segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

PSICOLOGIA & FENOMENOLOGIA: UMA LIGAÇÃO NECESSÁRIA

Neste artigo, de pretensões meramente didático-propedêuticas, irei discutir algumas noções básicas da abordagem fenomenológica husserliana e seus liames com a Psicologia. Uma grave lacuna da formação acadêmica nesta Ciência da conduta reside em prescindir do conhecimento de aspectos históricos e filosóficos que embasam o seu fazer (ou seja, que ajudam a consubstanciar, na prática, os conceitos fundamentais do campo de conhecimento). Por isso nosso objetivo aqui é sugerir um percurso de estudo e reflexão que pode ser proveitoso para estudantes dispostos a averiguar o material de estudo anexo, os termos, associações e autores referenciados.

No dicionário (FERREIRA, 1986), a palavra fenômeno pode explicitar vários significados: 1. Fato, aspecto ou ocorrência passível de observação; 2. Fato de interesse científico, suscetível de descrição ou explicação; 3. Fato de natureza moral ou social; 4. Pessoa que se distingue por algum talento extraordinário; 5. Pessoa, animal ou objeto excepcional por alguma particularidade; prodígio; 6. Objeto de experimentação; fato; 7. O que se manifesta à consciência, e 8. Na Filosofia de Kant, tudo que é objeto de experiência possível, i. e., que se pode manifestar no tempo e no espaço através da intuição sensível e segundo as leis do entendimento. As noções 6, 7 e 8 nos interessam propriamente neste nosso discurso, mas note, por agora, que a palavra fato é encontrada em vários dos sentidos possíveis. Mas antes vejamos o termo mais detidamente.

O termo Fenomenologia vem do grego phainomenon, coisa mostrada. Na moderna Ciência, especialmente na Física, é empregado para descrever um corpo de conhecimentos que relaciona diferentes observações empíricas entre si, de um modo consistente com uma teoria fundamental, mas não derivadas diretamente desta teoria. Por exemplo, expressões algébricas simples podem ser usadas para modelar observações ou resultados experimentais em diferentes amplitudes, massa e escalas de tempo, e utilizadas para fazer predições sobre os resultados de outras observações ou experimentos, não obstante o fato destas expressões em si não poderem ser (ou não terem sido) derivadas da teoria fundamental destes campos de conhecimento.

Outro modo de descrever Fenomenologia na Ciência geral é que ela faz a interface entre experimento e teoria. Ela é mais abstrata e abrange mais passos lógicos do que a experimentação, mas é mais ligada a ela do que a própria teoria. As fronteiras entre teoria e o fenômeno, e entre Fenomenologia e experimentação, são um tanto vagas e, em certo sentido, dependem da compreensão e intuição do cientista que está lidando com elas. Por outro lado, muitos pesquisadores poderão afirmar que a modelagem fenomenológica dos fenômenos não constitui necessária compreensão do fenômeno, mas concordarão que ela possui um papel válido no âmbito da Ciência. Para clarificar o que eu digo, pode ser útil relembrar a diferenciação de experimento – um procedimento metodológico, e experiência (Erfahrung). Vulgarmente, ‘experiência’ é o conhecimento e a habilidade obtidos gradualmente na vida prática, enriquecendo a personalidade e o pensamento. Na teoria do conhecimento, grosso modo, é a faculdade de apreender o real pela intuição sensível – experiência externa – ou intuição psicológica – experiência interna. Juntamente com a consciência, constitui o principal domínio dos estudos sobre a mente.

Mas como termo, Fenomenologia é mais conhecida como uma escola moderna de filosofia, fundada em 1901 por Edmund Gustav Albert Husserl, filósofo alemão nascido em Prosznitz (da Moravia, um dos domínios do então Império austro-húngaro) em 1859, e falecido em abril de 1938, com quase 80 anos, deixando em torno de 40 mil páginas taquigrafadas, fruto do seu ensino e pesquisa filosófica. A maior parte deste material, muito ainda inédito, está depositada nos Arquivos Husserl da Universidade de Louvain, na Bélgica e também em Colônia, na Alemanha, e na Escola Normal Superior em Paris. Husserl teve uma formação acadêmica em matemática na Universidade de Berlin, doutorando-se nesta disciplina em Viena, com apenas 23 anos de idade. Ali, a partir de 1884, passou a estudar com Franz Brentano (1838-1917), que o influenciou a estudar Filosofia. Em 1887 defendeu tese de Livre Docência na Universidade de Halle, denominada Sobre o Conceito de Número, e em 1916 passou a lecionar na Universidade de Friburgo, onde Martin Heidegger tornou-se seu assistente de 1919 a 1923. Dito brevemente, a Fenomenologia, como concebida por Husserl, se concentra em descrever detalhadamente a experiência consciente, enquanto suspensa (entendida como ‘colocada entre colchetes’ – [ ] , um símbolo matemático de associação, equivalente ao parênteses) de todas suas pré-concepções, interpretações e explanações. Em geral é entendida como uma metodologia de pesquisa qualitativa que se concentra em analisar mais a experiência mental do que o comportamento (COLMAN, 2003, p. 553).

A influência da Fenomenologia na Europa foi extensa e foi particularmente importante no início do desenvolvimento do Existencialismo, este, um termo um tanto vago, indefinido, que identifica a reação, liderada por Kierkegaard, contra o racionalismo abstrato da filosofia de Hegel. Contra a concepção hegeliana da consciência absoluta, na qual todas as oposições seriam supostamente reconciliadas, Kierkegaard insistiu na irredutibilidade do subjetivo, uma dimensão pessoal da vida humana. Ele caracterizou esta palavra ‘existência’ em termos da perspectiva da “existência individual”. Heidegger seguiu Kierkegaard utilizando o termo Existenz para descrever o modo de ser que é distintivo da vida humana, nomeando-a como Dasein, e contrastou-o com o modo de ser dos objetos que categorizamos em termos do seu uso (Zuhandenheit), e também do modo de ser dos objetos que em geral pensamos, em sua totalidade, como independente de nós (Vorhandenheit). Heidegger também sustentou que a característica distintiva da existência humana surge da irredutibilidade da preocupação prática com que somos postos a respeito de nossas vidas, no sentido de nosso próprio ser constitui-se como um problema, e o modo com que enfrentamos este problema determina a natureza de nossa existência. Não há uma essência humana fixa que proveja estrutura para a vida humana que seja independente dos engajamentos e objetivos, os quais, dando-nos um senso da utilidade de nossa identidade, satisfaçam plenamente nossa existência. Assim, a existência do Dasein é um “ser-no-mundo”, e o modo fundamental desta existência situada no mundo é a ação (e não a percepção contemplativa, apassivada). Como ‘ação’, define-se tradicionalmente (a) aquilo – conduta - que (b) alguém - o agente - realiza de (c) modo intencional. Dita de outra maneira, o fenômeno da ação humana tem sua importância (e não só para a Psicologia) principalmente nas questões relativas ao status metafísico do agente (quem realiza a ação), e nas questões éticas e legais sobre a liberdade e responsabilidades humanas. Pode-se considerar uma pessoa, realizando alguma coisa intencionalmente, que isto resulta de algo que esta pessoa acredita e que ela também deseja: equivale esta conjunção a dizer que esta pessoa tem uma razão para realizar aquela coisa, que seria precisamente a sua causa. A definição de ação pode ser parte de uma visão na qual determinada espécie de história causal distingue ações de outros eventos. Dizer das razões de alguém pode ser encarado como dizer do por que a pessoa fez o que fez, portanto, a idéia de distintos tipos de explanação das ações é possível quando uma ação é considerada como resultante de alguém ter razões para agir. Desse modo, temos também a consideração de diferentes tipos de pensamento a partir dos quais emergem as ações, envolvendo a compreensão de crenças, desejos, valoração, intenção e escolhas.

Assim, no século XX, como vimos, Fenomenologia foi principalmente usado como um nome para designar um movimento filosófico com o objetivo primário de dirigir a investigação e a descrição de fenômenos como experienciados conscientemente, sem teorias sobre suas explicações causais e tão livre quanto possível de pressuposições e pré-concepções. Mas o termo em si é muito mais antigo. Ele já é encontrado no século XVIII quando o filósofo e matemático suíço Johann Heinrich Lambert o empregou na parte de sua teoria do conhecimento, que distinguia verdade da ilusão e erro. No século XIX a palavra tornou-se associada principalmente à obra de Hegel Phenomenology des Geistes, (Fenomenologia da Mente, de 1807), que investigou o desenvolvimento do espírito humano desde a mera experiência sensorial até o que ele denominou “conhecimento absoluto”. O denominado Movimento Fenomenológico não surgiu antes do início do século XX, mas incluiu tantas variedades que uma caracterização precisa do seu objeto necessita ser considerada. A partir deste modesto rol das fenomenologias que se relacionam direta ou indiretamente do trabalho original do filósofo austríaco Edmund Husserl, vemos que é complexo identificar um denominador comum neste amplo movimento, além da fonte comum. Mas situações similares ocorrem em outros movimentos, filosóficos ou não.

Todos os que se consideram fenomenólogos aceitam a divisa, o lema husserliano Zu den Sachen selbst (às coisas mesmas), que significa a tomada de nova abordagem ao fenômeno concretamente experienciado, um contato, como dissemos, tão livre quanto possível de pré-concepções conceituais, tentando descrevê-lo o mais veridicamente possível. Além do mais, muitos partidários da Fenomenologia assumem ser possível obter insights das estruturas essenciais e das relações fundamentais dos fenômenos com base num estudo cuidadoso de exemplos concretos providos pela experiência ou pela imaginação e pela variação sistemática destes exemplos na imaginação. É necessário estudar os modos como o fenômeno surge na consciência intencional (querendo dizer, consciência dirigida-a-objetos). Em outras palavras, Husserl discutiu em sua abordagem a intuição das essências e suas estruturas, ou Wesensshau. Fenomenologia seria a disciplina que se ocupa da análise descritiva das essências em geral.

Fenomenologia não se posiciona fora das ciências mas, antes, tenta fazer compreensível o que toma lugar nas várias ciências e assim, tematizar as pressuposições inquestionáveis das mesmas. Husserl achava que existia grande contraste entre o grande sucesso das ciências da natureza e o relativo fracasso das ciências humanas. Na era moderna, o conhecimento científico se tornou fragmentado em torno de um conhecimento transcendental com contornos objetivistas e fisicalistas, permanecendo muito tempo irresolvido. Isto se determinou devido às tentativas de se aplicar nas ciências do homem metodologias baseadas em procedimentos pertinentes às ciências exatas e naturais – um empreendimento destinado ao fracasso. Husserl ilustra este aspecto com o exemplo de Galileu e sua matematização do mundo. A verdade característica no mundo vivido não é de modo algum uma forma inferior de verdade, quando comparada com as formas científicas, exatas, de verdade mas já é, certamente, verdade, e de modo invariável, também pressuposta nas pesquisas da Ciência. Por isso Husserl afirmou que uma ontologia do mundo da vida deveria ser desenvolvida, ou seja, em outras palavras, ser desenvolvida uma análise sistemática dos empreendimentos e aquisições constituintes deste mundo da vida, que é, por sua vez, o fundamento da constituição científica de todo sentido. A mudança estimulante que aqui ocorre consiste no fato de que verdade, há muito, é mensurada seguindo um critério de uma exata determinação ou delimitação. Para isso é decisivo não a exatidão, e sim, antes, o papel exercido por aqueles atos fundadores do mundo da vida. Existem hoje basicamente duas direções para se conhecer o mundo, o modo objetivista e fisicalista, e o modo e o subjetivismo transcendental. É papel da Fenomenologia superar esta divisão, pensa Husserl, auxiliando a Humanidade a viver de acordo com as demandas da Razão. Assumindo que a Razão é a típica característica do gênero humano, esta deve já encontra-la (a Razão) através da Fenomenologia.

Aprender a empregar eficientemente a Razão não prescinde da consideração da experiência. Sobre ela, além do seu mero aspecto estático, alguns estudiosos desejam investigar seus aspectos genéticos explorando, por exemplo, um fenômeno objetivado. Tomemos como ilustração, a forma de uma flor - ela constitui-se a si mesmo no desvelar típico de uma experiência. Husserl mesmo acreditava que estes estudos requeriam, como vimos, uma prévia suspensão da crença na realidade do fenômeno, enquanto outros consideravam que isso era dispensável, se bem que ajudava. Além disso, na Fenomenologia existencial, como vimos com Heidegger, os significados auferidos com a experiência de certos fenômenos (como p. exemplo a ansiedade) são explorados mediante uma fenomenologia interpretativa (dita “hermenêutica”), uma metodologia que vai ser magistralmente clarificada por Hans-Georg GADAMER (1997; 1999; 2000a; 2000b e 2002), posto que envolve a linguagem.

Nesta tarefa de esclarecer o papel da experiência, para destacar algo da distintiva essência da Fenomenologia (e para atender a alguns objetivos didáticos desta oportunidade), pode ser útil confronta-la com algumas de suas vizinhanças filosóficas. Contrastando com o Positivismo e ao tradicional Empirismo, no qual o professor vienense de Husserl, Franz Brentano, trabalhava, apesar de ambas as tradições assumirem positivamente os dados da experiência (*), a Fenomenologia não restringia estes dados ao nível da experiência sensorial, mas admitia em termos iguais os tais dados “não-sensoriais” (categoriais) como relações e valores, contanto que apresentassem a si mesmos intuitivamente.

Confrontado com o fenomenalismo - uma posição na teoria do conhecimento (ou Epistemologia) com a qual é por vezes confundida [doutrina que afirma que os objetos físicos são reduzíveis a experiências sensoriais, ou que afirmativas sobre objetos físicos podem ser analisadas em termos de afirmativas fenomênicas que descrevem a experiência sensorial], a Fenomenologia – que não se constitui primariamente uma teoria epistemológica – não aceita nem a rígida divisão entre aparência e realidade tampouco a visão limitante de que fenômeno é tudo o que é, a totalidade (e que se traduz em sensações ou possibilidades permanentes de sensações). Para a Fenomenologia estas questões estão em aberto, ao passo que o fenomenalismo claramente negligencia as complexidades da estrutura intencional da consciência humana a respeito dos fenômenos.

Ao contrário do Racionalismo, que enfatiza o raciocínio conceitual à custa da experiência, a Fenomenologia insiste no embasamento da intuição, verificação dos conceitos, e especialmente na totalidade das afirmativas a priori. Em conjunto com a Análise Lingüística, compartilha a distinção entre o fenômeno refletido nas tonalidades de significado da linguagem ordinária como um possível ponto de partida para a analise fenomenológica. Entretanto, os fenomenólogos não assumem que o estudo da linguagem comum constitua uma base suficiente para estudar o fenômeno, visto que a linguagem ordinária não pode revelar completamente a complexidade do fenômeno. Por outro lado, em contraste com a Filosofia existencial, que acredita que à existência humana não se permite uma análise e descrição fenomenológica, posto que se tentaria objetificar o que não pode ser objetificado, a Fenomenologia sustenta que pode e deve lidar, ocupar-se dela, ainda que cautelosamente, como qualquer outro intrincado, complexo fenômeno ligado a esta nossa humana existência.

Sobre a doutrina husserliana, dois pontos criticados pelo seu autor merecem agora ser discutidos. O primeiro, seria (a) o naturalismo, e o segundo, (b) o historicismo. A noção geral sobre a posição naturalista é que ela considera que tudo o que existe é natural, e tudo o que pertence ao mundo da Natureza pode ser estudado pelos métodos apropriados, e as aparentes exceções podem ser, de qualquer modo, sempre explicados. Em outras palavras, naturalismo tenta aplicar os métodos das ciências naturais a todos os domínios do conhecimento, inclusive ao campo da consciência. Assim, a razão se torna também ‘naturalizada’. Embora uma tentativa seja realizada no sentido de encontrar-se uma fundamentação para as ciências humanas (a chamada Geiteswissenschaften) por meio da psicologia experimental, fica este empreendimento demonstrado ser impossível, porque, assim procedendo, fica o estudioso impossibilitado de captar precisamente o que está em jogo no âmbito do conhecimento, como encontrado nas ciências naturais. O que o pesquisador deveria examinar seria o relacionamento entre a consciência e o Ser e, nesta empreitada, deve perceber que deve partir do ponto de vista da epistemologia, já que o Ser se torna acessível a ele somente como um correlato dos atos conscientes. O estudioso deve prestar cuidadosa atenção como o que ocorre nestes atos, e isto somente pode ser auferido por uma ciência que tenta realizar a compreensão (Verstehen) da real essência da consciência. Esta é a tarefa que a Fenomenologia se propôs, e isto, a clarificação dos vários tipos de objetos que se obtém dos modos básicos da consciência é que torna o pensamento husserliano próximo da Psicologia.

Na Fenomenologia a consciência é tematizada numa definitiva e muito especial configuração, justamente na medida em que ela é o lócus no qual todo modo de constituição e de encontro de sentido encontra seu espaço. Na intuição humana, ocorrências conscientes devem ser dadas imediatamente no sentido de evitar a introdução ao mesmo tempo de interpretações indubitáveis, infalíveis. A natureza de processos tais como percepção, representação, imaginação, julgamento e sentimento devem ser auto-auferidos de modo imediato. A alusão “às coisas mesmas” remete não um realismo – um certo distanciamento ou grau de independência da mente, do mental - mesmo porque estas coisas em jogo são atos da consciência, e as entidades objetivas de tal modo são constituídas nela, e estas coisas formam o domínio do que Husserl denomina ‘ fenômeno’. Assim, os objetivos da Fenomenologia visam os “dados absolutos apanhados em imanente e pura intuição” (imanente é “o que está contido em ou que provém de um ou mais seres, independentemente de ação exterior” e, como termo, opõe-se à idéia de transcendente, que “é o que não resulta do jogo natural de uma certa classe de seres ou de ações, mas que supõe a intervenção de um princípio que lhe é superior”). A meta da Fenomenologia é descobrir as estruturas essenciais dos atos da consciência (as noēsis) e as entidades objetivas que lhes correspondam, os objetos intencionados (os denominados noēmas).

Fenomenologia também tem que ser distinguida do historicismo, uma filosofia que afirma a imersão de todos os pensadores dentro de uma estrutura histórica particular. Husserl objetou ao historicismo porque ele implica em relativismo, que é a atitude ou doutrina que afirma que as verdades (morais, religiosas, políticas, científicas, etc.) variam conforme a época, o lugar, o grupo social e os indivíduos. Ele deu crédito a Wilhelm Dilthey, autor de Entwürfe zur Kritik der historischen Vernunft (‘Esboços para a Crítica da Razão Histórica’) por ter desenvolvido a tipificação das visões de mundo, mas ele duvidava e mesmo rejeitava o ceticismo que fluía necessariamente da relatividade destes vários tipos. História está preocupada com fatos, enquanto que Fenomenologia lida com o conhecimento das essências. Para Husserl, a doutrina da visão de mundo de Dilthey (Weltanshauungen) era incapaz de aquilatar, de alcançar o rigor requerido por uma ciência genuína. Nada deve ser aceito como dado de antemão; o estudioso e pesquisador devem tentar encontrar o caminho voltando aos princípios verdadeiros, autênticos. Isto equivale a dizer que se deve tentar encontrar o caminho nos fundamentos do significado que se obtém na consciência. O conhecimento empírico tem validade relativa e nunca absoluta ou apodítica – aqui significando o que é demonstrável ou do que é evidente, valendo, pois, de modo necessário e, por extensão, algo irrefutável. Isto é, com Husserl, o que se acredita que deve ser procurado num conhecimento científico das essências, em contraposição a um conhecimento científico de fatos.

Fenomenologia parece constituir-se numa nova filosofia, uma teoria do conhecimento. Alguns dizem que na verdade seria um novo método de se fazer filosofia, possuindo mesmo algo como um ‘método fenomenológico’. O que se pode averiguar é que a reflexão eidética (reflexão sobre as essências e suas conexões) está no coração da Fenomenologia. Esta reflexão requer, como veremos, a redução eidética, onde deslocamos nossa atenção de uma particular instância ou qualidade para uma propriedade em si, uma essência. Assim que o deslocamento se verifica, ocorre a “visão” da essência diretamente, e em sua totalidade. Adicionalmente, após a redução eidética, podem-se apreender, por intuição, as conexões entre as essências. Podemos intuir, por exemplo, que as essências do Ego e as essências de um ser que existe num determinado espaço revelam que o Ego pode perceber o existir-num-espaço, a espacialidade do ser, somente da perspectiva espacial, da essência de um algo que tem ‘espaço’.

Concretamente, o investigador fenomenológico deve examinar, numa atitude reflexiva, as diferentes formas de intencionalidade, visto que é precisamente na e através da correspondente intencionalidade que cada domínio dos objetos se torna acessível a ele. Conforme ensina VON ZUBEN (2006),

      (...)  A noção de intencionalidade aparece em Husserl na "Primeira Investigação" na "Quinta Investigação" e nas Idéias. (Cf. Recherches Logiques, 2 tomos, PUF, Paris; e Idées directrices pour une Phénomènologie. Ed. Gallimard, París.). Na "Primeira Investigação", a intencionalidade é colocada no âmbito da expressão. A palavra para Husserl é sempre significativa, não pode ser reduzida a seu caráter físico. Há uma unidade entre o som verbal e a intenção significativa.

Husserl tomou como porto de partida entidades matemáticas, examinando posteriormente estruturas lógicas, de modo a finalmente auferir o insight de que cada ser deve ser captado em sua correlação com a consciência, porque cada dado se torna acessível à pessoa somente na medida em que tem significado para ela. A partir desta posição se desenvolvem as ontologias locais ou regionais, ou domínios do ser, como por exemplo, a região da “natureza”, a região do “psíquico”, a região do “espírito”. Além disso, Husserl distinguiu ontologias formais – da região do lógico, das ontologias materiais.

De um modo mais especifico, o que poderia ser denominado um ‘método fenomenológico’, foi a atividade desenvolvida pessoalmente por Husserl, na qual ele trabalhou sua vida inteira, denominada “Redução”. Por isso devemos entender que o mundo deve ser colocado “entre parênteses”, ou seja, devemos realizar a epochē – que quer dizer suspender o julgamento com relação à existência de objetos na consciência. Por exemplo, analisando a essência dos objetos percebidos, não devemos assumir que estes objetos, como carros e relógios, simplesmente existam e que atraiam causalmente nossos órgãos de sentidos e, sim, devemos focar exclusivamente na estrutura essencial da consciência perceptual. Por isso se diz que devemos suspender, ou colocar entre parênteses nossa “atitude natural” frente ao mundo. O pesquisador fenomenológico assim age não porque deve meramente duvidar do mundo, mas porque este mundo existente não se constitui no tema verdadeiro da Fenomenologia. O verdadeiro tema da Fenomenologia é o modo como adquirimos o conhecimento deste mundo. Esta “redução” se compõe de 3 passos.

O primeiro passo é a redução fenomenológica: tudo o que é dado é transmutado num fenômeno no sentido de que é, como dissemos, conhecido na e através da consciência. Neste tipo de conhecer (que deve ser tomado num sentido amplo, incluindo p. ex. os modos conscientes da intuição, memória, imaginação e julgamento) a intuição é o mais importante, visto que é o ato em que a pessoa capta algo imediatamente em sua presença material, concreta, e é o ato que é primariamente dado, sobre o qual se fundamenta todo o resto. Esta redução re-flete (reverte) como num espelho, a direção do olhar da pessoa que está orientado para objetos, em direção, para o sentido do olhar agora dirigido à consciência.

O segundo passo constitui a redução eidética: o captar de um objeto pela consciência não é suficiente; ao contrário, os vários atos dela devem ser acessíveis de tal modo que suas essências – suas estruturas universais e imutáveis – possam ser firmemente captadas. Na redução eidética deve-se renunciar a tudo que é factual e que meramente ocorre desta ou daquela maneira. Como vimos, o modo de captar as essências é a intuição das essências e mais as suas estruturas, ou seja, é a Wesensshau, que não tem nada de misteriosa. Antes, pode-se conceber a multiplicidade de variações do que é dado, e enquanto mantendo, sustentando, preservando esta multiplicidade, pode-se focar, dirigir a atenção sobre o que resta imutável na multiplicidade, isto é, a essência – denominado de invariante por Husserl - é o algo idêntico que continuadamente se mantém durante o processo de variação.

O terceiro passo, a redução transcendental, vem completar o segundo passo. A redução transcendental consiste na reversão, num retorno às realizações do que Husserl, seguindo Kant, denominou a consciência transcendental, apesar de tê-la concebido dum outro modo. O evento mais fundamental que ocorre nesta consciência é o surgimento da noção do tempo, mediante os atos de protenção (entendido como uma espécie de projeção, dirigido ao futuro) e retenção (dirigido ao passado) algo como uma autoconstituição, neste âmbito. Realizar fenomenologia, para Husserl, era equivalente a retornar ao ego transcendental como o terreno para a fundação e “manufatura”, a construção de todo significado. Somente quando se adquire este fundamento, esta base, pode a pessoa auferir o insight que faz sua conduta amplamente transparente, e o faz compreender como surge o sentido, como o sentido baseia-se em outros sentidos, como as camadas vão se depositando num processo de sedimentação. Husserl trabalhou na clarificação da redução transcendental até o fim da sua vida. Precisamente nesta clarificação é que residiu a causa da divisão do movimento fenomenológico e na formação de algumas escolas que refutaram algumas posições propostas por seu idealizador.

Iremos agora, nesta parte final de minha exposição, tecer alguns comentários que explicitam aproximações entre a Fenomenologia e a Psicologia. Pelo visto até agora, a filosofia de Husserl propunha certo paralelismo entre os dois campos, pois toda pesquisa psicológica empírica parece afirmar uma verdade fenomenológica ou eidética, quer dizer, essencial. No entanto, Husserl nunca supôs uma identidade entre as duas disciplinas, visto que considerava a Psicologia uma ciência empírica, ou seja, baseada na experiência.

Dentre as abordagens psicológicas, a Teoria da Gestalt foi a escola que mais se aproximou dos cânones de Husserl. Composta por antigos alunos do eminente pensador, dedicou-se ao estudo da percepção, buscando estabelecer a ligação entre o âmbito da experimentação com a interpretação fenomenológica. Pode-se considerar que a própria noção de forma se assemelha com a noção de essência em Husserl.

Uma grande restrição que Husserl fazia às escolas de Psicologia constituía-se no fato das mesmas desconsiderarem em variados graus a consciência como a origem dos fenômenos psíquicos. A Psicologia é inegavelmente uma ciência autônoma, com objeto definido de estudo, o comportamento, mas a significação que subjaz à conduta requer uma interpretação. A tarefa de interpretar o sentido, segundo Husserl, era a missão da Fenomenologia, e consistia numa reflexão fenomenológica sobre os fundamentos naturalistas sobre os quais se apóia a psicologia empírica.

Husserl rejeitou a distinção entre ciência descritiva e ciência explicativa, como proposta por Brentano e Dilthey, pois ao realizar a critica das concepções naturalistas da psicologia, enfatizou o conceito de experiência, fruto da vivência do Homem no mundo. A noção de uma Psicologia exata, semelhante à Física constitui um contra-senso para Husserl, pois aquela não necessita da metodologia das ciências da natureza, visto que a psiquè possui essencialidade peculiar, que não se pode comparar àquela do mundo natural. Como vimos, para desvendar como esta psiquè se relaciona com o corpo, necessita-se de um trabalho de interpretação, uma reflexão específica, e isto porque o Homem não seria um mero participante do mundo, mas constitui-se no ponto originário desta mesma reflexão. Esta reflexão surge precisamente de uma intencionalidade do ser humano em relação as outros e às coisas do mundo, local onde atua o sentido que integra, unifica as subjetividades, transmutando-as em realidades que podem ser compartilhadas, e cujo desvelamento é a tarefa da Psicologia. Por isso, a questão do ser e sua condição no contexto social e histórico seria aquilo que complementaria a visão empírica da psicologia descritiva.

Para Husserl, a meta final de uma ciência psicológica seria determinar as estruturas inteligíveis que vão além do meramente observável, do empírico. Neste sentido, a psicologia é a ciência do Homem frente ao mundo, que lida com a compreensão dos padrões de conduta suscitados por contextos específicos. Mas por que, pergunta Husserl, a Psicologia não tem como ponto de início a compreensão do fluxo do mundo vivido? Ele explica que como a psicologia aspira ser uma ciência natural, não parte da natureza mesma como conhecida pela intuição, mas do corpo teórico que a substitui hipoteticamente. René Descartes, ao separar a mente do corpo, determinou também que o ser psíquico quedasse naturalizado. Sem uma ontologia que explicite esta relação homem-no-mundo, a Psicologia torna-se um psicologismo, compartilhando as convicções do senso comum sobre o ser. Assim, parece ser possível afirmar (1) que o conhecimento dos fatos é tarefa da psicologia empírica, (2) a reflexão sobre a significação dos conceitos psicológicos é tarefa de uma psicologia eidética, ou fenomenologia, e (3) o núcleo do método desta fenomenologia seria a redução fenomenológico-psicológica.

Hoje em dia parece subsistir o descompasso que Husserl apontava no século XIX, de um lado, a psicofísica e a pesquisa das condutas, enfatizando o controle, a experimentação, produzindo “dados” e, de outro, a psicologia filosófica e a psicologia clínica, interessadas no ser, na emoção, gerando “abstrações”. O antagonismo entre data e abstracta fica claro quando se observa que se postula ocasionalmente a desvinculação entre psicanálise e psicologia, como se disciplinas antitéticas fossem. O ideal husserliano de unificação da Psicologia enquanto ciência da experiência ainda é um verdadeiro ideal.

A nosso ver, a ligação primordial nestes universos é a linguagem, como ressalta também BURCH (2006) e DUTRA (2002), entre tantos autores. Consideramos que o modo como os objetos se dão ao Homem constitui-se em linguagem, e que não existe experiência humanamente constituída que não seja mediada pela linguagem. A característica abrangente da linguagem implica que ela, enquanto fala sobre o mundo, ou ela, enquanto seja o mundo, também é apanhada enquanto linguagem. Dito de outro modo, afirmo que a relação entre pensamento que visa conhecer algo no mundo e linguagem é uma relação necessária. Isto porque, como vimos, a relação do sujeito que pensa e o objeto pensado deve ter um sentido e, desde que falamos de dentro da linguagem sobre a linguagem (ou seja, não conseguimos nos colocar de fora da linguagem), os objetos terão possibilidade de estar ao alcance do homem se forem expressos como significados. O Homem tem uma concepção do uso da linguagem, e ela se constitui como concepção de acesso ao mundo como totalidade. Estamos envolvidos com os objetos do mundo e descrevemos o mundo no qual se dão os objetos. Situados todos num mundo humano (que é basicamente linguagem), temos que averiguar como se dá a interpretação e a compreensão destes sentidos e significados, tanto no nível pessoal, no nível que respeita aos demais, no nível da(s) nossa(s) mútua(s) relação(ões) e, por fim, como se nos assimilam todas estas experiências em nossos horizontes (DUTRA, 1996; 2003). E assumimos que a Fenomenologia é a ferramenta por excelência para a intelecção do sentido, em especial, quando realizada hermeneuticamente.

Isto posto, e finalizando nossa discussão, vemos que a Fenomenologia por vezes tem sido acusada de privilegiar a psicologia filosófica contra a psicologia experimental, mas Husserl desejava que a Psicologia se desenvolvesse como uma ciência universal, através da noção da experiência intencional, o que nos levaria além das visões que tentam dividi-la em campos opostos e que mutuamente se excluem. Uma dificuldade infelizmente é a existência de diferenças epistemológicas irredutíveis, problematizado pela excessiva especialização e compartimentalização do conhecimento, que afetam todas as ciências, e a Psicologia em particular. Creio que hoje, ao contrário do que se poderia esperar, o saber, em vez de completar lacunas e se articular, fornecendo um panorama mais claro do que constitui o Homem e seu mundo, parece servir mais para ser acumulado em cátedras que não se comunicam, falando linguagens cada vez mais herméticas (veja-se, a propósito, interessante artigo de CHAVES, 2000), como que inacessíveis tanto aos estudiosos quanto aos estudantes...

        Penso que devemos batalhar para que o esforço de diálogo interdisciplinar em seus diversos níveis e matizes se fortaleça cada vez mais, coordenando e coadunando diversas fontes do saber, que possam recolocar as questões fundamentais para a Ciência, para a Psicologia e para a Fenomenologia, pois as perguntas formuladas por Morin ainda ecoam: “O que é o Homem? O que é o Mundo? O que é o Homem no Mundo?”


REFERÊNCIAS

BURCH, R. Phenomenology, Lived Experience: Taking a Measure of the Topic. Phenomenology + Pedagogy, Vol. 08, p.130-160. Obtido de http://www. phenomenologyonline.com/articles/burch2.html, baixado em 22/12/08 17:35.

CHAVES, A. M. O fenômeno psicológico como objeto de estudo transdisciplinar. Psicologia: Reflexão e Critica (Porto Alegre, RS), Vol. 13, n.1, 2000. (Obtido de SciELO)

COLMAN, A. M. A Dictionary of Psychology. New York: Oxford University Press, 2003.
DUTRA, E. A narrativa como uma técnica de pesquisa fenomenológica. Estudos de Psicologia (Natal, RN), vol.7, no.2, Julho/Dezembro, 2002. (obtido na SciELO)
DUTRA, L. V. O Dualismo Mente-Corpo: implicações para a prática da atividade física. Dissertação (Mestrado) - Instituto de Biociências. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Motricidade. Rio Claro (SP): UNESP, 1996.

DUTRA, L. V. Um estudo psicológico-hermenêutico da conversão religiosa. Tese (Doutorado) – Centro de Ciências da Vida. Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Ciência e Profissão. Campinas (SP): PUC-Campinas, 2003.

FERREIRA, A. B. de H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2a ed. rev. aum. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

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(*) Husserl afirmou no seu Idéias para uma Pura Fenomenologia e Filosofia Fenomenológica (Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie, de 1913) “nós somos os verdadeiros positivistas”.