quarta-feira, 28 de março de 2012

Relacionamentos...


gravura obtida agora de 
http://fernandogomespr.blogspot.com.br/2010/04/como-cultivar-relacionamentos-saudaveis.html


Tenho muitos alunos e alunas. Alguns vem e vão. Poucos permanecem. Pouquíssimas vezes vemos iniciativas de com-vivências que marcam pela sinceridade. Recebo e-mails e comunicados de alunos, a maior parte para procedimentos acadêmicos, 'administrativos', ou de esclarecimentos sobre disciplina.

Uma das novas alunas, Ana Paula, mandou-me este seu texto:


Milésimo de segundo


'Como se toda a tristeza e a dúvida do mundo chegassem em um segundo. De felicidade plena tudo se transforma em incerteza, medo.

Todos os seus sonhos parecem impossíveis e tudo o que você mais quer é algo (ou alguém) que conforte o seu coração de uma forma rápida. Como um milésimo de segundo.
Todas as palavras e explicações são vazias, o que mais importa nesse momento é o final disso tudo.

A incerteza dói, e dói muito mais na solidão. Solidão entre muitos. Solidão na multidão.
Confortos falsos não importam mais. Que caiam as máscaras e se feche a cortina desse espetáculo da vida real!

O único espectador é você. O único ator principal é você. O mundo gira. Tudo passa, porém um instante parece ser infinito aos olhos do sofredor.
Drama, comédia, tragédia. Tudo se mistura em pouco tempo.
Em um dia, uma comédia de erros, fatos do cotidiano, nada muda.
No outro, uma tragédia grega, e tudo parece desmoronar.

Ao invés de um consolo, me consolo com o silêncio. Sei que os segundos e as horas vão passar, tudo vai se acertar. O destino é sábio, cria situações, sabe o fardo, o sofrimento, mas logo depois de tanta tristeza e incerteza a alegria impera.
Alguns segundos de tristeza são necessários para construir o resto de uma vida de alegrias.'


Pergunta se acho dramático ou melancólico... nem um nem outro, é dela, um texto denso, vivencial, carregado de pessoalidade. Fala de solidão, tristeza, sonhos, incertezas, medos e felicidade. Mas o que chama a atenção é que ela remete tudo isso à responsabilidade da pessoa em viver estes achados, estas vivências, e a paradoxal transitoriedade de tudo isso ... Acho que  ela será uma humanista-existencial, como eu.

Vou lhe remeter alguns textos, sei que ela vai gostar muito...

segunda-feira, 19 de março de 2012

Sinal dos tempos!

gravura obtida agora de: bit.ly/GzGJbl (ali tem notícia sobre isso também)


Para mim, a notícia impactante da semana passada foi o fato de a centenária Encyclopaedia Britannica não vai mais ser oferecida em papel. Lembro-me até hoje da emoção de receber a minha, na época em que fazia Mestrado em Ciências da Motricidade, lá no Instituto de Biociências da UNESP, em Rio Claro (SP). Eu tinha ido acompanhar minha orientadora, a inesquecível Professora Maria Eunice Quilici Gonzalez, a um Congresso de Filosofia em Águas de Lindoya, e lá havia um vendedor da Britannica muito eficiente e... resultado: como consegui uma condição bastante favorável, com suaves prestações, logo estava com minha coleção. Sempre que posso a manuseio - é algo incomparável, realmente.

Quando adolescente li muito a Britannica de meu pai (ele também havia comprado a Britannica Júnior, mas eu logo me apossei da edição principal) e aprendi a amar aquela coleção; até o cheiro do papel - igual a da Bíblia - me seduzia... Coisas de quem ama os livros - fato que era muito estimulado em casa. Que rigor, que textos primorosos! Os maiorais de cada campo do conhecimento escreviam nos diversos tomos, ricamente encadernados e decorados. Um primor de acabamento (couro!), sem dúvida... Parece que os novos tempos da digitalização de tudo são 'irreversíveis'; veja mais sobre esta tendência em  bit.ly/zqFmqg

Outro fato que chamou muito minha atenção: um ínclito membro do Ministério Público decidiu processar o maior de nossos dicionários por constar nele o registro desabonador da palavra 'cigano'. Se isso vingar (em nosso país pode-se esperar tudo!) veremos revisar todos termos pejorativos em nossos dicionários (se bem que o insigne funcionário da justiça verberou somente contra o Houaiss...). Mas como que ainda hoje se pensa em matar o mensageiro por causa da mensagem que ele carrega? Eu sempre imaginei que quem deveria ser 'morto' seria aquele que precisamente mandou o mensageiro carregar/entregar a mensagem... que coisa! Vi um comentário a respeito do assunto pelo literato Paquale Cipro Neto, da Folha de São Paulo (Ano 92, nro. 30.297, de 15 de março de 2012, à p. 'C-2' do Caderno Cotidiano) e ri muito. O professor tem a finura das palavras, efetivamente.

Cáspite! Tenho uma certa mania, confesso: acumulo textos que gosto, e arquivo em pastas suspensas e caixas 'montes' de recortes de jornal e cópias impressas de artigos, papers e xerox de capítulos de livros. Que excentricidade a minha, vou procurar um psicanalista... Digo a mim mesmo que 'um dia' posso precisar, etc... será patacoada? Tenho dó de deitar fora; folhas e folhas contendo ditados, aforismos, apotegmas e parêmias as tenho reunidas em diversas pastas 'preciosas'! Que mania, preciso remir...    =)

terça-feira, 13 de março de 2012

artigo A NATUREZA DO AUTO-ENGANO: proposições iniciais


Resumo
Este artigo discute a natureza do fenômeno do Auto-engano e os diversos campos onde se manifesta. Aponta-se que os aspectos cognitivos, conativos,   afetivos, intencionais, conscientes, inconscientes e volitivos podem tomar parte no entendimento do fenômeno.
  
            O Homem sempre enfrentou a situação onde a falsidade, a mentira, o logro pode tomar parte, e envida diuturnamente esforços tanto para empregar com certa segurança estas estratégias contra terceiros, quanto para identificar as que os mesmos utilizam contra ele. Apesar de certos agentes políticos serem, ao que parece, atualmente, os mais notórios usuários deste tipo de 'jogo' (v., p. ex. BONASSI, 2007, p. E-6), um tipo especial de logro muito investigado atualmente consiste na situação onde existe identidade entre o agente que logra e o agente que sofre a ação de engano, denominado 'Auto-engano' (doravante grafado 'AE'). Este artigo pretende discutir algumas nuanças que envolvem a correta identificação do fenômeno, como parte de uma investigação psicológica sobre a violência interpessoal  posto que, entre outros, conforme Rosenfield (2007, p. A-2), “a mentira é um meio de provocar a violência (...)”. (Para uma sucinta explanação dos principais aspectos psicológicos da natureza do fenômeno do AE, v. SHAPIRO, 1996).

          O problema do AE, à semelhança do problema mente-corpo, tem intrigado os estudiosos, desde tempos imemoriais - inclusive nas Escrituras cristãs encontra-se menção de tal fenômeno, como em Gálatas 6:3. Na literatura sobre o tema tem-se definido o termo como o ato de enganar-se a si mesmo ou como o estado de estar enganado por si mesmo. Não há consenso entre os especialistas sobre o fato de que aquele que se auto-engana estar ou não consciente de tal ato. Em que sentidos casos de auto-engano seriam distintos de hipnotismo,  'lavagem cerebral', 'pensamento positivo', 'cegueira intelectual', raciocínio ou pensamento tendencioso (enviesado), juízo distorcido ou outras formas de irracionalidade? No entanto, a considerar-se que o AE envolve logro intencional, a definição irá direcionar ao questionamento adicional sobre como alguém pode, ao mesmo tempo, pretender iludir-se e ter sucesso em tal empreitada. (MARTIN, 1986; MELE, 1987).

A definição usual de AE ( como p. ex., “The act of deceiving oneself or the state of being deceived by oneself ”, HONDERICH, 1995, p. 818) encontrada em diversos  textos é, aparentemente, circular. Observa-se grande variabilidade de interpretações entre diversos autores sobre o que seria AE, como por exemplo, em Platão (Crátilo), em Sartre (L’Être et le néant) e em Kierkegaard (Enten-Eller), para citar os mais conhecidos. Será que estes autores se referem ao mesmo fenômeno? Ou são diferentes fenômenos sob a mesma nomenclatura, o que leva a considerações sobre diferentes usos do termo? AE parece facilmente ser algo paradoxal. Como pode o enganador-que-conhece ser ao mesmo tempo o enganado-que-desconhece? Como pode alguém, intencionalmente, sabendo, não saber? Se isto ocorre, o processo requer um monitoramento seletivo de si mesmo e esta seletividade implica, de um lado, saber o que deve ser sabido e ao mesmo tempo ser capaz de não sabe-lo (SHAPIRO, 1996).

            Por outro prisma, em que difere essencialmente mentir para si da mentira para os outros? Para ilustrar com um aspecto do cotidiano de todos, o fenômeno da protelação de tarefas, pode ser um exemplo de AE? (ver, p. ex., MELLO, L. E. de A. M. ‘Amanhã eu faço’ – Estudos relacionam a protelação de tarefas à ansiedade e à depressão. FOLHA DE SÃO PAULO, 03 de Janeiro de 1999, Caderno mais!/Ciência, p. 5-13.; MICHELOOTTI, G.  Empurrando com a barriga. FOLHA DE SÃO PAULO, 17 de Janeiro de 1999. Cad. Campinas/Revista, p.3-17)  Parece não haver unanimidade sobre o entendimento da natureza do AE (SVECE, 1996), tornando trabalhoso o estudo do fenômeno. Muitos aspectos podem estar envolvido na determinação do fenômeno. Por exemplo, PALUSH (1967, p. 276) diz que uma pessoa X está auto-enganada quando:

(1) X crê p e p é falso. (2) X sabe a evidência relevante contra a verdade de p. (3) X tem algum motivo para descartar a evidência. (4) Se o motivo foi insuficiente ou deficiente, X veria que p é falso e a sua negação verdadeira. (5) se o motivo fosse tornado claro a X ele veria que isso não proveria razões legítimas para a sua crença. (6) X é livre para discernir a capacidade do seu motivo.

[(1) X believes p and p is false. (2) X knows the evidence which counts against the thruth of p. (3) X has some motives for discounting the evidence. (4) If the motive were lacking X would see that p is false and its negation true. (5) If the motive were made clear to X he would see that it provided no legitimate grounds for his belief. (6) X is free to discern the character of his motive]

            Nesta linha de pensamento, FOSS (1980, p. 241) declara que ‘Jones deceives himself that  p  just in case (i) Jones brings it about that Jones believes that  p, and (ii) Jones knows that not-p. Para SIEGLER (1962, p. 473) se White diz a Brown que Brown está enganando a si mesmo, White está dizendo a Brown que este tem uma crença errônea, e aquele está afirmando que é irracional para Brown ter tal crença. Por outro lado, Herbert FINGARETTE (1969, p. 81) aduz que o auto-enganador é aquele que de certa maneira está comprometido no mundo mas recusa o próprio comprometimento, não o reconhecendo a si mesmo como seu [‘the self-deceiver is one who is in some way engaged in the world but who disavows the engagement, who will not acknowledge it even to himself as his']. Enquanto os dois primeiros autores descrevem o fenômeno empregando explicitamente o conceito de crença, este ultimo parece fundamentar o AE em aspectos emocionais.

            Adicionando algumas dimensões não presentes nas formulações anteriores, AUDI (1985) estabelece que:

Uma pessoa, S, está em um estado de auto-engano com relação a uma proposição, p, se e somente se: (1) S inconscientemente sabe que não-p (ou tem razão para crer, e inconsciente e verdadeiramente crê que não-p); (2) S sinceramente admite ou está disposto a admitir sinceramente, que p; e (3) S tem ao menos uma carência que explicita, em parte, tanto porque a crença em não-p de S seja inconsciente e porque S está inclinado a admitir que p, mesmo quando reconhece, constata evidência contra p.

            Aqui temos intencionalidades ('sinceramente admite'), crenças 'inconscientes', 'carências' e 'inclinações' tomando parte na explanação do fenômeno, o que faz acreditar que o acontecimento possui muitas dimensões que, em princípio, desafiam qualquer proposta simplista de definição. Até ocorrências como 'esquecimento', colocado de modo vago ('certas circunstãncias'), como em CANFIELD & GUSTAVSON (1962, p. 34-35) é proposto:  “tudo o que ocorre no auto-engano (...) é que a pessoa crê ou esquece algo em certas circunstâncias [all that happens in self-deception (...) is that the person believes or forgets something in certain circumstances]”, e as circunstâncias constituiriam a falta de garantia para a crença envolvida.

            Esta lista pode ser consideravelmente ampliada, com variações mais ou menos ampla nos níveis descritivos envolvidos. Em resumo, analisando algumas das formulações citadas, podemos ver que Fingarette pensa AE como compreendendo engajamento no mundo, enquanto que muitos dos citados consideram o fulcro do fenômeno repousando na crença numa proposição p, concomitantemente com a crença na proposição não-p. Foss indica que AE requer duas crenças contraditórias (e parece sugerir também que Jones intencionalmente engana a si mesmo), enquanto que Audi, Canfield & Gustavson, Siegler e Palush descrevem AE consistindo na presença de uma crença sem sustentação, sem garantia, em outras palavras, sem evidência. De modo diferenciado dos demais estudiosos considerados brevemente aqui, Audi considera que AE requer conhecimento inconsciente, o quanto paradoxal possa isto parecer.

            Assim, mediante o exame desta literatura, observamos que o tema do AE possui muitas interfaces como p. ex., (a) estados cognitivos; (b) estados conativos; (c) estados afetivos; (d) intencionalidade; (e) estados da consciência; (f) determinismo e liberdade; (g) estados volitivos, que direcionam o estudo para possibilidades de contribuição, além da Psicologia, também para a Filosofia da Mente e para a Filosofia da Ação. De igual modo, no âmbito da Filosofia Moral, o tema do AE também exibe considerável questionamento.

            O estudo do AE e da conduta mentirosa apresenta relevância tanto teórica, auxiliando a clarificação do uso comum do conceito, como prática, conforme tem sido proposto p.ex., por alguns setores da área da saúde ensejando que auto-afirmações de cunho duvidoso podem atuar como coadjuvantes em determinadas terapias de cunho psicológico (McGARRY-PETERS, 1990; RUDDICK, 1999), o quanto isto possa ser eticamente questionado.

            Ultimamente tem-se observado grande interesse sobre o estudo do engano de si e dos outros, dissimulação e esquivas, com discussões e pesquisas patrocinadas nos mais diversos campos de investigação. Nas Ciências Jurídicas, cremos que o entendimento dos motivos que levam as pessoas a cometer certos atos envolvendo mentira e engano deliberado pode colaborar na aplicação adequada da Justiça, posto que podem levar a situações de abuso e violência. Neste âmbito, muitas questões do Direito Civil (principalmente) ligados ao AE tem sido objeto de discussão como, p. ex., nas acusações de abuso sexual infantil (KOCOURKOVA & MALA, 1996) e falsas acusações de estupro (BIEDER & MAES-BIEDER, 1995; FELDMAN et al, 1994; KANIN, 1994). No Direito Penal, faceando a Psicologia Forense e Judiciária, muitas questões sofrem semelhante escrutínio, como na situação de interrogatório onde se originam falsas confissões (GUDJONSSON, 1990, 1992;).

            No campo da Psicologia, a discussão de muitos aspectos do AE e suas interfaces tem sido propostos. Dentre elas podemos citar o uso de instrumentos psicológicos de avaliação da personalidade na identificação de dissimulação de abuso de substâncias (FALS-STEWART & LUCENTE, 1997) e de jogadores compulsivos (JOHNSON et al, 1997), no uso de referenciais psicofísicos na identificação da mentira (VINCENT & FUREDY, 1992), na Psicologia da adoção, sobre crianças e adolescentes que sofreram abusos ou injúrias (WILKINSON & HOUGH, 1996; GLASPER & POWELL, 1996; RICCI, 1995; RIESER, 1991), na pesquisa sobre hipnotismo (KINUNNEN et al, 1994) e assertividade (KERN, 1994).

            Um dos tópicos mais desafiadores (e que interessa de perto ao Psicólogo) seria a ocorrência do engano em situação de psicoterapia ou consulta, nos mais variados temas (BILLIG, 1991; SMITH, 1991; HENDRICKS, 1990; O’SHAUGHNESSY, 1990). O estudo do AE aqui pode ser associado a certos aspectos do comportamento lingüístico, favorecendo novos insights (SIEGRIST, 1995). Uma lacuna que observamos no exame da literatura é a inexistência de instrumentos que possam auxiliar ao Psicólogo a inventariar de modo rápido e confiável a extensão da posse de idéias inapropriadas/irracionais e relacionados ao nível de ansiedade por parte do cliente, e que favoreceriam a ocorrência de engano, auto-engano e dissimulação na situação de consulta.

No que tange às implicações sociais da circunstância do fenômeno do AE, averigua-se que o mesmo, mediante sutis variações, parece estar disseminado, como vimos, por todo espectro do relacionamento humano. Muitas dimensões da mentira, do engano e do auto-engano são objeto de pesquisa, como lograr nos relacionamentos interpessoais casuais e íntimos (DE PAULO & KASHY, 1998), inclusive com subdimensões quanto à opção sexual das pessoas (BURDON, 1996), no ambiente de trabalho (MILLER, RESICK & RICHMOND, 1997), e no ambiente da promoção da saúde física (HUDSON, 1996; HADJISTAVROPOULOS et al, 1996; SOBEL, 1996). Encontramos igualmente interessantes discussões sobre o fenômeno do AE em estudos no tratamento de usuários de tabaco (WOODWARD & TUNSTALL-PEDOE, 1992), na formação de estudantes de medicina (THOMPSON, 1995; WATTS, 1995) e na prática da enfermagem (TUCKETT, 1998; TAMMELLEO, 1997). Mesmo na área de negócios, certas descrições remetem ao tema do AE (GARCIA, 1998).

            Com o acelerado desenvolvimento da tecnologia da comunicação, a velocidade e a magnitude das influências interpessoais ficam, ao que parece, mais e mais pronunciadas. Em igual extensão podemos esperar que os problemas nesta área do engano e auto-engano possam afetar maior número de indivíduos, em especial àqueles que não tem oportunidades igualitárias de inserção na Sociedade. Neste sentido, acreditamos que as iniciativas que promovam o esclarecimento das dificuldades humanas em geral (notadamente, nos últimos tempos, problematizados pela questão da violência) e do engano em particular tornam-se cada vez mais missão dos estudiosos e cientistas, em especial àqueles voltados para as Ciências Humanas.

            Estas constatações iniciais permitem identificar uma dificuldade importante para a consideração da questão do AE e o prosseguimento de nossa discussão. Perguntamos novamente: estas diferentes interpretações do que constitua AE são diferentes definições para o mesmo fenômeno, ou são descrições de diversos fenômenos sob a mesma nomenclatura, ou ainda, corporificam descrições de diferentes usos do termo Auto-Engano?

            Para estabelecer um parâmetro de trabalho dentre as muitas acepções para o fenômeno, iremos atentar em nossas futuras investigações para o termo AE e o significado do mesmo na linguagem ordinária, visto a ocorrência de ‘alguém-enganar-a-si-mesmo’ existir já antes de qualquer estudo teórico sistemático sobre o fenômeno. Este significado pode servir de base para comparação dentre as diferentes interpretações formuladas, averiguando quão coincidentes ou distantes as mesmas se mostram quando comparadas com a noção presente no senso comum do termo. Acreditamos que da análise dos muitos horizontes descritivos poderemos ampliar nossa compreensão sobre o fenômeno, em especial para a determinação e emergência das situações de crise nas populações (pequeno grupo), como p. ex., as de violência interpessoal.

REFERÊNCIAS


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sábado, 10 de março de 2012

Um filme que honra a indústria do Cinema...

Emma Thompson, via web


Uff...  ontem cedo  na TV a cabo (Cinemax),  um filme americano (HBO Films) de 2001 que é um soco no estomago. O título original, ‘Wit’, foi aportuguesado como ‘Uma lição de vida’, o que faz perder um pouco do sentido: como substantivo, WIT quer dizer juízo, razão, inteligência viva, ou destreza, habilidade, além de finura, perspicácia, agudeza, sagacidade, pessoa espirituosa ou brincalhona, aspectos intrínsecos à personalidade da personagem principal. É película do Diretor Mike Nichols, com a fabulosa Emma Thompson no papel principal, coadjuvado por Audra McDonalds como a enfermeira-chefe, e também a grande atriz inglesa Eileen Atkins,  ainda que esta apareça pouco no filme.

É uma história ambientada em nossa época, sobre uma celebrada professora (que é catedrática de poesia inglesa do século XVII), de nome Vivian Bearing, que descobre ter câncer no ovário, em estágio avançado. Ela é uma pessoa fria, inflexível, que se fragiliza posteriormente com a grave doença. Esta película pode ser apreciada em muitas dimensões, além de ser uma reflexão pessoal e tanto sobre a transitoriedade da vida. Eu o vejo também como uma excelente ferramenta para treinamento de estudantes da área da saúde, posto que propicia valiosas intelecções sobre o relacionamento profissional-paciente, sobre questões éticas como, p. ex., suicídio assistido (não diretamente abordado ali), sobre Deus, sobre cuidados paliativos, sobre solidão e desamparo, sobre liberdade, sobre a finitude e a efemeridade da vida, etc... é um filme denso, profundo mesmo. Honra a sétima arte!

Comento uma passagem que me foi marcante (entre várias, algumas bem impactantes – não vou dar mais detalhes para não ser ‘desmancha-prazeres’...): aquela em que, às 4 da madrugada, paciente e enfermeira-chefe conversam, compartilhando um sorvete (bom para minimizar os desconfortos gastrointestinais da terapia anticâncer), sobre a opção que a doente tinha de ser ou não ressuscitada, em caso de parada cardíaca. A única pergunta da professora é se a enfermeira iria continuar cuidando dela...; depois que a enfermeira se vai, a professora se pergunta se tinha se tornado piegas; discute consigo sobre vida & morte, e se questiona, porque imaginava que “ser inteligente fosse suficiente...” A cena seguinte dela de se encolher no leito, embaixo do cobertor, totalmente desarvorada, desamparada, lembra um desejo de voltar ao útero... Ela diz... “dor, uma palavra tão pequena..., mas que paradoxalmente significa estar viva...”

Impossível não se comover, ainda mais sendo um profissional que vivencia ocasionalmente estes desafios em seus clientes. Como sempre digo, somos frágeis, uma ‘casquinha’... Nada como um filme de alto nível assim para nos relembrar velhas lições!

terça-feira, 6 de março de 2012

Saudades de Rio Claro...

Arquivo pessoal

Esta foto foi retirada quando ainda morávamos em Rio Claro (SP) na casa da Rua Três, no bairro de Copacabana, em frente ao estádio do Velo Club. Como sempre, a mana Lia está no centro da bagunça. A gente era (bem, ainda somos...) muito festeiro, muita comemoração - com 5 filhos casados e com netos sempre tem um motivo! Esta casa deixou muita saudade, afinal, moramos todos lá (com intervalos de estudo, casamento, divórcio, e trabalho) por 40 anos. Meu pai fez umas 4 grandes reformas e ampliações na mesma...

[ Eu já tive o cabelo ainda mais comprido do que aparece na foto (não dá mais para deixar assim, que pena...) mas meu mano mais velho, Luciano desde o final da adolescência já tinha cabelo em queda - é o único calvo dos manos, como meu pai. O Sergio, à direita, ainda ostenta densa cabeleira. ]

Que família bonita, esta do Sr. Geraldo e de Dona Firmina. Três engenheiros, uma fisioterapeuta e um psicólogo. Dois PhD, um Mestre e duas pós-graduadas Especialistas. Tal resultado deve-se ao precoce incentivo que os genitores deram aos filhos, com grande sacrifício, em termos de leitura, estudo, cursos e oportunidades. Lembro-me das conversas com meu pai e ele me dizendo como ia ser o futuro... muito antes do surgimento do computador pessoal e outras coisas comuns hoje em dia ele alertava para a importância de estudar informática e inglês. Todos nós, adolescentes, cursamos inglês, e os meus dois irmãos efetivamente acabaram realizando estudos graduados e pós-graduados sobre computação e sistemas informatizados. Eu e minha mana Lúcia fomos para a área da Saúde; Lia também virou engenheira, mas da área de Saneamento, mas hoje ministra aulas e trabalha com arte (jóias artesanais).

Penso nas tragédias diárias que vemos nos meios de comunicação - principalmente originadas ou problematizadas pelo abuso de substâncias. No fundo, em geral, desgraças oriundas de pessoas que tiveram famílias desfuncionais, desestruturadas, com pais problemáticos, sem um apoio, sem muitas vezes, uma palavra boa, colocada na hora apropriada... Resultado - pessoas desarvoradas, principalmente jovens, que tristeza!

Quão importante nos foi (filhos e netos) uma família bem estruturada, firme mas afável, irmanada em torno do amor de um casal à moda antiga. Somos muito ligados, os cinco, apesar das distâncias e diversas atividades, cada um com sua nova família... Que Deus nos conserve, e aos nossos pais, ainda por muito tempo, com saúde e amizade eternas.

domingo, 4 de março de 2012

outros aforismos

Ilustração obtida agora de
http://wallacemaia.blogspot.com

Estamos aqui desde ontem, Bilú e eu, visitando pai e mãe.... Sempre gosto de vir aqui, também para bisbilhotar a biblioteca do apartamento. Vi um libretinho antigo (Instantes de Reflexão - Sabedoria de Ilka Brunhilde Laurito, São Paulo: Melhoramentos, 1990) com diversos ditados selecionados. Vou comentar alguns aqui, de um autor que destaco entre tantos.

Sou fã de Machado de Assis, o maior na língua portuguesa, acredito. Olhe o que ele sintetiza:  "Matamos o tempo; o tempo nos enterra". Adoro estes jogos de linguagem, pois nos obriga a refletir a polissemia dos termos, a encontrar a sapiência subjacente no viver expresso em tão poucas palavras. Lembro-me das meditações Zen Budistas a que me entregava há tempos, quanto se falava do tempo. Inexorável tempo; mais cedo ou mais tarde acerta-se as contas com ele, quer dizer, com o que fizemos com ele... Mas certa angústia vivencia-se agora, antevendo o desfecho certo de todos e cada um.

Leio outra pérola do nosso Machado: "Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens que de um terceiro andar". Bem a calhar nestes tempos pós-modernos, como se diz, de relacionamentos tão deturpados entre os iguais, das pessoas mal-educadas e néscias. Tal provimento de paciência preconizado pelo sábio, já útil ao seu tempo, agora é um imperativo, se não quiser atritar-se a torto e a direito, diariamente... E isto, a possibilidade de desentendimento com o semelhante, é lugar comum que não escolhe mortal, mesmo em lugares onde dantes eram mais naturais o cavalheirismo, os bons modos, como na escola ou na igreja. Eu creio que o que explica tamanha profusão se condutas reprováveis entre semelhantes seja a ausência de um genitor que dê exemplo construtivo neste sentido. Mas como disse Machado em outro lugar, "Quando a gente não pode imitar os grandes homens, imitemos ao menos as grandes ficções" ... 

A sabedoria nos vem em grande parte aprendendo destes luminares que já 'bateram a cabeça' antes, e que nos podem evitar sofrer, como eles decerto sofreram. Eu, por mim, aprendi com Machado que "há coisas que melhor se dizem calando", mas o que fazer quando o outro é surdo e cego, mudo e teimoso como um asno, que só quer enxergar a verdade que acredita habitar somente entre as suas (enormes) orelhas, e em ninguém mais? Eu procuro aprimorar a humildade, ainda que eu seja falho e imperfeito ao extremo, o que me faz pensar que nada somos, talvez um sopro, um nada que, se Deus quisesse, nos aniquilaria com um estalar de dedos!

Encontrei há tempos, para finalizar, outro ditado de Machado, a propósito: "Grande coisa é haver recebido do céu uma partícula da sabedoria, o dom de achar as relações das coisas, a faculdade de as comparar e o talento de concluir"... (reticências minhas) Sempre procuro esmerar-me nestas complexas orientações mas, neste mister, me fio na Religião (Reformada, Calvinista), posto que necessito de um vero sistema de valores que lastreie minhas intelecções - é muito fácil nos enganarmos, 'tomar os pés pelas mãos'...

Vou pegar a estrada daqui a pouco para São João da Boa Vista; espero descansar neste resto de dia para iniciar bem a semana entrante, que vai ser bem agitada, com muitas tarefas, principalmente a manutenção do apartamento (e também do carro), 'benesses' modernas que nos apoquentam, na exata medida que nos dão conforto ou prazer. Boa semana a todos e todas!