terça-feira, 29 de julho de 2014

Outro texto...Interdisciplinaridade



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Realizei outra compilação, agora sobre interdisciplinaridade, que basicamente foi realizada a partir dos textos de dois dos maiores eruditos nacionais na área da Educação: PAVIANI, J., Interdisciplinaridade: conceitos e distinções. 2ª ed. rev.  Caxias do Sul (RS): Educs, 2008, e FAZENDA, I., (Org.) O que é Interdisciplinaridade? São Paulo: Cortez, 2008.

A origem da interdisciplinaridade situa-se nas transformações dos modos de constituir a Ciência e de conceber a realidade e, igualmente, no desenvolvimento dos aspectos político-administrativos do ensino e da pesquisa nos espaços científicos tanto institucionais quanto organizacionais. Entre as causas principais da necessária emergência da interdisciplinaridade estão a rigidez, a artificialidade e a falsa autonomia das disciplinas, as quais não permitem acompanhar as constantes mudanças no processo pedagógico e a produção de novos conhecimentos. A palavra interdisciplinaridade evoca a "disciplina" como um sistema constituído ou por constituir, e o termo sugere um conjunto de relações entre disciplinas, abertas sempre a novas relações que se vão descobrindo. ‘Interdisciplinar’ seria, grosso modo, toda interação existente dentre duas ou mais disciplinas no âmbito do conhecimento, dos métodos e da aprendizagem das mesmas. Assim, interdisciplinaridade seria o conjunto das interações existentes e possíveis entre as disciplinas nos âmbitos indicados.

Ainda que o termo interdisciplinaridade seja mais usado para indicar relação entre disciplinas, hoje alguns autores distinguem de outros termos similares, tais como a pluridisciplinaridade e a transdisciplinaridade. Estas também podem ser entendidas como forma de relações disciplinares em diversos níveis, como grau sucessivo de cooperação e coordenação crescente no sistema ensino-aprendizagem.

Interdisciplinaridade tem se constituído como termo polissêmico de estudo, interpretação e ação. Desde a década de 60, inúmeros foram os movimentos na tentativa de se definir seus limites epistemológicos, como que buscando uma unicidade conceitual. No emprego terminológico dos conceitos que procuram dar movimento e integração à disciplina, é a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade que parecem ter uma diversidade maior de sentidos. No que diz respeito aos conceitos de multidiscipinaridade e de pluridisciplinaridade, há quase um consenso quanto às bases conceituais de definição:

Multidisciplinaridade: é a organização de conteúdos mais tradicional. Os conteúdos escolares apresentam-se por matérias independentes uma das outras, sendo que as cadeiras ou disciplinas são propostas simultaneamente sem que se manifestem explicitamente as relações que possam existir entre elas. Multidisciplinaridade seria a prática de reunir os resultados de diversas disciplinas científicas em torno de um tema comum, sem visar um projeto específico. Ao que parece, então, muitos currículos ou programas de ensino se limitam a ser multidisciplinares, reunindo um conjunto do ensino de diversas disciplinas sem articulação entre elas.

A pluridisciplinaridade seria a existência de relações complementares entre disciplinas mais ou menos afins. Seria o caso, p. ex., das contribuições mútuas das diferentes histórias (da ciência, da arte, da literatura etc.) ou das relações entre diferentes disciplinas das ciências experimentais.  

Já os conceitos de inter e transdisciplinaridade provocam uma amplitude polissêmica de sentidos entre os mais diferentes autores. Zabala descreve a interdisciplinaridade como sendo "a interação entre duas ou mais disciplinas, que podem implicar transferência de leis de uma disciplina a outra, originando, em alguns casos, um novo corpo disciplinar, como, por exemplo, a bioquímica ou a psicolinguística".

Paradoxalmente, o conceito de interdisciplinaridade só pode ser explicitado de um modo interdisciplinar, exigindo inclusive a interferência da lógica, da filosofia, da história e de outras disciplinas. Seu âmbito de referência pode ser descrito de múltiplos modos. Pode-se, por exemplo, considerar as seguintes perspectivas: (a) a natureza do objeto de estudo ou o problema de pesquisa; (b) a atividade de diversos professores voltados para um objeto de estudo ou de diversos pesquisadores para a solução de um problema de pesquisa a partir de diversas disciplinas; (c) a aplicação de conhecimentos de uma disciplina em outra ou de um domínio profissional em outro.

Assim,  interdisciplinaridade constitui um princípio mediador entre as diferentes disciplinas, não sendo  elemento de redução a um denominador comum, mas elemento teórico-metodológico da diferença e  da inovação. Seria o princípio da máxima exploração das potencialidades de cada ciência, da  compreensão dos seus limites e, acima de tudo, é o princípio da diversidade e da criatividade.

Por todos estes aspectos parece ser praticamente impossível  conceituar consensualmente a interdisciplinaridade. De um lado há uma "interdisciplinaridade implícita" não dita, interna, própria da racionalidade científica que, pelo avanço de conhecimentos, acaba criando disciplinas. Por outro lado, há  um uso interdisciplinar constituído externamente através de campos operativos que articulam ciência, técnica e política, sobretudo através de intervenções sociais,  como é o caso da saúde.  Nas universidades, o debate, quando existe, se concentra no  diagnóstico sobre a excessiva especialização e a impotência unidisciplinar de  responder às pretensões do conhecimento.

Os contextos sociais, econômicos e políticos vigentes na sociedade, entre eles a instituição Escola, colocam liames que tornam uma ação interdisciplinar um grande e laborioso desafio de arrojo. A característica que demarca os estudos das práticas interdisciplinares sustenta a afirmação de que a interdisciplinaridade é possível por sua capacidade de adaptar-se ao contexto vivenciado, reafirmando o respeito às questões do que se apresenta como realidade contextual, seja no aspecto político, ou econômico, ou cultural. A interdisciplinaridade se nutre na base da leitura da realidade tal como ela é, assumindo suas nuances e peculiaridades, bem como a diversidade presente. Assim, age como infrator, abrindo lacunas às formas estabelecidas e enraizadas, dispondo as soi-disant certezas no âmbito da temporalidade e da incerteza. A interdisciplinaridade, portanto, convive com a disparidade, com a debilidade, com a hegemonia e com o poder, e dá um salto de possibilidades, precisamente atuando nas brechas.

No âmbito educativo e do ponto de vista cognitivo, a interdisciplinaridade recupera a unidade na compreensão das "coisas", uniformidade que foi fraturada durante a pesquisa científica, a qual procede na via de uma especialização progressiva. O trabalho interdisciplinar, portanto, não consiste no aprender um pouco de tudo, mas no enfrentar o problema (explicativo, previsível, interpretativo) com toda a competência do perito que domina o problema, suas dificuldades, as explicações e previsões dos outros competentes. Além do mais, do ponto de vista psicossocial, a interdisciplinaridade que se realiza através do trabalho de grupo, dos docentes e discentes, poderá ser um dos fatores que contribuem ao desarraigamento de competição na escola, enquanto impulsiona a ver no outro um colaborador e não um rival. A interdisciplinaridade é estratégia valiosa no combate dos efeitos alienantes da divisão do trabalho.

A interdisciplinaridade é percebida, quando existe a possibilidade  de transformação da realidade em que se atua, procurando-se colocar as partes em relação ao seu  significado perante a totalidade. A interdisciplinaridade é muito mais um processo que pressupõe “atitude  interdisciplinar” do que a mera integração de conteúdos programáticos, ou  do que a possibilidade de realização de investigação por diferentes estudiosos. A interdisciplinaridade pressupõe ausência de intolerância ou preconceito teórico, constituindo-se mesmo como apurada visão de mundo. 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Complexidade...


Gravura obtida agora (via Google Images) de
http://www.europosters.pt/estilo-de-vida-poster/


Estou pesquisando um tema para um novo projeto no Unifae e coloco aqui umas reflexões. Eu fiz uma compilação de algumas idéias de um filósofo bem conhecido, EDGAR MORIN, a partir do seu livro Ciência com consciência (8ª ed. rev. e mod. pelo autor. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005), que recomendo a todos a leitura...

Quando se pensa em ‘complexidade’, imaginamos um emaranhado de eventos, atos e ações em interação recíproca, ou mesmo acasos, que determinam nosso mundo. Num primeiro relance, complexidade seria uma trama de componentes heterogêneos que se ligam de algum modo, expressando as relações aparentemente contraditórias entre aquilo que exibe unidade e aquilo que se revela com multiplicidade. A complexidade pode inicialmente ser apreendida numa situação interior de inquietação, de perplexidade, como que vislumbrando certa desordem, ambiguidade e incerteza, posto que as coisas se desvelam misturadas, embaralhadas, embaraçadas.

Quando se intenta articular um tipo de ‘pensamento voltado para a discussão do complexo’, uma das primeiras aquisições que se obtém é precisamente discernir que o problema da complexidade não é necessariamente o da completude, do acabamento, mas o da incompletude do próprio conhecimento. O pensamento complexo visa lidar com aquilo que os outros tipos de pensamento deixam de lado, ao recortar a realidade e seus constituintes segundo seus cânones. Os demais modos de pensar caem facilmente pelos caminhos da simplificação e do reducionismo, como que mutilando os fenômenos, truncando-os, separando-os, pois é isto precisamente a processualidade de seus métodos.

O impacto que os estudos da complexidade determinaram nas Ciências criou as condições para questionar o seu próprio fazer, permitindo considerar a ‘Ciência’ como legítimo suporte para estabelecer uma nova dinâmica do conhecimento e do processo de entendimento.

Parece, neste novo cenário, que o considerar o que é complexo pode permitir definir melhor o mundo empírico, a incerteza e a enorme dificuldade de se aproximar da certeza, de articular e enunciar hipóteses, teorias e leis científicas, de conceber uma ordem estável no universo. Poderá, certamente, contribuir para resgatar algumas funcionalidades da lógica, em especial aquelas que nos ajudam a evitar contradições. No pensamento clássico (que parece ainda viger no dia-a-dia), quando emergia contradição no bojo de uma argumentação, a mesma era entendida como sinal de erro. Tal situação determinava que era necessário voltar atrás e reformular os termos, ou erigir nova argumentação. Na visão do pensamento complexo, no percurso empírico-racional, ao deparar-se algum tipo de contradição, isso não é necessariamente evidência de erro, mas sim de descoberta de uma dimensão mais profunda da realidade que nossa lógica se revela inábil para lidar, oriunda das características dessa mesma profundez.

Algumas características do pensamento complexo já são suficientemente estabelecidas atualmente. Em primeiro lugar, e de modo coerente, o estatuto semântico e epistemológico do termo complexidade não está concretizado. Ao examinar-se a literatura, observa-se que os estudiosos em diferentes campos do saber empregam o termo de modo diverso. Parece, assim, que as enunciações sobre a complexidade constituem-se em discursos que se generalizam no âmbito de diferentes vias, visto que existem múltiplos caminhos de entrada à ela.

Outro aspecto fundador é que, ainda que estudiosos da complexidade exibam posições diferentes sobre o termo, quase todos diferenciam “complexidade” e “complicação”, ou entre um problema apenas quantitativo e um tema qualitativo, visto que, com o discurso sobre a complexidade, aborda-se  sempre um problema lógico e geral. A complexidade espraia-se não apenas à Ciência, mas também à Sociedade, à Ética e à Política, constituindo-se um problema de pensamento e de paradigma que envolve uma epistemologia geral. Podemos dizer que a complexidade surge como problematização, como dificuldade, como incerteza e não como uma clareza e como resposta. O problema é saber se há uma possibilidade de responder ao desafio da incerteza e da dificuldade.

Sendo um pensar necessariamente articulante e multidimensional, um pensamento complexo nunca constitui um pensamento completo. A natural ambiguidade do pensamento complexo é poder lidar com as articulações entre domínios disciplinares desarrraigados pelo pensamento desestruturador, fragmentador, como faz, p. ex., o pensamento simplificador, que isola o que separa, e parece ocultar tudo o que ata. Neste tipo de pensar, interpretar e compreender, entender algo revela-se necessariamente como interferir e retalhar a multiplicidade da realidade enquanto tal.

A partir destas considerações, depreende-se que não se pode chegar à complexidade por uma definição anterior, preliminar. No próprio fazer do pensamento complexo, necessita-se seguir caminhos diversos, o que nos leva a perguntar se existem complexidades, e não uma complexidade. Morin indica algumas das diferentes ‘avenidas’, vias que podem conduzir ao que ele denomina "desafio da complexidade". Uma delas seria o da irredutibilidade do acaso e da desordem, que estão presentes no universo e ativos na sua evolução. Não se pode resolver a incerteza que as noções de desordem e de acaso trazem, visto que o próprio acaso não está certo de ser acaso. A incerteza continua, inclusive no que diz respeito à natureza da incerteza que o acaso nos traz.

Uma outra ‘avenida’ possível é a transgressão, nas ciências naturais, dos limites daquilo que poderíamos chamar de abstração universalista que elimina a singularidade, a localidade e a temporalidade. Por exemplo, a biologia atual não concebe a espécie como um quadro geral do qual o indivíduo é um caso singular. Ela concebe a espécie viva como uma singularidade que produz singularidades. A própria vida é uma organização singular entre os tipos de organização físico-química existentes. E, além disso, segundo Morin, as descobertas de Hubble sobre a dispersão das galáxias e a descoberta do raio isótropo que vem de todos os horizontes do universo trouxeram a ressurreição de um cosmo singular que teria uma história singular na qual surgiria nossa própria história singular.

Outra ‘avenida’ possível é a da complicação. O problema da complicação surgiu a partir do momento em que se percebe que os fenômenos biológicos e sociais apresentavam um número incalculável de interações, de inter-retroações, uma fabulosa mistura que não poderia ser calculada nem pelo mais potente dos computadores, e daí vem o paradoxo de Niels Bohr que diz: "As interações que mantêm vivo o organismo de um cachorro são as impossíveis de ser estudadas in vivo. Para estudá-las corretamente, seria preciso matar o cão". Pensar o complexo abarca apreender uma misteriosa relação complementar, no entanto, logicamente antagonista , entre as noções de ordem, de desordem e de organização.

Tema muito interessante, sem dúvida. Inclusive porque aqui nem sequer arranhei a riqueza do tema, seguramente. Tente colocar este termo no Google -  surgirá milhares de páginas! É o retrato da (pós-)modernidade contemporânea: tudo junto e misturado...

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Últimas elocubrações destas 'férias'...



'Calder ' 
( de Ferdinando Sorbo
Cellole, caserta - Italy,
obtido agora via Google Images, de
http://pixels.com/profiles/ferdinando-sorbo.html )

Fuçando na web vi uma Galeria virtual, onde figura esta pintura; encontra-se imagens lindíssimas lá; vale a pena conferir. Eu não gosto muito de arte moderna, mas quando é de qualidade, realmente aprecio!

Impossível deixar de comentar o placar de  7 x 1 do jogo Alemanha-Brasil nesta Copa. Quê 'apagão' dos futebolistas que nada; foi falta de preparo mesmo, em todos os sentidos. Muitos não souberam imaginar uma explicação plausível, porque a única é o amadorismo e improvisação que subjaz em muitas de nossas realizações. É da alma brazuca:  falta de seriedade em geral - 'todo mundo é assim', e acabamos nos acostumando, e nos rendendo a esta 'solução' - e depois tudo fica 'bem', vamos levando a vida. Compromisso pra quê? A isso não nos impede a mofa, a zombaria do resto do mundo; não é mais feio fazer papel de bocó... Paciência! (até quando, não se sabe, mas já começa a azoretar).

Vi na revista EXAME desta semana (uma das seis ou sete revistas que teimo em assinar...), a melhor revista de negócios daqui, interessantíssima reportagem de capa - que vou transformar em palestra eventual aos meus alunos - denominada "A Fábrica do Futuro" (edição 1068, ano 48, n. 12, 09 de julho de 2014, p. 32 a 44).  Ela versa sobre a nova revolução industrial que está a processar-se no mundo, e que envolve 3 forças que mutuamente se alimentam: o enorme e onipresente progresso tecnológico (principamente a computação e a automação - leia-se em especial a 'robótica'), a decorrente e extensa digitalização de 'tudo', e as novas frentes de inovação, que ocorrerá de forma cada vez mais colaborativa. 

Vou dar palestras aos meus alunos pois esta tendência constitui um caminho sem volta, e muitos deles não estão atentos a estas questões, por várias razões que  já abordei aqui neste espaço. Uma das mais excruciantes é a falta do hábito de ler sistematica ( quero significar com foco, e de modo critico) e disciplinadamente. Olho com preocupação para o que espera estas novas gerações, pois a velocidade das transformações vai acelerar-se cada vez mais, e temos que desenvolver recursos (complexos) para interpretar estas mudanças, mais e mais impactantes. E, para usar um jargão da área da Administração, mudança 'crítica', que significa que, se for mal gerida, influenciará tudo o que vier a seguir. Podemos imaginar decisões impróprias determinando carreiras perdidas e vidas comprometidas, pela falta de subsídios e ferramental adequado para tomar as diretivas de existência apropriadas...

Como tudo no Ser, como no Existir, vivenciar cada qual sua vida implica um tanto de ciência, um tanto de arte; um tanto de conhecimento, um tanto de sensibilidade, um tanto de objetividade, outro tanto de subjetividade. Combina-las bem - equitativamente -  é que é o sumo desafio... Eu consegui, mercê do Eterno, resgatar a religiosidade como fiel desta 'vivente' balança. Mas dirão que é um dos caminhos (para mim é o único); pode ser que, aos olhos terreais, existam outros, como p. ex. a procura do Belo, da Justiça, da Virtude, da (tal) Felicidade... - é só ler os jornais para averiguar o calidoscópio que constitui a existência humana contemporânea, em todos os sentidos!  Eu, se não tivesse a Fé Reformada, certamente acharia este Ser-e-Existir - como imagino ser para a maioria -  cada vez mais confuso!