIFAE serão semestrais (antes, somente Fisioterapia e Economia), o que vai demandar mais trabalho para os valorosos funcionários, mas creio que vai melhorar muito a burocracia (no bom sentido).
O que me espantou este ano é o enorme contingente de alunos de exame de 'segunda época'. Em nosso Regimento Interno, se o aluno não obtém média com o exame final, pode ter outra (e última) chance de fechar as notas, anulando-se a nota obtida no exame e substituindo-a pela nota da segunda época. A média para fechar é 5, o que considero pouco, mas justo por ser a maioria curso noturno (admiro as IES que tem em seu Regimento Interno determinado que a média mínima para fechar disciplina é 7, como o ITA - Instituto Tecnológico da Aeronáutica, localizado no Centro Tecnológico Aeroespacial - CTA, em São José dos Campos, SP. Meu mano Luciano, que estudou lá, disse que o costume em dia de prova era o docente passar a avaliação e sair da sala; se algum aluno colasse era denunciado pelos próprios colegas, ciosos do elevado conceito que desfruta a escola). Creio que, para compensar, os cursos da UNIFAE deveriam ser mais extensos, com um ou dois anos a mais, para garantir que o aluno tenha acesso apropriado às atividades acadêmicas em sua plenitude.
Nestas férias vou preparar as aulas e seu cronograma para 2010, preparar palestras para empresas (trabalho já para janeiro - descansamos carregando pedras - mas coloridas pedras, perfumadas e enriquecedoras pedras...) e ler, ler muito. Adoro ler. Não sei porque esta geração não aprecia ler como a minha geração e a de meus pais. Estes gadgets modernos tiram muitos fãs do livro, infelizmente (se bem que, alvíssaras! soube que o leitor eletrônico de livros da Amazon, que se chama Kindle, nome sugestivo, que agora está à venda em Pindorama, vai ser isentado de tributos - é um aparelho eletronico - sendo equiparado a 'livro' - já que é efetivamente um leitor de livros). Vejo o resultado desse pouco contacto com a leitura: muitos jovens não sabem pensar, conversar, discorrer, dissertar, analisar... Quanto mais pesquisar, compor, arrazoar, comparar, criticar... mas chega de reclamar! 'A sorte está lançada'...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

acidente Ruthinesco...

Interessante caso ocorreu em familia. Eu comuniquei via 'imeiu' alguns parentes sobre um pequeno acidente ocorrido com Ruteca (o meu Bilú), e o caso demonstrou como os fenomenos da cloud computing e trabalho digital cooperativo podem se mesclar para elucidar a sempiterna complexidade de nossas vivências... Dizia eu para o pessoal sobre como ocorreu o acidente, uma quase-reles luxação:


"Voltavamos de uma compra perto de casa, ao cair da tarde, chovendo torrencialmente. Saímos do veículo automotor, eu com guarda chuvas (em espanhol se diz 'el paráguas' - nao sei porque lembrei disso...) na mão esquerda e sacolitas na mão direita; Ruth com as duas mãos ocupadas. Dado momento ela, trajada aos pés de sandalinha (ela gosta tudo no diminutivo, p. ex. ela disse depois que o bracinho ficou 'doloridinho'...) falseou o pé na borda da calçadinha e rolou, desabou, ruiu inopinadamente como um saco de batatas (ou sacolinha de batatinha, visto que ela é mimosinha como um colibri) batendo o ombro, o cotovelo e as mãos, em uma ordem que não sei precisar, mas se nao fosse trágico, seria cômico. Resultado - saiu o olecrano da cabeça do radio, dito sem firulas do jargão fisioterápico (que ela, já no segundo ano de fisio correu a explicar) o antebraço ficou deambulando, com certo afastamento do braço, cena feia de se ver, pelo 'buraco' que fica ao cotovelo, crédo!! Mas devo dizer que, após irmos ao pronto socorro, ela se portou como dama circunspecta, valente e controlada, sem derribar lágrima sequer, nem quando o facultativo presente, com maos de fada, colocou seu antebraço no recôndito do braço, de onde não devia ter saído... Hoje ela enverga adereço (uma 'tipóia' - sentido nro. 2 do Dicionário Eletrônico Aurélio, por favor) alcolchoado tolhendo o movimento dos braços, com um arroxeado chiquérrimo que aflora de sua pele alva e suave como a cútis do pêssego, mas confiante que dentre em breve poderá reassumir os sagrados deveres domésticos, doravante assumidos por este escrevinhador, o que, diga-se de passagem, estou me disincumbindo com galhardia".


Aí meu cunhado Ney, como bom engenheiro e agudo observador, aduziu aos comentários: "Caro cunhado Lucas, apesar de sua missiva tentar ser sucinta e breve, pairou uma grande duvida no que se refere de qual lado ocorreu o falseamento do pé, sem o qual não poderemos dirimir a tão cruel duvida 'batendo o ombro, o cotovelo e as mãos, em uma ordem que não sei precisar', meu caro, se o falseamento ocorreu para o lado direito e ela sendo destra existe uma grande possibilidade de devido ao aguçado reflexo tenha apoiado a mão em primeiro lugar, caso seja sinistra a probabilidade de ter batido o ombro e depois cotovelo e finalmente a mão é a mais plausível." Compreendi que deve ter sido como ele diz, pois Bilú é destra e o braço contundido foi o esquerdo... Ficou todo roxo o braço mesmo, mas com Arnica (receitado pela Lúcia, mana querida e esposa do Ney) já está voltando ao normal.


Meu irmão Luciano, também engenheiro, mas eletrônico/informático, como o outro mano Luís Sérgio, fez interessante comentário: "Lucas essa preferencia das mulheres por diminutivos tem a ver com o fato de elas chamarem os outros pela primeira silaba do nome ou seja Ju, lu, li, lulu, nei, (silabas dobradas pode ser), sérginho (diminutivo, porque 'sér' fica meio sem graça) ni, ( o fato da mãe colocar todos com 'lu...' atrapalhou um pouco.), fê, pá, xuxu, bel, li, lili, etc... Agora: é Lucao Pascóvium, Zé Bolé, Zé Geraldo, Luquinhas, Ivo Morganti, Luciano, etc...os Homens só aumentam. Sei o que vai dizer..." Desconhecia (mas desconfiava) estes interesses filológicos de meu irmão, posto que estas digressões ocasionalmente lhe são costumeiras...Mas ele, por vezes, gosta de tergiversar, tentando ser insinuante... Uma figura, sem dúvida. Vejam que ele colocou 'homem' com 'h' maiúsculo...


Todos comentaram o incidente e houve até quem nos acusasse de desocupados. Mas é que negavelmente nestes tempos últimos as 'benesses' da informática/internet permitem que estreitemos os laços que se enfraquecem pela distância e pela correria diuturna... Aliás, foi o Sérgio que sugeriu que eu colocasse a conversa no meu blog. Sugeriu, nao, ele perguntou se estava no blog, e eu resolvi colocar...



sábado, 5 de dezembro de 2009

Avaliações de Aprendizagem...


Todo ano é a mesma coisa: alunos não estudam apropriadamente, não participam do ensino compartilhado em sala de aula, não procuram o docente - nem pessoalmente nem por e-mail - para averiguar seu aproveitamento e, quando ficam de exame, a primeira reação é dizer "o professor X me deixou de exame!". Que interessante idéia que os alunos fazem do malfadado exame. No Regimento Escolar lemos que a avaliação do aproveitamento do aluno será procedida por 3 avaliações - uma no primeiro semestre, outra no segundo e uma avaliação final. Na maioria das instituições de ensino superior no Brasil, o aluno tem que tirar pelo menos nota '5' nas três avaliações. Também, habitualmente, no caso do aluno tirar média '7' nas duas primeiras avaliações, fica excepcionalmente dispensado de realizar a terceira avaliação. O que ocorreu em nossa cultura de "levar vantagem em tudo"? O aluno acredita que ele é tão bom que só - 'lógico!' - merece ser dispensado da última avaliação em todas as matérias, pois seu aproveitamento geral é sempre excelente, seus trabalhos maravilhosos, sua leitura prévia de material de aula efetivamente realizada, blá, blá, blá... "Ficar de exame" é vexação, ultraje, opróbrio perpetrado pelo cruel, opressor docente, atestado de incompetência do aluno, etc. A lista é enorme....

Creio que, ao final e ao cabo, a motivação para tal clamor nem é por mérito acadêmico; muitos moram em outras cidades e tem problemas de transporte, ou gostariam já de estar dedicando seu tempo em festas, etc... Que problema nosso ensino superior ser majoritariamente oferecido em instituições particulares (que oferecem cursos noturnos, em sua grande maioria), e com poucas vagas nas instituições oficiais, determinando que os alunos que trabalham só possam optar pelas escolas particulares... Com a escassez de bolsas de estudo, não existe alternativa para estes jovens 'alavancarem' suas carreiras mediante estudos superiores. E nas IES particulares, o grosso dos docentes é horista - não é remunerado para atender alunos fora da sala de aula. Nem vou falar da falência dos valores atuais, onde o professor (mesmo com Mestrado e Doutorado - será porque até isto, a elevada posição acadêmica - o brasileiro conseguiu avacalhar?) não detém mais nem a grácil consideração por parte do aluno (gostava mais do meu tempo quando a gente se levantava quando o professor adentrava a sala...), mesmo que sua posição docente tenha sido conquistada via concurso público - o que, na minha IES, a UNIFAE, é assunto sério, é um processo honesto, ao contrário de alguns outros concursos docentes que participei. E a 'briga' com os docentes não tem fim, com uma choradeira inesgotável... O fato é que, a cada ano, o nível dos alunos que adentram o ensino superior está cada vez pior. O grau de imaturidade para a vida acadêmica (sem falar na emocional e social) é assustador.

Recebi uma incumbência de minha querida Coordenadora de Curso - devo montar aulas de Lógica introdutória para os alunos primeiro-anistas (vou oferecer como curso de extensão aos outros anos...). Temos observado grande dificuldade do corpo discente em realizar raciocínios apropriados, sem pré-concepções e outras distorções que contaminam a análise, o desenvolvimento e a expressão de raciocínios elementares. A irracionalidade grassa inopinadamente!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

noticias... que horror!

Uff... não dá mais para assistir o noticiário, ler jornal, navegar nos sites de informação sobre o cotidiano. Só 'porcariada', como se diria na minha terra. Que horror! Sei que notícia boa não vende jornal, mas assim não dá, só "tragédia"... O que causou mais espécie neste humilde 'escrevinhador' foi a notícia que em nossa Corte maior, o Supremo Tribunal Federal, os ministros (sendo verídicas as informações..., 'salvo erro ou omissão'...) se degladiam como se estivessem num botequim de segunda. Não bastava a notícia que um membro foi indicado pelo Presidente Lula para esta Instituição, sem nem mesmo ter um Mestrado ou coisa assemelhada, agora essa... Sei que somos imperfeitos, todos, mas na Magna Corte esperamos que seus diletos membros sejam inegavelmente possuidores de virtudes elevadíssimas, afins à fina flor da elite nacional, detentores de integridade a toda prova, com o nível maior de preparo, em todos os sentidos, inclusive na moralidade, eticidade, racionalidade, etc... Quando estas expressões sofrem reparo, quando se sabe de condutas que mancham esta expectativa, é de chorar.... Já não falta mais nada!
Recebi de um dos porteiros do condomínio onde moro um recorte da Revista VEJA de 11 de março de 2009 (O Nelson sempre me brinda com textos - muitos eu já havia lido, mas nunca vou dizer a ele - tenho mais é que incentiva-lo a ler e me repassar o que ele considera digno de ler). À p. 22 leio a coluna da escritora Lya Luft, que teve livros categorizados como best seller já há algum tempo. Nomeia seu pequeno ensaio de "No paraíso da transgressão" e, 'lógico', fala do lodaçal da nossa sociedade atual, com seus valores estragados e o certo caos reinante. Ela tece bom panorama de nossa impotência frente a tantos desmandos. Eu poderia adicionar a assemelhada pequenez de nosso sistema educacional, em todos os níveis. Sei mais de perto sobre o nível universitário, calamitoso. Recomendo a leitura...
Na mesma linha, leiam o "manifesto" que o polêmico Ferreira Gullar escreveu na Folha de São Paulo de domingo, 20 de dezembro de 2009 (ano 89, nro. 29.481), à p. E-12 do Caderno 'Ilustrada', intitulado 'Cabra safado não se ama', sobre a classe política... Tenho ou não razão?

sábado, 14 de novembro de 2009

Violência contra a mulher, "de novo"...


Volto ao tema da violência contra a mulher, que sempre (trágica e infelizmente) está em pauta. A última (para registro, vejam que coincidência: fui ver no Aurélio se a palavra ‘última’ tinha ou não acento – esta reforma ortográfica me deixa confuso! - e a consulta devolveu para a locução “a última” duas acepções: - 1. A última notícia; a novidade mais recente; 2. A última asneira, o último absurdo”. No mínimo, emblemático!) situação foi o da moça (de nome Geisy Arruda, 20 anos, perfil de 'mulherão') em São Bernardo do Campo, perseguida, escorraçada por uma turba em sua faculdade (curso de Turismo) por estar trajada com um mini-vestido rosa que, conf. visto nos jornais, não é nenhuma aberração, nem atentado aos bons costumes (não tenho como saber como é o dito de corpo presente). Segundo consta, colegas (e também funcionários e professores que participaram do quase-linchamento) disseram que o indumento “era impróprio para o local, era curto demais, era transparente, era insinuante”. O sururu foi devidamente fotografado e filmado por celulares, qual burlesco espetáculo, enquanto eram providenciados um jaleco para cobrir a moça e, também, representantes da gloriosa força pública, visto que os ‘seguranças’ da Universidade (UNIBAN - Universidade Bandeirante, a 4a. maior do país em número de alunos, mas mal colocada em termos de qualidade de ensino) quedaram-se impotentes para conter a plebe vociferante. Incivilidades à parte (neste quesito, nosso país sempre se supera, a começar pela elite), o que causa espécie são três aspectos, que considero principais, do caso, e que ouso aqui apontar. O primeiro foi o fato de que quem começou a baralhada foi uma moça, no que foi apoiada por outras representantes do belo sexo e, depois, acompanhada em seu clamor por homens (duvido que algum deles iria tomar a iniciativa de vilipendiar a jovem...). Pode parecer um preciosismo deste humilde observador da conduta humana, mas revela muito das relações de gênero que se processa cotidianamente. As mulheres dizem que elas se vestem para as mulheres, e não primariamente para os homens, portanto, o que teria suscitado nelas tão portentosa reação em cadeia? (se fosse um colégio somente para mulheres, sem homem à vista, isto, o bulício, sucederia?)

O segundo fato foi ter o pandemônio ocorrido numa Faculdade, onde se imaginava (cada vez penso menos que isso ainda dali se espera, de fato,) que os humores flamiferventes fossem mais contidos, mais disciplinados, mais tendentes ao crivo da Razão. Penso em meu avô dizendo ironicamente aqui “ledo engano”... Mas o que ocorre é que a Academia, assim como o Congresso e as demais Casas Legislativas, inexoravelmente refletem o que temos hoje em nossa sociedade: entre outras mazelas, a derrocada dos valores, das virtudes, da vida plena, enfim. O terceiro fato, com certa ligação ao primeiro citado acima, é que fica patente que não se reclamou necessariamente de uma peça de vestuário em si; o que ocorreu foi a exemplificação de um machismo encoberto (perpetrado por homens e mulheres), visando relembrar que o corpo feminino deve ser oprimido. Aquela conjunção de fatos acabou sancionando a violência dirigida àquela mulher que, ao que parece, ousou como que subverter certos valores considerados ‘puritanos’. Assim, mais uma vez se acredita justificado utilizar da violência para disciplinar uma mulher, o que configura indelevelmente a onipresente desigualdade de gênero. Esta é, no fundo, a legitimadora deste tipo de indignações e agressões, ainda que fundada em delusão grosseira, posto que, entre outras ilogicidades/irracionalidades que abarca, revive a velha máxima de invocar a culpa de tudo precisamente para a vítima da violência...

E o mais interessante neste imbroglio (escrevo certo?) é que a UNIBAN resolveu expulsar a aluna, por "conduta imprópria". Choveram comentários na mídia enxovalhando a 'Direção' do pretenso 'nosocômio' escolar, o Ministério da Educação e Cultura deu dez dias para a Universidade se explicar, e pipocaram aqui e acolá protestos de alunos, de parlamentares, de representantes de algumas das mais representativas Ongs do coletivo das mulheres em situação de risco, além de Sindicatos, OAB e UNE. Tal celeuma fez o Magnífico Reitor anular a medida (escapando assim de mais uma certa condenação jurídica que sofreria, além dos outros que seguramente a ofendida patrocinará). A Universidade vai transferir a moça de campus, fazendo-a estudar em local alternativo - não se sabe se ela aceitará. Chove também convites à agora personalidade para aparecer em capas de revista (ouvi até em protagonizar película - gozado falar assim visto que todo filme hoje é digitalizado; estou velho mesmo, minha linguagem precisa se atualizar! - um filme destinado ao publico adulto) e conceder entrevistas em programas de fofocas do jet set. No fim, ela ainda vai sair ganhando algum...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Solidão

Não, não resolvi chorar as mágoas ou reclamar; na verdade sou muito abençoado! É que pretendo pesquisar este tema com os idosos do Asilo São Vicente de Paulo, aqui de São João, em minha próxima pesquisa docente do UNIFAE (programa Papec de pesquisa, vinculado à Propeq - Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa). Nos dois dias que trabalhamos lá tenho observado que muitos idosos (os que tem suas mentes conservadas, demonstrando-se lúcidos e ativos em suas atividades) sistematicamente evitam participar das atividades lúdicas e de estimulação lá realizadas. Ao inquirir os mesmos da razão de tal retraimento relatam gostar de ficar isolados, 'na deles'. Dos que participam assiduamente, boa parte apresenta déficits variados em termos motores e cognitivos, o que poderia justificar sua recusa ou má disposição em participar. Mas são os que mais aproveitam as aulas, reclamando se não ficam sabendo das atividades. É tocante presenciar como eles participam.

Alguns dos contumazes idosos que se esquivam das atividades até aparecem no refeitório principal (onde realizamos os trabalhos) depois de uma copiosa exortação que lhes perpetro, chegando por vezes às raias de lamuriento suplicar. Acho-me algo canastrão nestas performances, mas funciona. O fato é que os idosos recalcitrantes, por vezes cascavilhando para demonstrar ocupação, alegam os mais variegados motivos para eximir-se do encargo, numa brincadeira de gato e rato, pois não sei se eles acham mesmo que acredito nas suas cascatas... Mas não deixa de ser divertido. Seria cômico se não fosse trágico.

sábado, 19 de setembro de 2009

Reminiscências...

Neste sabadão friorento e chuvoso, estou agora aqui em meu apartamento, no escritório que eu mesmo desenhei - na verdade, um espaço composto basicamente de uma peça de mobília de madeira feito sob medida, compreendendo uma mesa suspensa, em forma de 'v', num canto da parede, com uma estante (colocada de modo equidistante acima da mesa, a 30 cm.) que lhe percorre toda a extensão. Entre a estante e o tampo da mesa coloquei computador, impressora, scanner, e toda sorte de utensílios que um professor pode ocupar, além de porta-retratos diversos, chicletes, minha figura do Shrek, lembranças e outros objetos. Tenho tendência a acumular coisas, como minha mãe. Não, não é um apego daninho, como se pode pensar, mas algo positivo, como que para se resignificar constantemente através dos objetos. Nada mais rejuvenescedor do que cultivar lembranças, ainda que isto possa ser polêmico. A vida é para ser celebrada, e o que fizemos e tivemos faz parte de nós, tanto quanto o aqui-agora que pensamos deter.

Eu tinha planejado escrever tantas coisas nestas semanas, mas se não posto as idéias quando ainda estão frescas, parece-me depois que já não se faz meritório. Hoje "falei" via MSN com minha filha Marilia, que mora em Utah, EUA, mais precisamente em Salt Lake City, sede de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, onde já estive duas vezes em seu magnífico Templo. Ela pretende acelerar seus créditos na faculdade de Psicologia e se graduar no ano que vem. É muito especial a idéia de um rebento seu seguir a mesma profissão que você escolheu. Será uma experiência marcante em minha vida. Ela e eu já "trocamos algumas figurinhas", apesar d'eu ter me formado há mais de trinta anos, e numa faculdade brasileira, ainda que esta tenha tanta influência (ainda hoje) das abordagens norte-americanas de psicologia.

Nestas semanas todas que se passaram, o que mais sobressai é o passamento da minha sogra, D. Lourdes Pereira Barroso, aos oitenta e três anos, de maneira súbita mas suave (faleceu dormindo, e sem estar enferma, há pouco mais de um mês). Deixou um enorme vazio, principalmente na vida de minha esposa, que se emociona todo dia ainda.

Para terminar, tive um dia dos Pais triste e alegre este ano - triste por causa da distância total dos meus filhos (não "vi" nenhum crescer...) e netos, mas alegre por ter recebido um mimo simbólico de uma criança na cerimônia do cultinho infantil da Escola Dominical da Igreja Presbiteriana da Vila Brasil, onde sou professor e Diácono. Penso em adotar uma criança, já que Ruth não pode mais conceber. Que falta faz a companhia de quem amamos tanto!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Projeto com o Asilo São Vicente de Paulo

Meu Centro Universitário incumbiu-me de executar, juntamente com outro colega docente e quatro estagiários(as) - dois do curso de Psicologia e dois do curso de Educação Física - um projeto de estimulação psicomotora e cultural com os asilados desta modelar Instituição de São João da Boa Vista. Eu já havia trabalhado anteriormente no outro centro universitário de nossa querida cidade com esta população e havia apreciado imensamente. Agora os céus me abençoam com esta nova empreitada. Quão realizador verificar que, paulatinamente, diversos idosos embotados, tristes ou alienados tornam a relacionar-se, a sorrir, a participar ativamente das tarefas, a esperar por nossa visita, sabendo todos os nossos nomes e dizendo o que gostariam de fazer no dia... Iniciamos as atividades à tarde (vamos 2 vezes por semana lá, por duas horas cada) ouvindo/acompanhando com palmas algumas músicas dedilhadas ao violão pelo nosso bardo, um dos alunos. Ato contínuo fazemos ginástica adaptada à terceira idade, dinâmicas e jogos. Dando prosseguimento às atividades, realizamos estimulação psicomotora fina (p. ex. colagens, montagens, recortes, desenhos, etc.) e encerramos a jornada com esquetes ou dança (como eles adoram dançar!) - um forró, xote, bolero ou samba tradicional. Mas o que mais nos move é o carinho com que meus prestativos alunos brindam às atividades e aos idosos, complementando os amorosos cuidados com que as Irmãs religiosas, as voluntárias e as atendentes propiciam aos idosos, a maioria com deficiências sensoriais, motoras ou intelectuais, oriundas da idade avançada. Há muitas décadas, quando era um mero petiz, incentivado pelos meus queridos pais, eu costumava visitar a Casa das Crianças de Rio Claro (entidade para acolhimento de órfãos e carentes) e depois, mais velho, como vicentino - membro da Sociedade São Vicente de Paulo (Conferência de São Dimas, de Rio Claro, SP) - a cadeia pública do município. Quantas lições de vida aprendi nestas vivências todas, que marcaram indelevelmente meu caráter e influenciam minha vida até hoje. Como é bom trabalhar para o próximo em situação mais necessitada que a nossa - faz-nos mais humildes e menos pretensiosos...

terça-feira, 7 de julho de 2009

Bilú, a mulher...


           Muitos dirão que agora 'apelei'. É que minha esposa acaba de me assanhar aqui no escritório que tenho no apartamento. Se não houvesse uma Ruth teria que inventar uma. Que conjunto de virtudes e idiossincrasias. Quantos fãs ela tem! Difícil alguém não se apaixonar pela sua personalidade. As escrituras sagradas dizem ser um dom de Deus ter uma boa esposa e eu o sei quanto é verdade. Uma companheira que desmerece este epíteto desgraça inapelavelmente o vivente, sem dúvida. Pois eu me considero um renascido, um resgatado, um restaurado no matrimônio desde que conheci a Ruth, e isto aos 50. Ela sabe o que significa realizar uma parceria conjugal - configurar existencialmente uma dupla, uma equipe em todas as dimensões. Tarefa complexa dizer o quanto suas qualidades facilitam a diuturna tarefa de compartilhar. Mas sei que pouco seria nesta esfera atual se não tivesse sua assistência e amizade desinteressada. Sim, sou um apaixonado, ainda, daqueles que sentem um frio na barriga quando vê a amada de repente, ou se emociona quando a vê trabalhando e espalhando seu charme. Sabe, estamos planejando como vai ser a comemoração de nossas bodas de prata, daqui a 20 anos. Quem viver, verá.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Mudanças...

Estou me lembrando de uma grande amiga que há muito não vejo - a Vó Cotinha. Ela era avó de uma ex-namorada, e era uma finíssima dama, na verdadeira acepção da palavra. Precisaria de muitas páginas para descrever suas virtudes (que se espraiavam em múltiplas dimensões, desde as gastronômicas, passando pelas interpessoais, até as espirituais...), mas a que mais gostava era a sua sedutora jovialidade, do alto dos seus mais de 70 anos. Espirituosa também, e por um de seus luminosos comentários me lembrei de sua adorável pessoa. Ela disse que nos anos de sua meninice em Taubaté, haviam tão poucas pessoas a vagar pelas suas ruas poeirentas que ela, à época de nossas conversas (1979-1980...), se admirava como a cidade havia crescido e quanto os costumes haviam mudado. Relatava que havia visto valores de cinco gerações - da avó, da mãe, os da sua própria, a dos filhos e, à época, a dos netos (e se estiver viva, agora a dos bisnetos...) e que tal maravilha causava espantosa espécie. Estou agora no mesmo patamar experiencial e espero ver meus bisnetos. Eu, que via somente tv branco e preto na infância e música em bolachões 78 rotações, vi surgir o computador pessoal, algo banal nos dias de hoje; surpreendo-me como a tecnologia avançou, e quem sabe o que mais verei ainda! Mas o ponto que quero chegar é que (e digo isso facilitado pelas experiências que tenho a partir de minhas profissões), paradoxalmente a estes tempos ricamente 'tecnocráticos', os jovens de hoje aparentam estar mais e mais necessitados daquelas instruções vivenciais que eram tão caras a nossos genitores antigamente - a urbanidade e virtudes ditas 'espirituais' - especialmente esta, como aquela dimensão que dá a 'liga' a outras tantas habilidades e competências que a técnica aparentemente supre hoje, mas que faltam ao completo e harmônico/equilibrado existir num mundo cada vez mais caótico... O problema hoje é que temos tantos 'gurus', livros e informação, que os verdadeiros critérios para discernir esta barafunda estão embaralhados e indiscerníveis dos 'maus' critérios. Neste âmbito, como crítico exemplo, nem a religiosidade mais é veiculada nos meios de comunicação de massa como um referencial crível, dada a polifacetada expressão. É lugar comum referir-se aos 'bons tempos' (o que é uma certa ilusão de veros macróbios...) mas, ao contrário de alguns amigos meus, não gostaria de ser jovem nestes últimos dias...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Blog, O Retorno...

Estive ausente, peço perdão, mas tive inúmeros afazeres (e nem tantas coisas importantes a dizer... prefiro calar, na melhor tradição zen...) e ‘urgências’, além de doença na família, operação de menisco e outras coisas... , agora, volto com saudades.

Coloquei aqui no meu cantinho (meu escritorinho do apartamento, com os moveis que eu desenhei – na verdade duas ‘mesas’ superpostas que formam um espaço de estudo e estante para colocar papéis, fotos, computador e periféricos, utilidades diversas e gadgets) as fotos dos meus filhos. Estão de certa maneira ‘congelados’ no tempo, pois, por egoísmo e/ou sadismo das minhas ex-mulheres (“ex-mulher é para sempre...”), foi-me negado o direito de acompanhar de modo perene o desenvolvimento deles. Meus 3 filhos do primeiro casamento vejo-os adolescentes na foto, e Lívia como um nenê, linda como ela só. Meus quatro rebentos, como se netos fossem, só os vejo de vez em quando (raramente?). Os mais velhos já há muito tem a vida deles e os contactos resumem-se em mensagens por e-mail (e não só porque dois deles moram no exterior). Com a Lívia, filha caçula, do segundo casamento, pelo menos telefono e escrevo regularmente/semanalmente; afinal, ela tem somente 8 anos. Mas vai crescer também e dar seguramente mais importância à família da genitora; que fazer, é de certo modo ‘natural’. Sim, parece que a Natureza é algo ingrata com os pais-homens, auxiliado pela Justiça que tem ali as mulheres em foro privilegiado, além de outras benesses... Pelo menos os céus são testemunhas que nunca me casei pensando em separação; eu nunca imaginei o divórcio, mas certas decisões peremptórias se interpõem, a contragosto. O fato de sentir que meu Deus nunca me abandonou me faz muito grato e aumenta ainda mais meu compromisso com a Fé.

Estou na fase mais feliz da minha vida, terminando um curso de Teologia Reformada no Mackenzie (e logo, 2010, iniciando a fase II destes estudos pós-graduados – mais um ano e meio de disciplinas teológicas), com ótima participação na minha congregação presbiteriana (IPB) da Vila Brasil, aqui em São João da Boa Vista. Aulas terminando neste semestre, férias à vista e livros a ler já separados. Vou estudar outro tanto de As Institutas, de Calvino, um clássico, para dizer pouco.

Vamos ver se apareço mais. Prometo.

domingo, 1 de março de 2009

Receita de um café especial.

Tenho um costume já estabelecido em meu casamento – fazer o café matinal de Ruth. Não entendam mal – não é obrigação, e sim ato de amor, que se estabeleceu sem que palavras fossem necessárias. Ela me brinda com tantas coisas que até que faço pouco por ela (concedo sempre às representantes do belo sexo: a mulher vive muito bem sem o homem; este sem a mulher não vive), mas não é de ‘trocas’ que falo aqui, é cortesia, ações-de-quem-gosta, concretudes, ausência de só-discurso. Pego o café em grão, premium, de Minas, duas precisas porções de uma medida já padronizada – uma ‘colher’ de plástico em forma de ‘v- e pulverizo-o num moedor só a isso destinado. Enquanto isso, escaldo a canequinha de porcelana que ela aprecia (deixando dentro da mesma uma colherinha de prata que servirá para mexer o açúcar). Se eu não fizer a bebida na nossa máquina doméstica de café expresso, coloco então a água filtrada (proveniente do pote de barro que a mantém suavemente oxigenada e descansada) no compartimento inferior do bule de café, bule este específico para café rápido aquele tripartido que faz a água ebulir rapidamente da parte inferior para o depósito superior, passando por um filtro, também de alumínio, onde repousa o pó, já previamente ali depositado. Antes de se colocar o equipamento ao fogo brando, estas 3 partes do bule são firmemente rosqueadas entre si pela porção medial, conferindo certa segurança na operação. Ao escutar-se a água esgotar, apaga-se o fogo, retira-se a água quente da canequinha, coloca-se o ebúrneo açúcar cristal na medida certa e deposita-se gentilmente o precioso néctar até o segundo terço. Serve-se em salva de prata com um toalhete de papel sedoso, adornado com um beijo, sem precisar perguntar se ficou gostoso, pois sempre se sabe a resposta. (P.S. - não tomo mais café - nem vinho, que eu gostava, por problemas de saúde. Um dia comento...)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Egoísmo e Fineza

             Nesta semana pude ver novamente como é difícil a convivência interpessoal em geral (e entre pessoas que já foram cônjuges anteriormente; como ouvi certa vez,  “uma ex-mulher é para sempre”...). Sim, no meu caso, vi novamente que, mesmo que me esforce para ser ético, elegante, cuidadoso, cortês; mesmo que confesse meu arrependimento e me desculpe, a ex-esposa pode relembrar rude, traiçoeira e  de modo boçal que ela ainda nos carrega como pesada mágoa encarnada, depois de tanto tempo, envenenando-se inutilmente. Chega a dar pena e nos suscita ao pensamento desonroso que somos, pelo menos ali, melhores que ela (o que realmente não significa muita coisa).  Que viés (por vezes) pernicioso este meu de ‘psicologizar’ os acontecimentos, mas é quase inevitável.  Porquê certas coisas tem o condão de fragilizar tanto determinadas pessoas? Por mim, digo que considero  um auto-treinamento meu ‘insistir’ que as coisas são menores do que eu, e que não é justo deixá-las nos derrubar.  Quando vejo isto nos outros constato como todos temos cruzes a carregar que podem ser, paradoxalmente, um palitinho para os outros. Lembro-me de uma crônica (se assim posso nomear) de Danuza Leão, publicada na Folha de São Paulo em 25 de setembro de 2005 (‘Considerações sobre o egoísmo’, baixar em http://www1.folha.uol. com.br/ fsp/cotidian/ff2509200505.htm) no caderno Ilustrada. Ela dizia que os egoístas não amam os demais mas, antes, não amam a si mesmos. Podem ser até boas pessoas, mas tem uma falha essencial, aquele ‘desconfiômetro’ que minha mãe sempre me lembrava quando era criança.  A grande indagação da articulista é se este tipo de pessoa pode mudar, e como. O bom senso diz que sim, mas o processo é que são elas.  Novamente, neste caso, vejo que (para mim) funciona aquela reflexão sobre o desenvolvimento das virtudes. Os antigos (notadamente Aristóteles) ensinavam que o modo de ‘evoluir-se’ para melhor como ser humano era cultivando as virtudes. Mas o que é uma virtude? Como vimos, sabe-se que, grosso modo, constitui num padrão de comportamento e sentimento: uma inclinação sistemática e consistente para agir de certa maneira e desejar e sentir certas coisas em determinadas situações. Sabemos por experiência própria que possuir emoções apropriadas é essencial para o que nomeamos ‘a arte do bem viver’, consistindo virtude (em grande parte) na posse e uso de raciocínios apropriados sobre as condutas condizentes/adequadas que devemos executar na situação em que nos encontramos, eventos que se nos são dados.  É qualidade por demais complexa, que custamos a nos conscientizar. Mais uma lição a relembrar.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Ahh.. a complexidade moderna...

Ontem estava confabulando com meu querido amigo Gilberto, à saída do Centro Universitário onde somos docentes. Moço novo, confessava sua tristeza com certo rapaz, um tanto escasso em calor humano, por assim dizer. Disse-lhe que um dia este rapaz também teria filhos e aí veria como é importante certa fineza no trato interpessoal.  Eu, que já sou avô (hmm... parece se tratar de outra pessoa - é como doença ruim, só ocorre com o vizinho) aprendi a dominar um pouco meus sentimentos; a gente pensa muito errado, habitualmente. O velho problema é a mágoa que se nos apodera. é um veneno que custa a esvanecer (falo com experiência própria, e não foi uma só vez...). Mormente é uma equação que nunca fecha, e nos debilitamos. Que duro aprendizado e, paradoxalmente, para muitos o tempo a passar não ajuda a minorar, antes, piora a afecção da alma...
Porisso que muitos não acreditam em coisas que não detenham - em si ou em virtude de sua processualidade - certo 'poder mágico'  para nos fazer melhorar ou fazer desaparecer aquilo que cremos ser a razão de nosso infortúnio, que seja coisa ou pessoa. Mas o que poucos sabem é que o mal, como Epiteto ensinava, não são as coisas em si, mas sim o que o homem pensa sobre a coisa (veja o exemplo da garrafa meio cheia ou meio vazia...) - é uma questão de ponto de vista.  Sim, falar é fácil, por isso que muitos pensam que psicoterapia não é coisa séria, mas é um raciocínio dos mais pavorosos em seu reducionismo. Volto ao assunto. Agora tenho que ir na casa do amigo Julio - alguém vai lá levar uma picanha...  (não, não ligo tanto para a carne, como muito pouco isso, gosto mais muito mais dos amigos...)

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Coincidências…

 Vi no caderno ‘Mais!’ (#876) da Folha de São Paulo (ano 88 #29.145) à p. 5 uma pequena análise de Eduardo Sterzi sobre a obra de Steiner, complementando a matéria principal. O que salta aos olhos é a recorrente confirmação, a partir de diferentes autores/contextos, do fato de que compreender precisa e inexoravelmente envolve, como apontou claramente Hans-Georg Gadamer (Verdade e Método I e II), interpretação. Pode parecer a desavisados certa minudência de acadêmico enfastioso, mas disto decorre que sempre trazemos nossos horizontes prévios (de compreensão) que pré-conduzem nosso entendimento. Este acontecimento tem grande impacto no âmbito da comunicação humana em geral (e na educação em particular), posto que não se considera, de plano, por parte da pessoa (e, por vezes, dos docentes,) este fundamental aspecto na assimilação de novos dados, conceitos, informações, et cetera. Assim, creiam, no linguajar, na lingüisticidade gadameriana, também sobre a dialogicidade do humano bem como no exame das narrativas, este fato compreensão/interpretação se impõe. Vejo mais e mais, aqui e ali, comentários e análises muitas delas esclarecedoras. Uma sugestão faço aqui – coloque no google a toda a frase < TECNOLOGIAS INTELECTUAIS E OS MODOS DE CONHECER: NÓS SOMOS TEXTO > , de Pierre Lévy, e examine um sem número de ‘imbricações’.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A Ética da Virtude (como considero o que seja 'Ética')

         
Esta exposição pretende discutir algumas questões que permitem formular uma idéia do que seja uma abordagem alternativa sobre a moralidade (um tanto diferente das correntes éticas mais majoritárias), denominada genericamente de Ética da Virtude. Tenho receios que esta despretensiosa apresentação esboce mais as dificuldades do que as boas perspectivas que esta abordagem possa conter, mas ainda assim seria um exemplo da complexidade e do rol de aspectos que estão subjacentes – e que necessitam adequada reflexão - quando se discute a moralidade.
         Para muitos, a questão ética fundamental se resume em perguntar “O que devo fazer?” ou mesmo “Como devo agir?” Supomos que a Ética nos dê “princípios morais” ou regras universais que nos digam o que fazer. Alguns, por exemplo, acreditam que “todos estão obrigados a fazer aquilo que proporcionará o maior bem para o maior número de pessoas”; outros aceitam o princípio básico do filósofo Immanuel Kant de que “ qualquer um é obrigado a agir somente de modo a respeitar a dignidade humana e os direitos morais de todas as pessoas”.
         Princípios morais como estes focalizam basicamente as ações, o fazer humano, e nós aplicamos estes princípios nos perguntado o que eles requerem de nós em circunstâncias particulares, como quando consideramos mentir ou cometer um ato extremo. Aplicamos estes princípios também quando agimos profissionalmente, como administradores ou médicos, e vemos surgir muitos institutos e centros de ética, devotados a promover programas e iniciativas voltadas à ética dos negócios, bioética, ética nas políticas públicas, etc. Estes centros e institutos examinam as implicações morais que estes princípios têm para nossa vida.
         Mas será que somente princípios morais contribuem para podemos pensar sobre o que seja ético? Enfatizar somente princípios pode então determinar que nossa vida se resuma em checar escrupulosamente toda e qualquer ação frente uma tabela de regras contendo o que pode e o que não pode ser feito? Alguns estudiosos apontam que, para considerar efetivamente o que seja “Ética”, devemos atentar para um outro componente também fundamental, as virtudes. Assim, não se trata somente de se perguntar como devemos agir; uma questão importante que podemos nos colocar é “ “que tipo de pessoas devemos ser?” De acordo com a Ética da Virtude, existem certos ideais como a excelência e a dedicação ao bem comum, aos quais devemos atentar visto que eles nos permitem desenvolver de modo pleno nossa humanidade.
         Virtude, em grego arête – excelência, origina-se do Latim vir, virtus, e exprime, em primeiro lugar, o poder e mais geralmente a força de vontade. Designa igualmente, por extensão, a eficácia ou aptidão concreta para agir que pertence a um objeto, como por exemplo, a virtude de um veneno. Para alguns gregos clássicos, existe uma virtude para cada coisa quando esta coisa perfaz sua natureza de maneira excelente: a virtude do cavalo é correr bem; a virtude do Homem seria desabrochar suas potencialidades sob o domínio da razão. O que denominamos ‘virtude’ seria um traço de caráter merecedor de admiração, tornando seu possuidor melhor, seja do ponto de vista moral, seja do ponto de vista intelectual, seja no comportar-se em condições específicas. Tradicionalmente esta escola inicia-se com Platão e Aristóteles, que investigaram a possibilidade de haver uma unidade das virtudes e o modo como a correta posse de uma virtude determina ou não a posse de outras.
         Diferentes visões do que seja virtude moral e sua relação com outras virtudes fundamentam o pensamento ético platônico, aristotélico, estóico, cristão, iluminista e romântico, além do pensamento do século XX. Estas diferenciações retratam as principais preocupações contextualizadas em cada época, ilustradas pelas necessidades materiais e culturais ali predominantes, como p. ex. a caridade, a resignação e a castidade no período cristão - o que por sua vez eram um tanto incompreensíveis para os gregos. Por outro lado, mesmo a ‘magnificência’ grega de Aristóteles seria hoje para nós algo complexo para ser entendido como um bem em si, como um elemento constituidor do “homem magnânimo”.  Hume considerou virtude como um traço de caráter com o poder de realizar o amor ou o orgulho, ao ser útil ou agradável tanto para seus possuidores quanto para as pessoas que seriam por elas alcançados ou favorecidos. Já Kant considerava virtude somente como um traço que poderia operar no cumprimento do dever, não possuindo um valor ético independente.
         O que se entende por virtudes particulares tem variado ao longo dos séculos. Na ética da virtude clássica, eram consideradas por Aristóteles virtudes principais (ou “virtudes cardeais”) a mansidão, a franqueza, a temperança, a magnanimidade, a coragem, o conhecimento prático (a phronesis grega, ou sensatez, segundo alguns autores), e a justiça, a maior delas. Na Idade Média foram adicionadas pelos filósofos cristãos a esta lista as virtudes teologais -  virtudes cujo objeto, no contexto religioso, é Deus - como sendo a fé, a esperança e a caridade (ou amor). Não obstante, consideramos que todas as abordagens sistemáticas sobre Ética têm algo a dizer sobre traços de caráter, considerados como virtudes, e sobre a natureza do que seja virtude como um todo. Uma distinção típica é realizada entre virtude intelectual e virtude moral, mas há também importantes diferenças entre as tradições de teorias morais que focalizam a virtude, e as tradições éticas que, como dissemos, dão espaço para virtude somente de passagem, indiretamente. Muitas destas se valem de ‘virtudes’ complementando o trabalho principal de investigação ética de formular os últimos princípios, leis ou regras de moralidade. Para elas, virtudes constituem efetivamente o análogo interno de um conjunto de princípios morais, inclinando seu possuidor a obedecer ou seguir o que as regras prescrevem, já que visam – virtudes e regras – alcançarem os mesmos objetivos.
         Mas enfim, qual é a natureza de “virtude”? Uma virtude, como a honestidade ou generosidade, não é somente a tendência de fazer o que é honesto e generoso, ou ter simplesmente um traço de caráter desejável ou moralmente valioso. Sim, é um traço de caráter, ou seja, uma disposição, uma inclinação intrínseca de seu possuidor. Mas é algo que não se reduz a um hábito; não é a simples disposição de se fazer atos honestos, ou agir honestamente por certas razões. Uma virtude é uma disposição multifacetada, ligada a muitas outras ações, ligada a emoções e reações emocionais, ligada a valores, desejos, atitudes, interesses, expectativas e sensibilidades. Possuir uma virtude é ser uma pessoa que possui um complexo esquema mental. Portanto, é falso ou incompleto atribuir uma virtude com base em uma simples ação ou intenção.
         O aspecto mais significativo deste esquema mental é ampla aceitação, por parte da pessoa que detêm certa virtude, de um continuum de considerações como razões para agir de modo ético. Exemplificando, imagine uma pessoa que se considera ‘honesta’. Ela não pode ser simplesmente assim identificada em razão de que comercializa honestamente e não trapaceia. Se estas ações são realizadas meramente porque a pessoa pensa que honestidade é a melhor estratégia comercial ou porque ela teme ser presa se assim não proceder, AO INVÉS de reconhecer como razão relevante que “Agir diferente seria desonesto”, aquelas não seriam ações de pessoa honesta. Outro exemplo: uma pessoa honesta não pode ser identificada como a que fala ocasionalmente a verdade porque simplesmente é a verdade, mas sim como a pessoa que reconhece o fato de que “aquilo seria mentira”, como a mais forte razão para não fazer certas afirmativas, em certas circunstâncias. Adicionalmente, esta pessoa crê, confia na importância de que a correta razão para dizer a verdade seria considerar o valor “aquilo é a verdade”.
         Assim, as razões para agir e as escolhas de uma pessoa honesta com respeito a ações honestas e desonestas refletem as suas visões sobre honestidade e verdade, e suas visões manifestam a si mesmas com respeito a outras ações ou reações emocionais e afetivas. Esta pessoa, valorizando honestidade como ela faz, escolhe pessoas honestas para se relacionar, trabalhar, ter amizades, leva seus filhos a serem honestos. Esta pessoa certamente desaprova desonestidade em amplo espectro, não se alegra com histórias e relatos de fraudes ou mensalão. Ela despreza ou lamenta aqueles que se realizam por meios desonestos em vez de pensar que são “espertos”; fica chocada ou estressada quando pessoas próximas ou queridas agem desonestamente, e assim por diante. Em resumo, parece que podemos dizer que alguém é honesto não somente observando uma ou outra ação, mas também observando outras ações e os motivos, as razões pelas quais a pessoa age, ao longo do tempo e nas diversas circunstâncias. Esclarecidas estes aspectos, podemos tentar discutir alguns contornos do que seria uma Ética voltada às virtudes.
O que hoje em dia se denomina Ética da Virtude era a forma proeminente de teorização ética no mundo antigo, mas foi largamente ignorada durante a era moderna. Houve recentemente uma espécie de novo interesse neste tipo de consideração, em parte por causa da insatisfação com os caminhos que a filosofia moral tomou até então. Esta filosofia enfatizou a obrigação moral e a lei moral, à custa das fontes morais da vida interior e da personalidade da pessoa. E, neste particular, a ética da virtude tem procurado adaptar antigas idéias de virtude aos requisitos da teoria ética atual e às questões práticas da ética aplicada.
Como vimos, a ética da virtude origina-se na Grécia Clássica, em especial com Aristóteles, que sustentou que uma compreensão apropriada do que é reto e admirável na ação humana não pode ser capturado por princípios ou regras gerais, mas é, antes, pertinente a uma ampla sensibilidade e fino discernimento, qualidades estas incorporadas em bons hábitos de pensamentos, desejos e ações morais. E muitos notáveis pensadores que se denominam filósofos éticos da virtude tendem a considerar mesmo que teorização ética constitui algo equivocado, mal orientado, pois a vida moral seria por demais rica e complexa para ser captada por abordagens utilitaristas, conseqüencialistas, kantianas ou contratualistas que procuram traduzir a eticidade em princípios essenciais, fundamentais, unificados.
Mais recentemente certos estudiosos da ética da virtude começaram a ver esta abordagem como representando uma vantajosa e distinta maneira de se engajar na teorização ética, ainda que com contornos não muito claros. Alguns entusiastas nesta tradição simplesmente desejaram associar um ou outro conjunto de princípios morais, complementados com um conjunto de ações ou traços virtuosos. Outros, e constituem uma corrente mais majoritária dentro desta tradição Ética, têm procurado identificar uma ética da virtude genuína, desembaraçada de qualquer influência ou “contaminação”, independente das outras correntes mais importantes, mais conhecidas.
         Mas o quê então distingue a ética da virtude com outros modos de fazer ética? Como em muitos outros campos da Filosofia, definições precisas são difíceis de delinear, mas o contraste mais importante, como vimos, existe com as formas éticas baseadas em regras, princípios e leis morais. Na Ética da Virtude, o foco é posto no indivíduo virtuoso e em seus traços, disposições e motivos íntimos, que justamente o qualificam como virtuoso. Algumas formas de ética da virtude reconhecem regras morais gerais e mesmo leis, mas estes são tipicamente tratados como fatores derivados ou secundários.
         Assim, muitos filósofos modernos pensam que a vida moral é assunto  apropriadamente relacionado com regras morais, mas na Ética da Virtude clássica, do Mundo Antigo, e em algumas instâncias da Ética da Virtude encontradas na moderna ou recente Filosofia, a correta interpretação da vida ética requer primariamente que se compreenda o que é ser um indivíduo virtuoso ou o que é possuir uma ou outra virtude particular concebida, como vimos, como um traço ou disposição da pessoa. Portanto, a primeira coisa que se afirma sobre a Ética da Virtude -  na tentativa de distingui-la de outras abordagens -  é que ela é focada no agente, e não em atos, em ações, como a ética conseqüencialista moderna e as visões baseadas em regras morais, que se supõem governarem as condutas humanas.
         Mas outra característica importante deve ser mencionada. Uma ética de regras vai tipicamente caracterizar os atos como moralmente certos ou errados, moralmente sancionados ou obrigatórios, dependendo de como eles estejam de acordo com regras apropriadas. Estes termos morais são denominados ‘deônticos’ (da palavra grega para ‘necessidade’, ou ‘obrigatório’), e contrastam outra classe de termos éticos que possuem menor ou menos imediata conexão com regras, os denominados termos ‘aretaicos’ (da palavra grega arête - ‘virtude’, ou ‘excelência’ ), como por exemplo, os termos ‘admirável’, ‘virtuoso’. Ética da Virtude faz uso primariamente de termos aretaicos nas suas caracterizações éticas, e trata os termos deônticos como derivados dos aretaicos. Assim, ética da virtude pensa antes em termos do que é nobre ou ignóbil, admirável ou deplorável, bom ou mau, do que em termos do que é obrigatório, permitido ou errado.
         Há Éticas da Virtude que são mais radicais que outras. Aristóteles, no seu livro Ética a Nicômaco, focaliza mais os traços íntimos e de personalidade do indivíduo virtuoso do que naquilo que faz de uma ação virtuosa, reta ou nobre. Para este autor, a retidão ou excelência de uma ação não depende essencialmente dos motivos ou hábitos que deram origem a ela. O indivíduo virtuoso é aquele que, antes de basear-se em regras, é sensível e inteligente o suficiente para perceber o que é nobre ou correto em sua variabilidade de circunstância a circunstância. Mas, por outro lado, temos que apontar aqui que sua explicação da percepção parece indicar que ser virtuoso envolve estar ligado a fatos independentes do virtuosismo de alguém sobre quais atos seriam admiráveis ou retos.
         Um tipo mais radical de ética da virtude diria que o caráter ético das ações não é até independente de como, porquê e por quem as ações são realizadas. Antes, o que é independente e fundamental é nossa avaliação e compreensão dos hábitos e motivos humanos, e a avaliação de ações é inteiramente derivada e dependente do que se tem a dizer eticamente sobre a vida interior dos agentes que realizam a ação.
         Um problema na consideração da ética da virtude seria por vezes o uso inadvertido de termos deônticos como “deve”, “necessita”, por causa da força e vigor que possuem, em comparação com os termos aretaicos. Mas esta aparente superioridade parece ser enganadora. Condenaríamos mais fortemente uma ação se disséssemos que ela é moralmente errada do que se disséssemos que ela seria moralmente ? Ou, recomendaríamos mais fortemente contra uma ação dizendo que ela seria errada do que dizendo que seria má? Entretanto, mesmo que um termo aretaico não seja em princípio mais fraco em força do que um termo deôntico, pode-se afirmar que alegações deônticas são mais fortes do que as avaliações aretaicas, que tendem a ser mais neutras, moralmente falando. Parece haver então certo problema lingüístico subjacente à adequada definição terminológica nestes campos, mas permanece o fato de que a ética da virtude é baseada não em códigos, leis ou normas, mas no agente, na pessoa. Assim, deve derivar suas considerações acerca das ações humanas (não importando se estas são aretaicas ou deônticas) a partir de caracterizações fundamentais e independentes de cunho aretaico sobre os traços íntimos dos indivíduos, ou dos indivíduos mesmos.
         Considera-se que alguns motivos elevados, como a benevolência, cuidado, autonomia, justiça, responsabilidade subjazem a muitas teorizações éticas a partir de virtudes, mas os diferentes estudiosos não exibem consenso sobre suas adequações entre os diversos sistemas, e este é um dos pontos fracos desta abordagem. Muitos pesquisadores consideram que o revivamento atual da ética da virtude implica que muita discussão deve ser ainda travada até que se encontrem patamares mais claros sobre as possibilidades de realização das promessas desta visão. Encerrando esta breve apresentação, vamos ilustrar com uma estória possível algo da complexidade, do desafio de raciocinar a moralidade a partir de virtudes.
         Imagine um doente de câncer incurável. Ele pode seguramente se beneficiar de uma habilidade em esconder de si mesmo a evidência de que possui uma doença terminal. Como ficaria nosso julgamento sobre esta sua estratégia? Nós tendemos a julgar esta pessoa menos admirável do que outra pessoa que, na mesma situação, exibisse coragem de enfrentar este supremo desafio com tenacidade, que fosse menos desonesta consigo mesma, ainda que se saiba que esta sofreria mais e pudesse morrer mais cedo do que o outro doente.  Assim, algumas virtudes legítimas parecem não beneficiar seu detentor como se poderia esperar. Obviamente uma pessoa que enfrenta corajosamente sua doença pode evitar que suas amizades tenham que compartilhar uma mentira, beneficiando-as, mas pode ser mais difícil para ela lidar com estados de pânico e depressão se souber de seu estado terminal, e  deste modo fazer também outros sofrerem com seu estado...
         Portanto, as situações que demandam reflexões sobre a moralidade dos atos humanos a partir de virtudes apresentam de igual modo a necessidade que os elementos de análise sejam convenientemente explicitados, explanados, diríamos até com certa prudência  (que é uma apreciada virtude...)  A vida é por demais complexa e temos que averiguar com cuidado todas as suas nuances, seus determinantes e suas determinações.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Violência Cotidiana

Já se tornou comum expressar-se a noção da violência como algo banalizado, costumeiro, como que imbricado nas atividades que todos usualmente temos que realizar. Os estudiosos apontam que violência, em especial a dirigida contra a mulher, minorias, o idoso ou à criança, ainda que momentaneamente nos sensibilizem, não têm atualmente o condão de suscitar em nós maior reação do que um enfado ou passiva indignação, beirando a conformismo puro e simples. Na origem e manutenção da conduta violenta, estes mesmos estudiosos apontam falhas na educação familiar e escolar, determinando que o comportamento geral cidadão comum por vezes é o veículo 'multiplicador' desta cultura de violência, com seu individualismo exacerbado, com o consumismo desenfreado e os propagados valores de uma vida descartável e passageira. Como na política e  no futebol, todos temos nossas teorias porque chegamos a este estado de coisas.
            
 Modestamente me atrevo a provocar algumas reflexões, oriundas de minhas observações pessoais. Dizem que a beleza está nos detalhes, e ouso dizer que as relações interpessoais estão violentas já no 'varejo', o que diríamos no 'atacado'. Me explico – um dos atos que considero mais comezinho de urbanidade, de convivência social, é precisamente cumprimentar o vizinho, o colega de trabalho, um senhor ou senhora que cruzamos na rua, mesmo uma criança pequena que nos dirige o olhar. O que vemos hoje é um desfile de carrancas e concomitantes negações deste simples gesto, nos mais variados cenários (e mais lamentavelmente no próprio lar), o que já nos contamina e predispõe a devolver ao próximo passante a descortesia, e assim vamos disseminando uma intransigência pela simples presença do outro. Parece que o sorriso é uma expressão cada vez mais escassa, recebida somente em situações de interesse, nem sempre manifesto. Como podemos esperar gestos de compreensão e tolerância, voltados à manutenção uma cultura de convivência harmônica, de solução pacífica dos naturais conflitos, com base na sonegação ampla e generalizada de atos simples de gentileza, de palavras afáveis e olhares receptivos como vemos hoje?

Não nos apercebemos do mal que originamos ao tratar o circunstante com qualquer tipo de desconsideração, ainda que involuntária, por menor que seja. O contínuo recebimento do desdém, do desprezo do outro, somando-se aos inúmeros eventos semelhantes já vívido, expressivo em sua memória, faz o desventurado por vezes exorbitar do que julga ser razoável para ele próprio, como que 'autorizando', justificando o comportar-se de igual ou pior modo. E a cena está posta para os descalabros que assistimos todo dia, o que nos faz pensar duas vezes em ligar ou não a TV ou a comprar um jornal na banca da esquina. 

Todos os antigos lembram nesta hora 'os velhos tempos' quando, sob a denominação do termo 'escrúpulo', resumiam-se diversas maneiras de proceder em sociedade como denotativo de um caráter elevado ao seu detentor. Os pais e familiares efetivamente treinavam seus rebentos nas maneiras aprimoradas de convivência (isso era ponto de honra), que incluía o respeito aos demais, a polidez, o 'desconfiômetro' – a capacidade de se auto analisar quanto à possibilidade de estar aborrecendo ao próximo – e, principalmente, o amplo cultivo de virtudes, entendidas como aquelas disposições constantes da mente e do espírito as quais, por um autônomo esforço da vontade, inclinam seu possuidor à prática do bem. Assim, a pessoa escrupulosa era tida como um modelo de cidadão, de pessoa, merecedora de confiança e admiração. Mas parece que os valores pós-modernos não se coadunam com esta formulação. Não causa mais espécie uma pessoa ter a vida desregrada, desdourada, tresloucada, e julgar-se no 'direito' de nos afrontar, com diferentes graus, impondo-nos um verdadeiro suplício de Tântalo. Talvez evoque, quando muito, um enfado ou um esgar...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Cavalheirismo - fora de moda ?


O tema do cavalheirismo não costuma freqüentar as discussões sobre as relações interpessoais em gerais e nas relações homem-mulher, em particular. Talvez isso seja devido a algumas mudanças ocorridas nos valores que fundamentam nossas condutas sociais.

Mesmo vendo o filme, poucos se deram conta de que o Titanic, após colidir com um iceberg, teve pouco mais de um terço dos seus passageiros sobreviventes, a maioria de mulheres e crianças. Isto ocorreu devido ao fato de que muitos homens se recusaram a entrar nos botes salva-vidas porque não estavam certos de que todas as mulheres e crianças estavam embarcadas neles. Um oficial do navio que sobreviveu, ao ser perguntado se a máxima ‘mulheres e crianças primeiro’ era uma regra do navio ou uma tradição dos mares, o mesmo respondeu que era uma regra da natureza humana.
As pessoas que ainda cultivam semelhante código de valores certamente se constrangem ao ver como o belo sexo é ofendido física ou verbalmente hoje em dia, em especial aquelas que esperam bebês. Alguns críticos afirmam que esta espécie de degradação de nossa civilização se deve em parte às feministas, que diziam o cavalheirismo ser uma modalidade de tirania sutilmente disfarçada. Por outro lado, desde os anos 60 as maneiras do século XIX têm sido desdenhadas como rígidas e ultrapassadas.

Ao que parece, normas gerais de etiqueta parecem ter saído de moda. Modernamente, nossa cultura cibernética algo anárquica como que encoraja imediata gratificação e máxima auto-expressão, a qualquer custo. As mulheres engrossam as estatísticas de condutas desabonadoras praticadas em grande escala, evidenciadas principalmente pela violência, desordens coletivas e abusos de drogas, legais ou proscritas.

Sou daqueles que acreditam que as regras de etiqueta em geral e o cavalheirismo em particular são expressões que complementam as relações interpessoais onde a Lei não alcança, facultando, de um lado, viabilizar vivências enriquecedoras e, de outro, o aperfeiçoamento das instituições, principalmente o casamento. Os valores pelos quais as pessoas são ensinadas a pautar suas ações, não importa a que se dirigem, são determinadas em grande maioria pelo cuidado com que a Sociedade zela pelo constante aperfeiçoamento do mecanismo de ensino destes mesmos valores aos seus membros mais jovens. Ao vermos que a família, como núcleo básico da Sociedade, se encontra enfraquecida, o quê diremos dos valores acessórios, complementares da vida social?

As pessoas internalizam os motivos mais equivocados para autorizarem-se praticar condutas denotativas de falta de urbanidade, de educação. A tônica atual de nossos dias é pelo individualismo, não-cooperação, falta de solidariedade. A re-aprendizagem de valores intrinsecamente humanos, solidários, pressupõe uma reflexão aprofundada sobre os modos como nos tratamos mutuamente, em especial aqueles dirigidos às mulheres e crianças – e também aos idosos... Este repensar é fundamental não somente para dar um novo sentido a temas como etiqueta e cavalheirismo , mas para viabilizar a continuidade de um ensino efetivo destes valores às futuras gerações.

Os gregos clássicos vêm em nosso socorro para compreendermos porque ocorre tamanha modificação nos modos de tratamento entre as pessoas hoje em dia. Esquecemo-nos da ‘regra de ouro’ helênica, que rezava ser um contra-senso desejar-se conhecer o mundo externo, sem antes esforçarmo-nos para conhecer o mundo interno. “Conhece-te a ti mesmo” parece ser ainda hoje um sábio conselho, e a falência das pessoas em conhecer a Felicidade repousa numa série de equívocos, a começar pelo privilégio que se concede às coisas “de fora”, mais do que aquilo que nos é personalístico. Assim, a muitos pode parecer natural não cultivar mais o cavalheirismo, assim como espoliar, defraudar, violentar, impedindo o exercício adequado de nossa civilidade. Em muitos sentidos, creio que estamos não avançando pelo século XXI, mas rumando ao tempo da pedra lascada...